Carlos adentrou com cuidado o recinto. Era a primeira vez que ia à reunião do Clube do Livro das Quartas-Feiras, altamente secreta. Fora indicado por sua amiga Cecília, membro antigo do grupo, e, após votação, havia tido sua entrada aprovada. Não era ainda, no entanto, membro efetivo, estando em estágio probatório. A sala onde os dois haviam acabado de entrar, ela à frente guiando, se encontrava iluminada apenas pela luz de velas.

- Senta aqui Carlinhos. Disse Cecília apontando para uma das cadeiras posicionadas em semicírculo no centro da sala.

Os outros seis lugares já estavam ocupados quando se sentaram. Um homem sentado à frente da curva do semicírculo, um lugar de aparente proeminência e liderança, olhou os seus pares e com voz grave anunciou:

- Vamos dar início à reunião de hoje. Espero que todos tenham lido o livro indicado.

Todos anuíram em silêncio. Carlos olhava ao redor com ligeiro ar de riso

- Ótimo. Vamos lá. O livro, pra quem não veio a ultima reunião, era A Culpa É Das Estrelas. Alguém quer começar comentando?

Um senhor careca, que devia ter uns 60 anos, levantou o braço.

- Diga Valter. — concedeu a palavra o “líder”.

- Eu gostei do livro. Achei divertido quando era pra ser divertido, mas também emocionante. Faz a gente repensar um pouco a forma como encaramos a vida, sabe? Faz a gente dar valor pras pequenas coisas.

- Muito bom. Alguém mais quer fazer uma consideração inicial?

- Bom… — começou Carlos — eu sou novo no grupo, mas sinceramente fiquei surpreso com a escolha. Achei até que tivesse ouvido errado, que na verdade se tratava do “A Hora da Estrela, da Clarice Lispector”. Me parece uma escolha pobre.

Um piano invisível caiu silencioso, porém impactante no momento em que a última frase foi proferida. Todos os membros se voltaram para Carlos com os olhos arregalados e em seguida começaram alternar o olhar frenéticamente entre ele e o líder. Cecília, apavorada, cutucou-o discretamente.

- Não fala isso. Pede desculpas — sussurrou com a voz entrecortada de medo.

O líder deu um sorriso sereno.

- Você acha que foi uma escolha pobre de minha parte?

- Sinceramente sim — respondeu Carlos para maior espanto dos outros cujas cabeças aparentemente iam explodir a qualquer momento de tão vermelhas. — E acho, com todo respeito, que as decisões deveriam ser tomadas em conjunto. Essa história de um “iluminado” indicar o que os outros devem ler não me parece muito democrática.

Enquanto Carlos terminava de falar o líder o olhava com um sorriso revestido de pena, mas com olhos afiados. Mexeu num bolso interno do sobretudo que vestia e ao fim da fala de seu interlocutor ergueu-se e retirou uma arma com a qual disparou dois tiros na direção do mesmo. O corpo de Carlos caiu inerte, com dois furos no peito. Cecília ao seu lado lutava com as lágrimas mas não se mexia e nem buscou vingar a morte de seu amigo. Dentro de si achava que era tudo muito triste, mas que de certa forma ele havia pedido por isso. Os outros não se manifestaram, dedicando apenas alguns segundos à observação do corpo no chão. Uma poça de sangue se formava e se expandia no carpete da sala.

- Bom, continuando. Eu gostei da sensibilidade do Nicholas Sparks. A forma como ele descreve as cenas entrando no espírito dos jovens e de como eles se portam nos dias de hoje, sobretudo nos diálogos. Sou suspeito pra falar, no entanto, porque posso me considerar fã dele. O que acham?