Amor como salvação de si

Comer, Rezar, Amar (2010)

Confessei pra uma amiga, num ato impulsivo, que queria me divorciar aos 30 e poucos pra viver uma narrativa a la Comer, Rezar, Amar. Alguns anos depois, repensei a estupidez dita, e conclui que não precisava de tanto — estresse e dinheiro — pra aprender a amar a mim mesmo. Temos falado bastante em amor próprio, e esse tipo de discurso parece bem produtivo pra nos propormos desafios afetivos contemporâneos: encarar a solidão e a solterice; repensar porque amamos os outros e buscamos nos relacionar afetivamente com eles; o que significam todas essas trocas e simbologias românticas que nos são ensinadas desde pequenos.

A plenitude, contudo, não é alcançada com facilidade. Precisamos nos propor tarefas constantes. Amor próprio é sobre preservar a nós mesmos, conhecendo nossos limites, (re)pensando nossas escolhas e buscando a felicidade, ainda que em pequenas porções, na nossa própria rotina. A proposta é cultivar uma relação ética e responsável com nosso próprio aparato afetivo, nos preservando não por meio de bloqueios falsos ou frases prontas e sem efeito prático, mas sim com um cuidado autêntico de si.

Me enrolei na bandeira do amor próprio com muita crença e empenho. Que outra resposta teríamos pra tantos desapontamentos, dores e rejeições? Passamos a mensagem a diante: dizemos para nossos amigos se respeitarem mais, terem um pouco mais de dignidade e certeza de si mesmos. Afinal, sabemos que eles valem mais do que tudo de doloroso que passam/estão passando por. Foi exatamente nessa fase assertiva que me sensibilizei com uma opção contrária: e se for extremamente difícil cativar e cuidar de nossa auto estima? Por mais que frequentemente tracemos metas e objetivos, como proceder se não conseguirmos atingir esse nível de segurança?

Além disso, quando falamos sobre auto estima, ainda que certas pessoas pareçam ser consideravelmente seguras sobre si mesmas, nós conseguimos realmente nos tornar imunes a momentos de instabilidade emocional? O que segura nossa falta de chão quando falhamos, ou nos sentimos descartados, trocados ou insignificantes? Mesmo que gritemos com todo ar — e boa vontade — em nossos pulmões “a resposta está em você!”, não há remédio para derrotas pessoais. Acreditar em uma conexão íntima com nós mesmos pode ser o caminho para uma vida afetiva saudável mais independente e autônoma. O insucesso nessa tarefa, contudo, sempre abre um espaço mais propício para solidão e desesperança.

Amor como salvação

Desde cedo, lemos sobre princesas que, em seu estado mais profundo de desespero ou desamparo, são resgatadas por esbeltos príncipes. Bem sucedidos, esses belos jovens as amam de uma forma nunca antes experienciada. Juntos são maior que o mundo.

Seria arriscado dizer que ninguém encontrou uma versão retextualizada de tal príncipe, mas afirmo com mais confiança de que, vez ou outra, nos deparamos com propostas similares de objeto amoroso. Você está há alguns meses sem muitas conversas significativas. Numa noite inusitada, conhece Ruan. Ele é fisicamente atraente, intelectualmente interessante, e ágil na conversa — algo que certamente faz muita falta. Nessa noite que vocês se conheceram, seja num cinema, restaurante ou motel, você sentiu algo especial. Não sabe ao certo se foi aquele beijo inesperado, ou a mão despretensiosa que acariciava seu braço. Quem sabe não foi tudo isso e mais toda a conversa incrível que tiveram; os elogios que não foram poupados. O que importa é que você foi salvo. Não há mais nada com que se preocupar. Até que Ruan desaparece. Choramos, então, pela perda de algo que nunca tivemos. Cuidamos das feridas abertas por alguém que você mal conhece— ainda que se convença do contrário. Não há cavalo branco ou atalho para fora do pântano. Estamos sozinhos. Desamparados. Indefesos. Dispensados.

Na falta do amor próprio, ou nos intervalos de fraqueza, esperamos que Ruan nos ame, nos deseje, precise de nós. Consideramos necessário que os outros nos amem em nosso lugar. A crença pulsante de que, somente se tivermos um parceiro que nos ame verdadeiramente, seremos melhores pessoas. Acordaremos mais felizes e dispostos, com a pele mais bem cuidada, e uma auto confiança que talvez nunca tenha existido. Nos perdemos em promessas que não podemos cumprir. E nos prendemos, de certo modo, à incerteza e vontade dos outros. Uma forma indireta de nunca termos controle sobre nós mesmos.

Não acho que é fácil se olhar no espelho e ver flores, principalmente quando as coisas não estão lá muito incríveis. Todos enfrentamos nossos próprios desafios pessoais. Encarar essa missão não é fácil. Eu mesmo não estou no momento de escrever nada positivo nesse sentido. A dimensão de nossas dores é completamente subjetiva e individual. O que parece bobo ao contarmos para um amigo pode ser o que mais nos impede de assumirmos uma postura mais esperançosa e saudável todas as manhãs. As menores dores podem se revelar as maiores jornadas.


Nos sentirmos sozinhos ou rejeitados por pessoas que pareceram gostar da gente ou por quem nos sentimos atraídos é uma merda. É terrivelmente irritante permitir que alguém que nos conhece tão pouco consiga nos afetar em proporções que nós mesmos desconhecemos. Como transformar esse desgosto quase involuntário em amor próprio? Como podemos operar a partir da sensação de desamor e descarte? O amargo da dúvida nos corrói a cada experiência.

Engolimos as lágrimas, dizemos que não somos o problema. Focamos no trabalho, nos estudos, compramos mais chocolate, adquirimos vícios. Escapamos de nós mesmos em círculos evidentemente burros. E de repente, bem sem querer, pensamos que tá tudo bem. Mesmo que a gente precise de uma taça de vinho pra ajudar, é possível experimentar ser feliz sozinho.

Viver é o respirar aliviado entre os intervalos.

Like what you read? Give Victor Schlude a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.