Até onde o Coringa é louco?

Desde que consegui me entender como gente, me interessei sobre o mundo dos quadrinhos e mais precisamente pelo universo do Batman. 
Recordo-me dos meus primeiros brinquedos de super herói:

- Um Homem-Aranha gigante (Que não vem ao caso)
- Um Wolverine gigante (Que não vem ao caso — parte 2)
- E por fim, um Batman gigante.

Com o passar do tempo, amadureci e fui ganhando mais gosto pelas obras do Morcego e me interessando cada vez mais pela profundidade com a qual os contos lidavam com temas complexos.

Mas uma obra em si me marcou para sempre. 
Todo ano eu revisito essa divina criação por amor a ela.

Batman: O Cavaleiro das Trevas

Lembro de mim, com meus 13 anos, indo ao cinema com a minha mãe e saindo boquiaberto da sessão do cinema, fascinado com tudo que eu acabara de ver.
Minha mente se derretia e reconstruía pensando no filme. Eram tantas cenas, tantos diálogos, tantas visões sobre o mundo, que eu fiquei louco pela mitologia do Batman.

Mas dentro desse turbilhão de sentimentos confusos, um era certo. Christian Bale, o Batman, não foi quem me chamou atenção. Muito menos Harvey Dent ou Gary Oldman e seu Comissário Gordon.

Quem roubou meus olhares e me encantou foi o Coringa.

Madness it’s like gravity, all it takes is a little push.

Eu me fascinei pelo personagem criado por Heath Ledger, inspirado no original de Bob Kane. Suas cenas teatrais, seus diálogos afiados como uma navalha e pontos de vistas tão loucos, porém tão compreensíveis, me enchiam os olhos e botavam minha mente pra ferver.

Rumores que rondavam pela época do filme, diziam que Heath Ledger havia cometido suicídio por não aguentar a carga de loucura que o personagem trazia consigo. Havia dado um mergulho tão profundo na insanidade do palhaço, para vivê-lo com maestria, que não conseguira retornar para o nosso mundo, são.

Minha cabeça só conseguia admirar e temer a existência de tal personagem.

”Que personagem é esse que faz com que pessoas se matem?” — dizia a mim mesmo, com certa curiosidade e temor 
— “Somente o Batman para conseguir combater a loucura desse personagem.” — eu completava após.

Conforme eu ia crescendo e amadurecendo, eu sentia a necessidade de consumir cada vez mais material sobre o Morcego. Cada vez que eu lia uma história, eu me tornava mais fã do Batman e mais intrigado e obcecado pelo seu arqui-inimigo, O Palhaço do Crime.

Era incrível ver o dinamismo entre os dois. Pareciam duas forças da natureza se enfrentando. Mas novamente, minha mente se voltava pro palhaço.
Eis que então, eu decidi fazer uma pesquisa a fundo sobre o personagem que tanto me intrigava. Procurei saber tudo que eu podia sobre ele. Abracei minha paixão pela sua existência, como o mesmo abraça a existência do Batman em sua vida.

Eu mergulhei numa parte do poço que Heath e Nicholson haviam mergulhado

E foi majestoso.

Era simplesmente lindo e admirável ler e assistir a todas as histórias e contos possíveis criados. Tudo tão insano e louco, mas totalmente compreensível. Totalmente justificado… O Coringa é o mais próximo do diabo que eu já vi na literatura popular (“pop”). Ele te seduz com seus conceitos totalmente distorcidos, porém completamente válidos.

O que é o Coringa senão a maior demonstração de uma pessoa “quebrada” pela vilania e barbárie de sua cidade? Um ser humano que no meio do caos que sua vida foi posta, sem quaisquer palpites sobre, não tinha a mente suficientemente forte para aguentar e teve de pegar o único caminho que achou para sobreviver: A loucura.

Como é perfeitamente retratado na Piada Mortal, de Alan Moore, O Coringa faz questão de esbravejar para nós o quão porca, maluca e homicida nossa sociedade é e que há uma saída para isso tudo, para quando você estiver no seu limite. Uma saída que você pode simplesmente renegar tudo de mal que já lhe ocorreu, seguir em frente e nunca mais olhar pra trás e se importar com o mundo que tanto lhe aflige diariamente.

Madness is the emergency exit…

É impossível, durante as leituras, sua mente não flertar com seus planos, com seus diálogos e com suas filosofias. O Coringa é o fundo do poço. É o pedaço de nós que todo dia pede para perder as estribeiras quando o mundo parece nos apunhalar pelas costas pela milésima vez.

Quantas vezes não te deu vontade de perder de vez a cabeça? De se deixar levar pelos seus pensamentos? De desistir de tudo e todos e caminhar fora da linha?

Milhares, aposto.

Como podemos julgar alguém como ele? Alguém que infelizmente não foi forte o suficiente e perdeu a luta diária de se manter são? Eu não consigo julga-lo em momento algum. Ele é o avatar do ponto de ruptura.

Todos nós somos Batmans encarando nossos Coringas diariamente. Todos os dias procurando formas de lidar com esse ser lunático, seja tentando bota-lo atrás das grades, seja evitando contato ou provocando-o. Todos os dias vivemos um duelo entre Batman e Coringa.

Mas não importa o que o Batman faça, ele sempre retorna. Ele sempre volta pra lembrar a ele que não existe fim pra essa luta.

Nossa luta também não tem fim. Ela vai se estender até os últimos dias da nossa vida. Uma hora ou outra, um dos dois vai vencer, seja o Batman ou seja o Coringa.

PS: O Batman não mata o Coringa não por que ele não quer ou acha errado, ele simplesmente tem medo de ficar exatamente como ele e nunca mais voltar a ser o mesmo.

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