A Outra História Americana

Do povo, do território, da soberania e das finalidades do Estado

Ambientado nos Estados Unidos, o longa foca, através da vida de Derek Vinyard (Edward Norton) e Danny Vinyard (Edward Furlong) no drama existente no submundo das gangues americanas e estabelece sua narrativa no seio do conflito entre neonazistas e grupos ligados a comunidade negra. Utilizando um recurso de dupla narrativa, o diretor Tony Kaye explora a história de Derek e sua jornada como um supremacista branco através dos olhos de seu irmão, Danny, que narra a sua história ao redigir uma redação escolar com o título de American History X (que dá nome ao longa no original).

Em suas escolhas estéticas, Tony Kaye apela ao recurso da tela em preto e branco para fazer distinção do passado narrado por Danny em relação ao presente onde Danny não é tido como o narrador da história de seu irmão, mas foco principal da narrativa que expõe os conflitos do jovem em meio ao ambiente que fora exposto e como seu irmão, mudado após a sua experiência na prisão (consequência de ter assassinado dois homens negros), tenta colaborar para que Danny não acabe tendo o mesmo futuro. E em tal jornada, o personagem de Avery Brooks, Dr. Bob Sweeney, um dos professores (negro - esse detalhe é relevante) da escola em que Danny estuda, aparece como um colaborador ao tentar demonstrar a Danny, através de o confrontar com a história de seu irmão, as consequências das escolhas que o mesmo tomou.

Além de ser eficaz em sua execução dramática, contando com o roteiro de David McKenna que faz um belíssimo trabalho na construção dos personagens e na forma como consegue humanizar e fazer o espectador se apegar e se importar com personagens tão controversos - pra não se utilizar de outros termos -, o longa consegue com excelência expor, em ruídos de uma realidade amarga, a problemática das disputas raciais no solo norte americano. Como objeto de análise fictícia, A Outra História Americana (American History X) consegue transportar o espectador para além de um drama de ficção e, de maneira sólida, explora conceitos que tocam no cerne da formação dos Estados Unidos como Estado e como a sua história se apresenta como base para as problemáticas raciais existentes ainda no ano de lançamento do longa (1998) e que, inegavelmente, se fazem presente até os dias atuais.

Se tem uma cena que melhor representa a problemática das disputas raciais, é a cena da quadra de basquete, onde ao surgir uma discussão, no meio de uma aparente inocente partida entre um personagem pertencente a gangue de skinheads e outros personagens, estes já pertencentes a comunidade negra, um conflito de estabelecimento de poder é instaurado. Com os nervos alterados, ambos os lados decidem fazer um acordo onde após uma partida o grupo vencedor se torna “proprietário” do espaço, não havendo mais a permissão para que o grupo rival acesse o local. Em um contexto de conflito esportivo e de consequência micro, a narrativa expõe de forma minuciosa a história americana e como tem sido as relações entre as diferentes etnias desde a formação do Estado Estadunidense.

Invocando conceitos básicos acerca da definição de Estado, manifestam-se características como a soberania; o território; o povo; e as finalidades do Estado. Definir cada uma dessas características exige um trabalho minucioso e paciente em saber explorar todos os pormenores e controversas que envolvem a questão, coisa que Dalmo Dallari busca fazer em seu livro “Elementos de Teoria Geral do Estado”. Entretanto, consultarmos estes conceitos pode ser de grande utilidade para compreendemos a gravidade e a profundidade que A Outra História Americana explora em sua narrativa, seja num mísero jogo de basquete ou nas mortes e conflitos diretos entre as personagens presentes na narrativa.

Voltando a utilizar a bem dita cena como exemplar icônico do filme, vemos nesse conflito que pode até ser considerado em escala “soft” a representação da magnitude dos conflitos raciais em torno do Estado Americano: à começar, basta se analisar a forte ênfase na noção de domínio sobre o espaço estabelecido. Nesse âmbito, fazemos o paralelo com a noção de território e soberania, onde o espaço da quadra deixar de representar um ambiente vulgar de entretenimento e se torna a representação de um domínio político de um grupo étnico sobre o outro, coisa que, inclusive, reverbera na mentalidade supremacista dos grupos neonazistas que em suas narrativas enfatizam uma superioridade que lhes dá o direito legítimo ao pertencimento do território e, com isso, o privilégio em possuir os melhores empregos e as melhores condições sociais, pois, afinal, para eles, aquele lugar lhes pertence, quem de fora aparecer é nada mais que um intruso tomando o espaço que já tem dono.

Essa noção de pertencimento a um grupo e de rejeição de outro demonstra o drama norte americano de lidar com um antagonismo entre o próprio povo, drama este que tem sua gênese constituída na própria concepção da formação dos Estados Unidos como país, haja visto que as relações entre brancos e negros são consequências de anos de escravidão. Dallari, em seu livro, enfatiza a noção de povo como o pertencimento do indivíduo ao Estado, conceituando o cidadão, que é tanto parte deste Estado e executor de suas ações, como submetido ao mesmo (não confudir, aqui, povo com população, que seria nada mais que o número de indivíduos presentes no território, mas que não necessariamente possuem uma relação de pertencimento ao Estado soberano neste mesmo território).

A problemática das disputas raciais variam tanto entre uma disputa entre povos pertencentes a uma relação direta com o Estado, haja visto que o homem estadunidense não é apenas o branco, mas também muitos negros nativos e outros que pertencem a etnias distintas mas que estabelecem uma relação de cidadania, quanto uma disputa contra os indivíduos imigrantes que representam apenas o conceito de população. Mas para focarmos aqui na problemática mais enfatizado pelo longa, pode-se ressaltar o fato de como os Estados Unidos, formado em cima de uma ideal imaginário de pluralidade, acaba por não conseguir promover ao seu povo um sentimento único de nação, afinal, a América do branco é a mesma América do negro?

Ainda utilizando Dallari, entendemos que nação constitui uma comunidade fundada em laços históricos e culturais que estão ligados através de um afeto social e uma identidade de pertencimento, independentemente de laços jurídicos. A problemática se sustenta quando há justamente um povo dividido como nação. A dicotomia entre essas comunidades acaba por criar um conflito interno que desfigura a imagem de um Estados Unidos capaz de representar os interesses de seu povo, e tudo isso se dá devido a formação de um Estado que falhou em estabelecer um convívio harmônico entre seu povo, haja visto que seu nascimento se dá pela exploração de uma parte de seu povo. O Estado Estadunidense falha em prover o básico que deveria prover como finalidade de sua existência: a noção de bem comum formulada pelo Papa João XXIII, que basicamente consiste na promoção da automonomia dos indivíduos pertencentes ao Estado (cidadãos) para que busquem, em suas diversas maneiras, os seus próprios interesses.

2017, século XXI, e ainda pode-se dizer que o jogo de basquete parece mais acalorado do que nunca. A narrativa de um pertencimento exclusivo ao território estadunidense ainda ecoa nas mentes de muitos representantes da população branca, vide o caso de Charlottesville, e a atmosfera de conflito e antoginismo que não parece avistar o seu fim. O internacionalista, cientista político e economista Samuel Huntington defende em seu livro “O Choque de Civilizações” a ideia de que a origem dos conflitos pós guerra estaria presente na disputa entre diferentes civilizações e identidades culturais. Longe de mim a ideia de querer dizer aqui se sua polêmica tese está correta ou não, ressalto porém o fato de que, antes de tudo, A Outra História Americana (American History X) demonstra, em âmbito interno e cotidiano, um doloroso e amargo conflito de “civilizações”.

Bibliografia:

  • Dallari, Dalmo: Elementos da Teoria Geral do Estado, 33° edição, Editora Saraiva, 2016
  • Huntington, Samuel: O Choque de Civilizações, tradução de M.H.C Côrtes, Editora Objetiva, 1996