Análise do filme “The Help” (Histórias Cruzadas) 2011, direção de Tate Taylor
“The Help” foi baseado no romance homônimo de Kathryn Stockett, que contextualiza a pequena comunidade de Jackson, no Mississipi dos anos 60, onde Eugenia Skeeter (Emma Stone), uma jovem jornalista, retorna a sua cidade natal e se depara com uma série de injustiças cometidas às empregadas domésticas, incitadas pela discriminação aos negros, e decide apontá-las em uma coluna de jornal. A vontade se desenvolve em um livro, quando ao entrar em contato com a empregada de sua amiga (Aibileen, personagem de Viola Davis) para pedir informações, Skeeter recebe o apoio de muitas outras empregadas, com destaque a Minny (Octavia Spencer), personagem a qual, junto de Aibileen e Skeeter, a trama se desenvolve.
A presente análise propõe um olhar pontual sobre algumas escolhas de direção de Taylor, e sua equipe, que colocaram luz sobre o romance de Stockett em sua adaptação audiovisual.
A começar pelas paletas de cores utilizadas nos dois maiores núcleos da história. O amarelo está fortemente presente no que se refere à vida particular das personagens negras. Ele aparece nos vestidos, no figurino do coral da igreja, na iluminação de suas casas, no ônibus que as leva para trabalhar, enquanto que no universo das moças brancas e ricas tudo é cor-de-rosa e, principalmente, azul. Sem surpresas, assim também é o uniforme dos empregados: azul é o uniforme da doméstica, do jardineiro, do garçom. Esse contraste de cores é claro e absoluto no começo da história e na apresentação dos conflitos, mas em seu desenvolvimento destoam algumas exceções que sugerem outros pontos de vista e viradas de postura. Quando Minny afronta pela primeira vez sua patroa, na icônica cena da torta, ela veste verde (soma de azul e amarelo). Quando a mãe de Skeeter confessa ter demitido injustamente sua babá, ela veste amarelo.
A montagem também vale a observação, quando o filme abre com a cena da primeira entrevista do livro, que será o motivador das discussões da trama, e segue daí num flashback, situando-nos no cenário inicial. Até que, antes de sua metade, o filme chega de volta a essa primeira cena, de onde a trama se desenvolve. Esse tipo de montagem se destaca de outros filmes que, em sua maioria, retomam ao flashback somente no final do filme com o objetivo de desvelar algo.
Podemos ainda destacar a cena em que a mãe de Skeeter demite Constantine em sua casa durante um jantar comemorativo com as outras damas da sociedade. Taylor decupa essa cena sempre com a mãe de Skeeter sozinha no quadro em oposição a todas as outras mulheres juntas na mesa a observando, acentuando a pressão e o foco de atenção. Ao deixar a casa, Constantine e sua filha são vistas por fora da porta de vidro, fechada contra elas, emolduradas pela porta que sublinha o drama. (A flor que a filha de Constantine levou para entregá-la, é amarela.)

Nos momentos finais do filme, desvelar a mesa farta em zoom out, foi uma feliz escolha para criar uma surpresa e denotar crescimento e gratidão à Minny, por parte de Celia. O curto, porém eficiente, travelling usado no corredor da igreja, cumpriu seu papel mostrando os vários rostos alegres, ampliando o sentimento de gratidão à essas senhoras (Minny e Aibileen).
“It’s gonna be a long, long journey”, a música de Mary J. Blige, que encerra o filme (The Living Proof), reforça a ideia de que o episódio recém narrado é apenas uma etapa no longo processo da luta contra a discriminação contra os negros, onde vemos a heroína Aibileen deixando a última casa em que trabalhou como doméstica e saltando para uma nova vida, que assim como disse ela, ela ainda não conhece. Acompanhamos Aibileen num travelling em plano médio, enquanto a personagem nos aproxima de suas perspectivas para o futuro, até que a câmera abre numa grua onde vemos Aibileen de longe e de costas, caminhando, quase centralizada, em um espaço profundo, ainda entre sombras, mas bem iluminado a frente, aonde a deixamos ir.
Análise escrita para a disciplina de Direção, ministrada pelo Prof. Me. Álvaro André Zeini Cruz, no curso de Produção Audiovisual das Faculdades Integradas de Bauru — FIB.
