Carta à Cazuza.

Mais do que óbvio, esse texto aqui não vai ser sobre heróis, sobre reflexões da minha psique ou do turbilhão de sentimentos pelo qual meu coração passa. Mas sim, para alguém que eu nunca conheci, que eu nunca vi, nunca conversei e mesmo assim sinto saudade, sinto amor e falta como se fosse meu melhor amigo.

Não. Não é como ser ídolo. Não é esse tipo de sentimento. Esse tipo de sentimento eu tenho pelo Guns N' Roses, pelo Metallica, pelo Avenged Sevenfold e por aí vai…

Por Cazuza, eu sinto algo diferente. 
Não sei explicar.

É como se fossemos amigos seculares, mas ele escolheu partir mais cedo ao invés de me esperar. Me deixou aqui pra viver sozinho toda essa loucura do rock, da arte, da música e da literatura. Me deixou aqui para carregar esse fardo e essa bandeira que é a liberdade e a ousadia.

Caramba, Cazuza, que pressa!

Tenho certeza que se estivéssemos vivos, estaríamos batendo um papo muito do bom sobre os mais variados assuntos. Iriamos depois dar uma volta na orla, fumar um cigarro e falar sobre nossas ideias. Você iria para uma roda de samba, ouvir um bossa-nova e eu iria pro meu pub tomar uma cerveja de trigo e ouvir um rock clássico. Com toda a certeza acabaríamos discutindo pelos nossos gostos e crenças, que mesmo tão iguais, ainda assim tão convictos e intensos.

Afinal, somos exagerados verdadeiros, não é meu amigo?

Vivemos tudo à flor da pele, todos os sentimentos possíveis. Após isso, sentaríamos e jogaríamos tudo isso pra fora em letras, música, dança e poesia.

Verdadeiros Pierrot’s.

Sabe, Cazuza, às vezes acho que te conheço, por enxergar tanto de mim em você. Te olhar, às vezes, é como olhar num espelho após um corte novo de cabelo. A roupagem e o exterior mudaram, mas a mente e o coração continuam intactos.

Tua história conversa tanto com a minha que parece que fomos feito dos mesmos átomos, das mesmas bases, dos mesmos princípios. Teu nome é homenagem à Cartola, o meu à Victor Hugo. Somos artistas desde os nossos nomes, e ainda sim somos muito diferentes. Você é o boêmio badalador do Arpoador e eu o boêmio introspectivo de Los Angeles que ainda tenta viver toda aquela cena decaída do rock dos anos 80.

Você é Elis, eu sou Elvis.

Você é Cartola, eu sou Chuck Berry.

Mas mesmo assim, queria que estivesse vivo, meu amigo. Meu espírito parece entrar em anseio toda vez que penso na possibilidade de um dia ter te conhecido. Esse ser corajoso e tolo, como eu, que você foi.

Queria tanto aprender contigo e te ensinar o que eu aprendi também. Queria tanto falar pra ti que esse teu exagero não precisava ser tão exagerado assim. Pra que correr contra o tempo, Cazuza? Ele não para, eu sei… Porém, ele é tão gostoso de se aproveitar. Mas você sempre com esse seu jeitão de viver o agora, de indagador e rebelde, quisera partir antes.

Rebelde eu sou, por você partir antes de nos revermos. Indagador eu sou, por me pergunta porquê escolheras ir embora antes deu chegar nesse planeta. Exagerado eu sou, por ser parte de ti.

Sou parte de ti, Cazuza.
Sei disso.
É escutar tua voz, que a saudade bate de imediato, sem nunca sequer ter te conhecido.

Lamento e muito por não te conhecer em vida. Mas de algo tenho certeza:

Se não somos amigos seculares, quiçá milenares, uma parte tua vive em mim. Uma parte tua me acompanha nessa Vida Louca Vida.

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