Primavera das aflições

Na primavera de 2018 floresceu novamente nas terras tupiniquins a erva daninha da extrema direita. Juntaram-se no mesmo balaio o pessoal fundamentalista cristão das hostes neopentecostais, os ultraliberais filhotes do consenso de Washington, os militares frustrados com o fim da Ditadura Militar e setores hidrofóbicos da classe média e da elite brasileira pra formar o sustentáculo político do bolsonarismo. Representam hoje a face mais radical de nossa direita do espectro ideológico, alçada ao poder democraticamente.

Na visão perplexa e superficial desse que vos escreve, Bolsonaro de alguma forma foi o homem certo, na hora certa. Conseguiu pregar em si os descontentamentos da base descrita acima e nadou de braçada numa sociedade claramente confusa, mas historicamente conservadora. Ficou mais fácil ainda ganhar a prova porque os outros oponentes, principalmente do campo progressista, escolheram estratégias arriscadas demais. O PT se apegou à imagem de Lula até onde podia e, percebendo o antipetismo crescente e cada vez mais virulento, indicou Haddad como cabeça da chapa, o mais tucano dos petistas fora Fernando Pimentel.

Ciro atirou para todos os lados, jogou fora o verniz da esquerda e adotou o óleo de peroba pra negociar com gregos e troianos numa eleição em que era importante demais deixar claro qual lado é o seu. Importante lembrar que Ciro foi prejudicado pela estratégia petista, orgulhosa e hegemonista, com as negociações que líderes do PT promoveram com o PC do B e PSB. O petismo estava crente que a nostalgia do povo levaria o partido de novo ao centro do poder. Tal fogo cruzado custou a sonhada união progressista no primeiro e no segundo turno e deu espaço pra direita xucra, como diz tio Rei, avançar. Ciro, por outro lado, também envaidecido, acreditou que seria o único antídoto para o bolsonarismo, eventualmente agregando parcelas mais conservadoras do eleitorado ao seu capital político.

No frigir dos ovos, petistas, ciristas, tucanos, marineiros e todos que não eram Bolsonaro contavam com o efeito LePen: quem quer que fosse ao segundo turno contra o candidato do PSL ganharia. Pensava-se que as forças moderadas se uniriam, que o bom senso prevaleceria, que o povo brasileiro não se deixaria levar por um marinheiro de primeira viagem.

Não contavam com a facada que humanizou o “mito”. Não contavam com a visceralidade do conservadorismo brasileiro. Não contavam que a memória do povo é curta, que ele não se lembraria da pujança da era Lula, do caos dos tempos Collor ou da lastimável condição que os militares entregaram o país. Não contavam que um deputado com 27 anos de Congresso Nacional conseguiria se tornar o antagonista do sistema falido que se tornou a democracia pós-1988. Não contavam que o WhatsApp seria mais importante do que as formas tradicionais de mobilização política.

É fácil constatar tudo isso agora que a história está feita. Quando as maçãs estão no pé é possível contar quantas existem, difícil é prever quantas virão quando você está plantando a macieira. Contudo, dá pra saber que se plantar uma mangueira, dela não virão acerolas. Ou que se ninguém capinar o lote, o mato toma conta. Vimos o mato crescer e nada fizemos, ou fizemos muito pouco.

Toda a formação política tradicional do país (esquerda, direita e centro), plantou o caos que anuviou as vistas das forças progressistas em dois momentos cruciais que foram determinantes para a eleição de Bolsonaro: nas eleições de 2014 e no golpe parlamentar de 2016.

No primeiro caso houve a ruptura política completa que vivemos hoje e a criação das bolhas ideológicas, foi onde o antipetismo foi concebido e gestado, lucrando em cima das Jornadas de Junho de 2013. Quem se lembra de Aécio no debate da Rede Globo dizendo que pra acabar com a corrupção no Brasil era só tirar o PT do governo? É uma ideia simples, que quase deu certo em 2014. Prosperou em 2018. O PT, tropegamente liderado por Dilma e uma sombra lulista aceitou o jogo de tudo ou nada, alinhando-se ao maniqueismo do “nós contra eles”. Além disso se vendeu pelo poder e pregou a falsa imagem de que o país estava economicamente saudável em 2014 e que os investimentos do governo continuariam, que o pleno emprego seria alcançado e que tudo ficaria bem se o PT vencesse. Aliou-se ao fisiologismo vil do PMDB, aos fundamentalistas neopentecostais e conseguiu conter o último canto do tucano. Em resumo, iludiu a todos e depois de vencer teve que lidar com a realidade.

Nesse passo alguns fatos políticos do início do segundo governo Dilma foram essenciais para a escalada do golpe: a formação do ministério e a tentativa de esvaziar o poder do PMDB no governo. Indo contra tudo que havia prometido na campanha, o governo eleito escolheu uma política econômica de nuances neoliberais, escolheu Joaquim Levy para a Fazenda e prometeu cortes de gastos e uma limitada redução do Estado brasileiro. Nesse momento Dilma escolheu confiar no mercado como fiador de seu governo e não no povo que a elegeu.

