Não era nossa hora, Ícaro.

Um trovão atravessa a bomba venal e arterial que se localiza do lado esquerdo do peito. O punho se fecha, a cabeça se abaixa. O cérebro corre para ligar todas as sinapses possíveis e achar uma resposta plausível.

Não há.

Mas pera lá!

Não é como se fosse novidade… Certo?
Voltamos para nossa zona de conforto!
Nós até gostamos daqui.
Lobos solitários e andarilhos que somos aprendemos a amar nossa friagem. 
Aprendemos a caçar sozinhos, aprendemos a nos curar sozinhos, aprendemos a nos divertir sozinhos.

Carregar mais um conosco seria perda de produtividade.
Mais um fardo para carregar.
Não temos tempo pra isso.
O inverno é forte aqui, e levar outro alguém vai me atrasar… Quiça até me derrotar.

O mundo é meu para tomar e de fato não há espaço ou tempo para terceiros, segundos… Que sejam! Não há espaço para ninguém.

Não há…

Esbravejei para que todos os cantos do universo e do multiverso me escutassem:

“Eu quero ficar sozinho.”

E alguém, finalmente, me fez engolir tudo o que eu disse.

Como um murro que atravessa os lábios e esmaga todos os dentes enquanto se projeta para dentro da boca, minhas palavras, que uma vez disparadas para o mundo, voltaram com toda força possível. Eu não conseguia conceber e aceitar o que estava acontecendo:

Alguém estava me fazendo desejar companhia nessa caminhada solitária.
Alguém estava me fazendo querer sair desse inverno e adentrar uma primavera.
Alguém estava me fazendo pensar na possibilidade de trocar o frio cortante pelo sol revigorante.

Eu queria estar acompanhado.
Eu queria dividir momentos
Eu queria adicionar e queria ser adicionado

O que um sorriso não faz, não é?
Só um sorriso dela já era capaz de derreter metade da crosta que se alojava em minhas artérias. Abraça-lá logo em seguida, era como encostar numa pedra à vapor. Chegava a paralisar o tempo em minha mente, inconscientemente, para tentar absorver tudo o que eu podia nos mínimos detalhes.

Ela era fogo vivo.
Tudo nela irradiava.
Brilhava.
Era esplêndido como ela emanava tanta energia, chegava até a assustar.

Ahh, aquele sorriso… Já falei dele né?

Eu queria e muito acompanha-lo e vê-lo por muito mais tempo. Queria vê-lá dominar o mundo com aquela veemência e vivacidade que emanavam cada vez que ela se expressava. Queria observa-lá de perto e me encantar cada vez mais com seu crescimento. Aprender com suas idéias e suas atitudes, como também ensinar tudo o que eu sabia.

Meu coração ansiava para se despir por completo a seu lado. Queria trocar olhos dela como os meus para que ela pudesse ver o mundo do meu jeito e eu pudesse ver como ela enxergava tudo ao seu redor.

Do mesmo jeito que Ícaro se deslumbrou com a calidez e a resplandecência do Sol, e prometeu a si que voaria perto do mesmo, eu prometi a mim que iria, pela primeira vez em muito tempo, dar uma chance a mim mesmo.

E eu te entendo Ícaro, meu amigo.
Cintilava tanto, não é?
Queimor de chegar a arder.
De ofegar a cada vez que se estendia a mão em sua direção.

Mas a vida é engraçada, para não dizer outras coisas. Do mesmo jeito que ela dá, ela tira. 
Talvez não fossemos feitos para voar tão próximo do Sol assim, desafortunado camarada.
Afinal, a chama mais brilhante, é a que queima mais rápido.
Fomos tolos em achar que podíamos aguentar tamanho fulgor.

Viverei para aprender com essas queimaduras.
Queria poder dizer o mesmo de você.

Não era nossa hora, Ícaro.