Desculpa, não tô mais a fim de você

Victor Schlude
Feb 23, 2017 · 7 min read
Ele não está tão afim de você (2009)

O convite pro cinema veio na quarta. Fazia quase uma semana que Márcio e Jorge se conheceram. Há tempos que Jorge não conversava com alguém tão interessado e atencioso. Falavam bastante quase todos os dias e nunca experienciaram aqueles silêncios desconfortáveis ou a dúvida de quem puxaria papo primeiro. As coisas simplesmente fluíam. Combinaram do cinema ser sábado. Márcio era filho de fazendeiros e estudante de jornalismo. Fazia praticamente tudo de carro e, talvez por consequência, se ofereceu para buscar Jorge na porta de casa. Apareceu às 14h em ponto com sua land rover cinza bem de frente pro portão. Surpreso com o tamanho do carro, Jorge teve dificuldades em subir pro banco de carona e fechar a porta, reclamando de seu curioso peso. Tudo parecia bem óbvio para Márcio: o carro era blindado. Jorge riu do fato inesperado e perguntou o que os pais de Márcio plantavam. A piada durou dois sinais, até retomarem assuntos mais rotineiros. Subitamente, toda intimidade desenvolvida parecia pouca. Lutavam contra a timidez instaurada entre eles. Tentando compensar por seu nervosismo, Jorge falava mais do que de costume, reparando eventualmente na tensão sutil que Márcio procurava disfarçar por trás do volante.

Tiveram pequenos avanços até o estacionamento do shopping. Talvez pela falta do volante, Márcio desenvolveu uma saborosa leveza que os acompanhou durante todo o encontro. O filme, um thriller bem sessão da tarde, tinha sido divertido. Decidiram comer hambúrguer após o cinema e concordaram, ao dividir as batatas, que a carne não era grandes coisas. O beijo no sinal, contudo, havia sido tão inesperado — quem sabe até mais —quanto o carro blindado. Jorge se inclinou na direção de Márcio, e apertando sua coxa suavemente, sugou seus lábios com vontade. Foram interrompidos por 3 buzinas e só ensaiaram um bis em frente ao prédio de Jorge. No caminho até o elevador, ele evitava os olhares chocados dos porteiros com o sorriso que se estendia por todo seu corpo.

Foi na quarta que Jorge me contou a história toda. Quatro dias seriam suficientes para acalmar qualquer coração, mas o de Jorge continha um ingrediente especial. Irritado com um misto de mágoa, ele mostrou as conversas de segunda. A cada 3 parágrafos, 1 frase. Márcio parecia não ter muito o que dizer. O papo que fluía por 3 horas direto parecia não se sustentar por mais de 30 minutos. Tentando ser um bom amigo, repeti uma das piores frases: ele deve estar ocupado. Concordamos que o coerente seria esperar até o final de semana.

Na segunda-feira seguinte, ele estava furioso. Me mostrou o mesmo descaso, a mesma frieza. Pensou que talvez fosse o beijo — muito intenso. Ou quem sabe a piada dos pais fazendeiros — muita intimidade. Revisitou os minutos pré sessão, o retorno pra casa. Se tinha tudo sido tão bom na sua cabeça, o que teria feito Márcio abandonar o barco?

Na quinta, ele ficou cabisbaixo e quase não falamos. Na sexta, ele me mandou umas opções de cortes de cabelo. Faz bem mudar, né? No sábado, fomos ao shopping e ele acabou comprando uma camisa florida que o deixava radiante. Em meio a colheradas de sundae de morango, pronunciou a melhor frase da semana: foda-se ele. No domingo, deu match com Fabrício, mas isso é outra história.

Rejeição

Temos experimentado amor mais do que nunca. São os contatinhos acumulados, os encontros semanais, os flertes paralelos; já não é exatamente incomum conhecermos ou sairmos com várias pessoas. Não acredito que esse fato por si só represente algo negativo ou positivo. Repito: estamos experimentando mais. Os níveis de intimidade e envolvimento variam muito de pessoa pra pessoa, momento pra momento, bem como a tão destacada liquidez amorosa. Nós que definimos a qualidade de nossos atos e hábitos. Agora, é preciso reconhecer que nossas chances de encontrar alguém, sem dúvidas, aumentaram. Em menos tempo, temos mais encontros. Nesse período, hoje mais curto, a probabilidade de criarmos laços — e quem sabe relações — , certamente sobe. Feliz ou sofrido, atualmente, um semestre de vida amorosa pode conter bastante história. Da mesma forma que, ao conquistarmos mais chances de criarmos mais laços afetivos ou sexuais, é inevitável sermos também mais rejeitados. E a partir daí que começa nosso papo.

