Não sou mais designer: Me demito!

O título pode parecer um tanto assustador, mas não, não estou me demitindo por desilusão com a profissão ou qualquer problema semelhante.

Assim como boa parte dos profissionais (realmente) capacitados do mundo, suas carreiras passam por algumas transformações.

As experiências diversas, as pessoas que conhece durante sua trajetória, as escolhas que faz; tudo é determinante para uma mudança radical até o objetivo final. Seja ele qual for.

O fato é que, não faz muito tempo, não me via ocupando qualquer outra posição que não a de designer ou criativo. Até que minha trajetória me abriu portas completamente diferentes das esperadas.

O Prelúdio, como começou e motivações da profissão

Lembro-me ainda com clareza do dia de inscrição no vestibular, lá em 2005.

Marquei a caixa de opção de curso, com muita convicção, Desenho Industrial com habilitação em Design Gráfico.

Foi uma escolha feita com base em pesquisas, leituras e o grande sonho de atuar/estudar fora do país.

Chegou então março de 2006, iniciei meus estudos na Universidade Federal do Espírito Santo. Até então as pretenções eram simplórias; conseguir um espaço numa agência de bom porte local e galgar meu espaço.

Doce ilusão, achar que seria algo realmente relevante. Mas era o que eu, naquele momento, vislumbrava.

Trabalhar criando marcas para empresas, campanhas de comunicação para marcas relevantes do mercado e ter o papel na equipe criativa como alguém operacional.

Trabalhei para isso, passei por diversos estágios e empresas. Desenvolvi minhas habilidades, busquei cursos paralelos, cresci como profissional.

Mas algo ainda não estava certo.

As oportunidades não se mostravam tão atrativas como o sonho. Veio a crise existencial e a tal pergunta: será que escolhi o curso certo?

Persisti, até que consegui um emprego numa das agências mais relevantes do estado, diretor de arte júnior. Ali eu notei que meu portfolio poderia ter algum potencial. Passei a acreditar mais em mim e no meu trabalho.

Em meu período nessa empresa, aproveitei para absorver o máximo que pude. Aprender mais sobre publicidade, marketing, design e campanhas criativas; afinal o gestor dessa agência havia sido Diretor de Criação na McCann Erikson/RJ.

Foi realmente uma grande escola. O ano era 2012.

Eis que veio mais uma das minhas decisões. Iniciar meu próprio negócio e escalar meu sonho profissional.

O caminho, mesmo que tortuoso me mostrou opções

Após a minha formatura em 2013, meu sonho profissional teve início oficialmente.

A Elemento havia nascido, mas nascido de uma motivação interna, minha. Queria mostrar que era possível fazer comunicação com a visão enxuta das startups, de forma jovem.

Antes dessa data, planejamentos foram feitos e refeitos. Os processos estavam mais do que estruturados. Estava num momento perfeito.

A não ser por ter iniciado a empresa no modelo de bootstrap, ou seja, sem nenhum dinheiro em caixa.

Foram meses de intensos trabalhos, clientes aqui e ali que garantiam o pagamento das contas. Trabalhos intensos e alongados.

Fiz cursos de especialização técnica, buscando sempre melhorar a entrega.

Durante esse período pude dividir espaço com bons parceiros (obrigado Market&Share), conhecer boas pessoas para se fazer negócio, enfim construir um relacionamento.

Mas então você deve estar se perguntando como consegui tudo isso, se eu era "criativo".

Aí é que está, como todo criativo não me enxergava como bom vendedor; até precisar ser.

Como diz o ditado: a necessidade faz o sapo pular.

Após algumas experiência descobri meu espaço

Foram aproximadamente 2 anos e meio na dinâmica de empreendedor criativo a frente de todo o projeto.

Nesse tempo fui tudo para a empresa: novos negócios, atendimento, criativo…enfim, como toda empresa em início de operação.

No entanto houve um problema, o ano de 2015. Terrível, ele foi avassalador e tenebroso.

