Responsabilidade afetiva
Laura Pires
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De fato, é bem mais produtivo falarmos sobre amor próprio e auto estima, estimulando a reflexão individual sobre nossas escolhas afetivas. Aprendemos muito mais com nossas dores, erros e equívocos. Principalmente, como você bem mencionou, quando a discussão acaba transbordando um pouco mais do que deveria. Para definir qualquer conceito e/ou compartilhá-lo, precisamos afunilar algumas noções. O alcance dessa tal responsabilidade é certamente difuso e precisa de um certo distanciamento emocional. A falta de consciência ou reflexão sobre nossas atitudes e escolhas amorosas com certeza estimula uma confusão entre o nosso espaço e o espaço do outro. Não podemos falar no erro dos outros sem falar também sobre nossos erros. O primeiro, como você colocou, acaba sendo o mais comum, gerando a culpabilização dos outros e nossa própria vitimização. Concordo novamente quando você diz que não somos vítimas. Mesmo que alguém nos maltrate e abuse de nossos sentimentos, precisamos acreditar em nós mesmos e juntar forças para nos reerguer. Contudo, acho que quando lemos muito dessa versão mais exacerbada da ideia de responsabilidade afetiva, esquecemos o lugar do outro nessas trocas afetivas. Outro dia, assisti um vídeo ( https://www.youtube.com/watch?v=cea0HxkGX0o) do Murilo (que tem um canal ótimo e faz parte do NUDES), no qual ele fala sobre como ultra naturalizamos essa busca por amor próprio e auto estima, pensando o quanto isso é difícil para minorias e sujeitos super estigmatizados em determinadas comunidades. Isso me fez pensar muito no lugar do outro nessas trocas. Não se trata de criar um cercadinho especial para pessoas mais sensíveis, mas também não significa declarar uma seleção natural afetiva. Se alguém é legal com a gente, nos convida pra sair quase toda semana, passa muito tempo com a gente, nos apresenta para seus amigos, etc, concordo que isso pode não significar nada além deles gostarem da gente ao ponto de fazerem essas coisas — o que por si só é bastante relativo. Concordo também que devemos parar de considerar a possibilidade de um relacionamento estável como a única forma de felicidade ou realização pessoal. Agora, independente dessas noções, nós nos apegamos. Sentimos falta de conversar com frequência, queremos sair quando sentimos saudades, nos pegamos pensando no outro sem querer. Desenvolvemos afeto, e para além de ser uma escolha, é uma troca. Concordo quando você fala em diálogo, principalmente quando com que nos importamos muito está em jogo (como conhecer a mãe ou propor namoro). Mas onde está o outro quando demonstramos gostar? Ano passado, estava saindo com um menino que queria muito um namoro. Eu não estava nessa mesma vibe, falei desde o início, mas ele deu uma de Tom e quis me mudar. No final do ano, entrando de férias, estava amando ficar em casa com meu netflix. Parei de sair com ele durante a semana, conversávamos menos ao longo do dia e, por fim, acabamos deixando de sair um ou dois finais de semana — sendo que nos víamos quase todo domingo por quase três meses. Ele começou a reclamar, e eu me justificava, dizendo que queria estar sozinho. Não sei se por falta de inteligência ou sensibilidade, ele não conseguia entender que queríamos coisas diferentes. Como isso estava claro pra mim, puxei ele pra conversar e concluí que era melhor pararmos por ali. Machuquei ele da mesma forma e não fui uma pessoa incrível. Mas agradeceria, depois de um tempo, a muitas pessoas, se elas tivessem me dado um toque. Se elas pudessem ter percebido meu apego e trazido o assunto à tona. Pra mim, esses empurrões são a tal responsabilidade afetiva.

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