Por outro lado, a presidenta chamou para seu lado os irmãos Gomes e Gilberto Kassab para formar um novo partido ou bloco parlamentar programático para esvaziar o poder do PMDB. Ocorre que não dá pra se enfiar em uma suruba com Cunha, Temer, Geddel e companhia e querer sair incólume disso. Cunha gritou “mão na bola!”, Dilma rebateu “bola na mão!” e Cid Gomes foi demitido do ministério da Educação e Temer recebeu o papel de debelar a confusão. Nesse momento, Dilma e o PT resolveram confiar no fisiologismo pútrido do PMDB e não nos aliados programáticos para a sustentação política no Congresso, mas, principalmente, permitiu que as forças golpistas ganhassem corpo e poder dentro do governo.

A confiança entre PMDB e PT acabou na esteira da Lava-Jato e a classe política precisava de alguém com pulso firme pra conter os avanços do Judiciário sobre as pouco republicanas relações que ocorriam no Estado. Dilma não se prestaria a se envolver com tais artimanhas, inclusive por defender veementemente o combate a corrupção e aos mal feitos promovidos pela classe política. Nas tribunas do Senado Federal o núcleo golpista do PMDB encontrou a voz que precisavam pra verbalizar a insatisfação com o governo. Aécio nunca se conformou em ter perdido a chance de se igualar ao avô. Na Câmara, Cunha ditava as ordens, todas contra o governo. Este passou a ser bombardeado diuturnamente por Cunha, pela imprensa, pelo Judiciário e pela oposição tucana, irresponsáveis e sedentos pelo poder. Sem uma liderança clara, o PT e o governo se tornaram vacilantes e titubearam em momentos cruciais. Para piorar, o mercado logo percebeu que com Dilma suas vontades teriam limites.

Os pilares que Dilma e o PT escolheram para o governo se voltaram contra ela: mercado e fisiologismo produziram a “solução Temer”.

Dilma e o PT sucumbiram perante o rolo compressor golpista guiado por Temer e impulsionado pela oposição irresponsável do PSDB, interesses do mercado e da mídia. O golpe de 2016 serviu a esses interesses e consolidou a imagem de que o PT representava incompetência e a corrupção. Com o golpe consolidado e o aprofundamento da crise econômica e política no governo Temer as instituições ficaram completamente descredibilizadas. A classe política tradicional e o Estado se tornaram alvos fáceis às críticas de uma direita cada vez mais virulenta.

Além disso a atuação do Judiciário lavajateiro, projetada pela imprensa, e as péssimas e ilegais práticas adotadas pelo PT durante o período governista fizeram com que a bandeira ética que a esquerda carregava desde a redemocratização se perdesse. Essa bandeira foi objeto de desejo de muitos. Os tucanos tentaram segurá-la, mas Aécio e Alckmin, grandes representantes da hipocrisia moral e ética do PSDB, não tinham musculatura para tal. O Centro, fisiologista e corrupto se escondeu. Então, algo que muitos cientistas políticos davam por extinto no Brasil reapareceu. A extrema direita, conservadora até o último cadarço do coturno, arregaçou as mangas e voltou a cena empunhando a bandeira ética. Resgatou uma falsa memória de que o período militar foi bom e que os valores da família tradicional deveriam ser protegidos para que o país se tornasse uma grande potência.

O ressurgimento da extrema direita no Brasil é um fenômeno inerentemente ligado a polarização política consolidada e potencializada em 2014 e aos efeitos do golpe de 2016 porque foram nesses momentos, respectivamente, que o antipetismo se estabeleceu como força propulsora de ideias e que o povo se viu traído pelas instituições democráticas, abrindo espaço no imaginário popular para que as ideias radicais avançassem.

Apenas esses fatores, na perspectiva desse que vos escreve, não seriam suficientes para a eleição de Bolsonaro. O que foi ignorado pelas forças progressistas é a própria constituição conservadora da sociedade brasileira. Somos majoritariamente racistas, homofóbicos, machistas, manipuláveis e ignorantes. Não temos consciência de classe, preferimos dar ouvidos às explicações obscuras sobre as circunstâncias da vida do que às explicações racionais e lógicas. A maior parte de nós valoriza mais o horóscopo, tarô, a homilia, a fala do pastor, os conselhos do pai, do avô, da tia, e não os estudos, pesquisas, fatos e prognósticos.

Não enfrentamos o problema da escravidão, muitos veem isso na escola como algo secundário, desimportante. A Democracia é desvalorizada, o patriarcado ainda vige e ainda falamos “homossexualismo”. Acreditamos cegamente em salvadores da pátria, na esquerda e na direita, sebastianistas desde sempre e para sempre. Enfim, essa é nossa sociedade.

A campanha de Bolsonaro usou sistematicamente notícias falsas e os anseios mal formulados da população para manipular o eleitorado a seu favor. Escondeu o quanto pôde as ideias liberalizantes na economia e apelou ao conservadorismo nos costumes para adesivar em si as supostas respostas ao antipetismo, corrupção e falta de segurança do povo. Utilizando-se da fragilidade e falta de credibilidade das instituições, acusou, se escondeu, atacou e foi normalizado de modo a cair no gosto do povo. Finalmente, aliado aos setores citados no primeiro parágrafo, arregimentou eleitores suficientes para chegar ao poder.

Entre 2014 e 2016 deixamos a erva daninha da extrema direita voltar a florescer e prosperar nesse terreno fértil que é nossa sociedade. Ignoramos o problema até 2018, quando já era tarde demais. Em 2019, Brasília será um verdadeiro jardim das aflições.

Agora o que resta a esquerda é amolar a foice e ir pro campo e podar essa erva, pelas vias democráticas, oposição organizada e disputa dos espaços de poder, para que ela não prevaleça em 2022.