Desde pequenos, não curtimos saber que alguém não gosta da gente. É prazeroso ter a aprovação dos outros, por mais que nem liguemos tanto pra pessoa assim. Quando maiores, essa aprovação se torna mais complexa. Fico com você numa festa e nunca recebo uma ligação ou mensagem. Flertamos todos os dias no corredor, mas isso não significa que você tenha qualquer interesse. Converso com você por quase uma semana, até que canso de suas frases curtas, ou talvez você simplesmente desapareça mais rápido do que a minha compreensão. Questionamos nossos passos e expectativas, perdemos horas em frente ao espelho e às vezes até mesmo mudamos uma coisa ou outra sobre nós, só por segurança. Ser recusado — ou nos sentirmos dispensados — não é nem um pouco saudável. Por mais que doa, adotamos a aceitação: acontece.

Dizer que não te quero

Tradução livre e educada: “Francamente, minha querida, eu não dou a mínima.” — “E o vento levou” (1939)

Vai saber, afinal, o que se passa na cabeça das pessoas, certo? Em diversos casos, criamos teorias. Voltou pro(a) ex — ou nunca o (a) deixou — costuma ser a favorita. Mas quando tentamos não nos culpar ou reconfortar amigos, valem até desastres aéreos. No fundo, a questão é bem mais simples do que pintamos. A vontade passou. Naquele dia, foi legal, você é interessante, mas duas noites depois, deixou de ser. Muda-se de ideia, curtiu só aquele momento, mil explicações às quais provavelmente nunca teremos acesso. Assumindo que não há uma melhor forma de dispensarmos alguém — em especial alguém que mal conhecemos — inventamos desculpas, repetimos frases padronizadas, suavizamos com emojis ou elogios. Nas entrelinhas, o inevitável tapa: não estou a fim de você. Isso quando dizem alguma coisa.

Há quem prefira os sinais. Visualizar e não responder. Economizar nas mensagens. Não puxar papo. Dispensar convites. Agir com frieza. Como você não consegue ler o óbvio? Sempre achei esse ato de deduzir completamente torturante, mas alguns o veem como sutileza. De fato, quando os dois não têm muita intimidade, parece tarefa mais fácil ou uma opção coerente. Pensam: que diferença vai fazer? Piores que o “não”, considero a dúvida e a incerteza formas mais sofisticadas de dor.

Seria mais nobre inventar uma desculpa? Ou vir com o clássico: mas vamos ser amigos? No fundo, o que está em jogo além da rejeição? Costumo achar hilário pessoas que sugerem amizade e me conhecem há tão pouco tempo. A verdade é que, quando saímos com alguém, buscamos trocar afetivamente. Amizades são resultados de trocas constantes, que são compostas não só de história, mas também de significado. Que significado carregamos de pessoas que mal conhecemos? O que elas podem significar para nós além da possível promessa de algo? Não me entendam mal, já fiz amigos que um dia foram casinhos e até mesmo contatinhos, mas isso não foi golpe de misericórdia. Carinho não se oferece, simplesmente se desenvolve. Não curamos falta de afeto achando as pessoas legais. Você não se torna uma pessoas horrível por não se importar — quem nunca? — , mas precisamos admitir quando não nos importamos.

Acabou

Sob o sol da Toscana (2003)

Ninguém é obrigado a querer ficar com outra pessoa. Além do mais, quem é dispensado, também já dispensou outros. Não é maléfico ou cruel perder o interesse e querer pular fora. Acredito que o despontamento aumente quando conhecemos mais pessoas numa frequência cada vez menor. Ficamos mais facilmente de saco cheio e abandonamos as esperanças mais rápido. É preciso ter cuidado com nossos limites. Contudo, tendo muitos ou poucos encontros, todos passamos por aquele desprazer de nos olharmos no espelho e nos sentirmos menos. Repensarmos cada traço nosso por causa da desaprovação de alguém que mal conhecemos ou pouco nos importa. Perdermos a noção do que é nos sentirmos desejados e requisitados. Esquecemos o que é de fato significar algo para as outras pessoas. Mais do que aceitarmos o fim, é iniciarmos o processo nos amar, independente do que nos digam.

Para curar a raiva, contextualizamos o desinteresse. Quem sabe o que de fato aconteceu com Márcio? Ou o que ele estava passando? Ou que ele realmente sente por Jorge? Não se trata de alimentar expectativas, mas perdoar o outro pelo desconhecimento de sua realidade. É claro que gostaríamos que ele não tivesse sumido. Que não escrevesse telegramas tão mínimos. Que se posicionasse, mesmo que sutilmente. Contudo, ainda que ele tenha encerrado o assunto da pior forma possível, o recado está dado: não estou mais a fim. Para curar a mágoa, precisamos conviver com essa verdade: ele não está mais a fim. Sorrimos pro espelho, saímos pruma festa, aproveitamos nossos momentos a sós, satisfazemos nossos pequenos prazeres; aprendemos a viver apesar de uma simples verdade: ele não está a fim de você. No fim das contas, o remédio costuma ser outro tapa: foda-se o Márcio.


Curtiu a leitura? Então não deixei recomendar e compartilhar o texto ❤

Professor, romântico incorrigível, control freak

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade