Para Sempre Logan

O mundo não é mais o mesmo, diz Logan ao velho e acabado Charles Xavier. E de fato não é. Ambientado em um cenário caótico, frio e de desesperança, vemos no terceiro longa de uma trilogia sem muito a dizer o cotidiano de um Logan cansado, com marcas de alguém que muito perdeu, mas que dessa vez diz bastante. Afinal, é justamente nesse contexto pessimista que o terceiro filme solo do Carcaju consegue nos fazer imergir em uma jornada de laços e esperança.

Em momento de despedida do personagem que durante dezessete anos fora interpretado por Hugh Jackman, nada poderia ser mais pertinente do que a noção de uma última jornada. Ao se deparar com uma jovem mutante que está sendo perseguida em meio a uma trama conspiratória e misteriosa, o herói decaído vê a necessidade de tomar para si aquela batalha do qual ele não planejara. Como já dizia Edmund Burke (1729–1797), filósofo político britânico, “A única coisa necessária para o triunfo do mal é que homens bons não façam nada.” Logan, entretanto, mesmo defasado, resolver fazer. Graças a Deus por isso.

Dada a premissa, segue-se o jogo, e como narrativa o filme acerta cirurgicamente. Não há grandes complexidades, nem mesmo surpresas consideráveis, há uma velha e boa história de sobrevivência em meio ao caos. De maneira poética: há grandeza no que é simples. A ênfase na construção das relações nos leva a uns dos elementos mais importantes e decisivos na identidade da história.

Se existe algo sobre o qual Logan tem a dizer, esse algo é família. É um filme sobre as relações familiares, sobre assumir as responsabilidades e, mais ainda, se descobrir efetivamente como parte de uma continuidade. Diante de todo o elemento estético que finalmente conseguiu transmitir a figura da qual exige o personagem com sangue, violência e tudo o que há de bom sem medos e receios higienistas, ainda sim é na relação entre um Xavier desfalecido, um Wolverine ferido e uma criança emburrada que encontramos a essência que precisávamos. Como diria o escritor inglês G.K Chesterton (1874–1936), “A coisa mais extraordinário do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”. E mesmo não sendo tão “comum” assim, é justamente no mais comum que o longa fundamenta seus alicerces.

Logan vem nos trazendo o fim de uma era. Mas enquanto carrega esse elemento fúnebre não nos deixa órfãos de um legado, de algo a ser construído em cima de toda a mitologia que o personagem de Hugh Jackman, como um dos ícones do atual imaginário popular cinematográfico, ajudou a construir. Logan é, definitivamente, para sempre.