Medianeras, Boyhood e a sensibilidade do último poema.

“Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. — Manuel Bandeira, O Último Poema. — Foto: Victor Carvalho.

Tirei essa foto no último fim de semana, enquanto assistia a um pôr-do-sol e aproveitava uma cerveja ao lado da mulher que amo. Pessoas se amontoavam ao meu redor com câmeras e smartphones, tirando selfies e se maravilhando com a bela paisagem. E, de fato, era bela. Nuvens desenhando o céu, barcos enfeitando o mar e o sol pintando tudo ao redor. Não serei hipócrita a ponto de falar que não fiz o mesmo que todos. Foi um impulso quase incontrolável. Mas chegou um momento no qual eu só queria parar, respirar e estar. Nada mais. Percebi que não me importava mais com o mar, com o céu ou com o sol, apenas com o viver. Não a vida, mas o viver. E foi belo.

Precisamos de um pouco mais disto, dessa sensibilidade. Precisamos de Manuel Bandeira em “O Último Poema” ou de Mario Quintana em quase tudo que ele escreveu. Precisamos de mais Caetano Veloso em seu primeiro álbum, de Linklater em Boyhood e de filmes como Medianeras. A sensibilidade é, em seu âmago, sencilla. Embora seja apaixonado pela língua portuguesa, nenhuma outra palavra se encaixa tanto quanto essa. “Sencillo” tem um significado muito mais amplo que “simples”. A sensibilidade encontra sua beleza na medida exata. Não é pouco; não é muito; é a medida exata.

“Quem foram os gênios que esconderam o rio com prédios e o céu com cabos?” — Citação do filme Medianeras. Foto: Victor Carvalho.

Sinto como se fossemos a orelha de um lutador de jiu-jitsu, que de tanto roçarmos no kimono e no tatami, já não sentimos com facilidade a brisa. Necessitamos de emoções maiores e mais intensas para que possamos sentir algo. Queremos o próximo filme dos Vingadores, com batalhas mais épicas. Nossos heróis não devem mais proteger o bairro de ladrões, mas o Universo de seres intergaláticos. Não nos contentamos mais com o Tiranossauro Rex, agora precisamos que ele seja maior, mais inteligente e que tenha mais dentes. Queremos que os protagonistas tenham câncer terminal. Queremos o Quarto Vermelho.

Talvez por isso que eu fique tão satisfeito quando vejo um filme como o argentino Medianeras. Quando ele terminou, só consegui pensar em uma coisa: “que filme gostoso”. Sim, gostoso, como cochilar na rede em um domingo de inverno. Não há grandes feitos, demonstrações épicas de amor ou emoções avassaladoras. Não é uma parede de guitarras, mas um banco e um violão. Não é como se apaixonar, é como ver quem se ama acordar pela milésima vez. Sencillo, belo, sensível, embora longe de ser simples. Lotado de reflexões e metáforas para a nossa vida, mas com o talento de não nos transbordar, exatamente como a poesia de Mario Quintana. Você não sai do filme se sentindo bem, ou mal, apenas satisfeito. Afinal, precisamos mesmo pagar mais dois reais para deixar o hambúrguer com mais carne? Precisamos matar os protagonistas para que fiquemos chocados? Precisamos de uma série de 8 livros com mais de 500 páginas? A poesia nos ensinou a falar mais com menos, mas a vida tem nos obrigado a construir prédios cada vez mais altos.

Boyhood pode ter levado 12 anos para ser filmado, mas nos mostrou uma história tão leve que parece ter sido feito em 12 dias. Não nos foi entregue a 9ª Sinfonia, mas Für Elise. É incrível como vi quase todo o filme com um sorriso de satisfação no rosto. Não há grandes tragédias, superações incríveis, lágrimas intermináveis. É a beleza do viver, do passar do tempo, de nossas pequenas conquistas e vitórias, do crescimento. Como diria Carl Sagan, somos feitos apenas de poeira estelar; somos um microscópico ponto no espaço e no tempo. Por que precisamos nos desesperar com isso? Por que não podemos aceitar que somos pequenos e ficarmos satisfeitos?

“Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…” — Mario Quintana. Foto: cena do filme Medianeras.

Mas não me entenda errado, meu caro. Não digo para vivermos de brisas, digo, apenas, que voltemos a senti-las. Que triste é nossa vida quando só compreendemos ventanias.

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