O mito nacional e a identidade internacional brasileira

Na investigação acerca da construção da identidade internacional do Brasil é preciso, antes de tudo, compreender como o país enxerga a si mesmo e como se constitui o seu imaginário coletivo responsável pela identidade do povo, o que conhecemos por mito nacional. Ao longo de sua existência, o Brasil encontrou grande dificuldade na construção de seu mito.

Devido a um processo de organização sempre artificial e nunca contando com uma genuína participação do povo, a falta de um elo que criasse uma ponte e um sentimento de pertencimento pendurou por séculos e se manteve firme mesmo diante a diversas tentativas. Entretanto, na década de 1930, o mito nacional finalmente fora incorporado devido a ação do então presidente (Ditador) Getúlio Vargas que, em seu discurso, tomou como referência o elogio que o intelectual Gilberto Freyre trazia à unificação e mistura das raças responsáveis pelo povoamento do país, — o mestiço.

Gilberto Freyre, em “Casa grande & Senzala”, traz uma perspectiva positiva àquilo que sempre fora visto como algo negativo: a mistura do negro, do índio e do branco, que resultou na criação do mestiço ou mulato. Esse mestiço por muito tempo sempre foi enxergado como resultado de algo nocivo, sua existência representava a falta de uma identidade e não o contrário. Gilberto Freyre rema contra a maré ao argumentar que o mestiço constituía a identidade de um novo povo, que criará uma nova etnia. Para Freyre, o mestiço é o brasileiro.

Getúlio Vargas em seu discurso político populariza essa ideia e através disso dá o passo na criação de uma identidade nacional que se constitui no mestiço. Para além disso, é preciso compreender, porém, o que o mestiço é a posteriori, ou seja, quais são suas características e o que ele representa para além de uma imagem estética e fisiológica. Sérgio Buarque de Holanda vem justamente para complementar o imaginário da identidade nacional, em seu livro “Raízes do Brasil”, atribui à identidade do brasileiro uma série de características que o constui como o dito homem cordial, conceito criado pelo autor. Dentre tais características encontra-se: receptividade, generosidade, alegria, personalismo, sentimentalismo, euforia e, em geral, a noção de uma figura entusiasmada, de bem com a vida que vive pela emoção. Getúlio, em sua construção narrativa, utiliza desse imaginário para criar o mito definitivo — o mestiço que, nada mais é, do que o homem cordial.

Tendo em mente a identidade nacional brasileira, como compreender sua relação com a identidade internacional do país? Primeiro é necessário caracterizar os pontos principais que manifestam a identidade do Brasil no sistema internacional: juridicismo, pacifismo, continuidade e coerência. Tais pontos podem ser avaliados de uma maneira ampla na forma como o Brasil estabelece suas relações mediante o cenário internacional.

O Brasil é conhecido e aplaudido pelo seu histórico de país pacífico, sem se envolver ou ser pivor de grandes guerras e por está sempre disposto à promoção de uma harmonia pacífica, e isso se traduz, também, na maneira como o Brasil se submete aos acordos legais internacionais, sempre aceitando e assinando qualquer tipo de lei, depositando grande confiança na criação das mesmas e sendo, também, um grande propositor de ideias a respeito de leis no sistema internacional.

Outro fator que caracteriza o país em suas ações é a presença do Estado como guia e participante ativo no desenvolvimento da nação, além de uma continuidade na maneira como o país estabelece suas relações, não havendo grandes rupturas à medida que os governos vão sendo substituídos. Em suma, ao voltar a investigação para a identidade nacional percebe-se que o Brasil encorpora em sua identidade internacional a justa figura do homem cordial de Sérgio Buarque. É harmonioso e receptivo, sempre disposto a fazer acordos com todos e a evitar a guerra. Tal como o mestiço que é alegre e gosta de todos, o Brasil assim faz questão de ser em uma dimensão que se encontra a nível para além das fronteiras.

Bibliografia

  • Freyre, Gilberto - Casa Grande & Senzala
  • Holanda, Sérgio Buarque - O Homem Cordial
  • De Souza, Jessé - A Ralé Brasileira