Perda de clientes importantes, diminuição nos valores dos trabalhos pontuais, levando até eventualmente ao desaparecimento de trabalhos pontuais.

Estive no pior momento da carreira, mas persisti. Via a luz no fim do túnel.

A solução? Foi trabalhar num segundo emprego, como já citei, trabalhei como vendedor de roupas numa loja de shopping durante o mês de dezembro.

Foi uma das melhores experiências que tive nos últimos tempos. Aprendi que eu era sim um vendedor, talvez inclusive tenha nascido para isso, mesmo sem saber.

Afinal, sem nunca ter tido treinamento formal, tão pouco experiência na área, estive sempre entre os vendedores com bom desempenho.

O ponto bom? Aprendi de perto como é trabalhar com metas reais, objetivos a serem batidos, contato com rejeição do consumidor e trabalhei o melhor que pude a arte da persuasão.

Ao retornar para o dia-a-dia de empreendedor, tracei um plano para o ano de 2016. A atitude ainda pulsante do período de vendedor se refletiu nos negócios, em mim e em tudo que pude me envolver.

Dedicação, o pensamento positivo, e o meu já tradicional pensamento analítico e muitas vezes, a falta de vaidade.

O resultado não poderia ter sido melhor. O que alcancei nos primeiros quatro meses do ano já se igualava aos 12 meses anteriores.

Era o início do fim da minha profissão de designer.

Vocação é para os fracos, você deve desenvolver o auto-conhecimento

As experiências que tive entre 2015 e 2016 foram cruciais para a modelagem de quem sou hoje, profissionalmente.

Vejo muito Gary Vaynerchuk falar sobre auto-conhecimento, e o que posso dizer é que ele tem toda a razão. A partir do momento que entendemos quem realmente somos, já estamos ganhando.

Parar de focar nas coisas erradas é essencial.

Aprendi com o tempo a ouvir e a analizar meu entorno, e pude perceber algo que era constante nas opiniões de conhecidos, pessoais e profissionais. Meu maior talento não estava na criação, mas sim na habilidade de negócios.

Meu amigo Will uma vez me disse que eu precisava ter o mínimo de entendimento que como diretor de arte eu era medíocre, mas que como businessman me mostrava diferenciado.

Mas o que seria as habilidades de businessman?

Análise de oportunidades, posicionamento de mercado, estratégias de construção de audiência, planejamento, ser guiado por dados e ter comportamento analítico; são algumas das virtudes que formam um bom businessman/businesswoman.

No meu caso, pude perceber aos poucos (e com ajuda de sessões de terapia) que minha vocação era essa, com uma leve pitada de vendas.

Nada me deixa mais animado do que a possibilidade de crescimento do negócio, um novo pitch comercial e a apresentação real de possibilidades para um novo cliente.

O que o meu eu de 2013 veria no meu eu de 2016? Olhando hoje pelo retrovisor, digo que veria um ser evoluído e capaz.

É por isso que digo, a palavra vocação pode ser só mais uma estratégia para vendas de diagnósticos, ou uma forma glamourosa de mascarar o trabalho duro.

Para mim não existe tal coisa como vocação. Existe dedicação, resiliência, estudo e uma dose de persistência; que para alguns pode parecer teimosia.

Conclusão

A minha conclusão não é de que perdi tempo na faculdade de design, mas sim aprendi a ser mais analítico e a perceber com melhores olhos as oportunidades que surgem.

Aprender a se colocar no lugar do próximo, é algo que o design ensina de forma primorosa. E foi por isso que, acabei, indiretamente indo bem em vendas.

Ao menos é o que eu acredito.

A verdade não é que abandonei por completo a função, ainda trabalho liderando uma pequena equipe e resolvendo algumas situações operacionais; mas a ideia é ir me desligando aos poucos, para focar no que realmente importa, o crescimento da Agência Elemento.

E você, como tem lidado com as mudanças? Aprendeu a focar no que importa?