Quero voltar para casa

And God, give us the reason
Youth is wasted on the young
It’s hunting season
And this lamb is on the run
Searching for meaning
But are we all lost stars
Trying to light up the dark?

Aconteceu de novo. Tudo bem que, dessa vez, eu tentei ficar. Juro que tentei. Mas a verdade é que fui embora. É o que sempre faço, sabe? Eu vou embora, abandono, deixo para trás. Odeio me despedir de você. Mas foi como começamos, não foi? Já comecei indo embora.

Não sei quando foi o início de tudo, mas acho que nunca me senti “em casa”. Casa… no sentido de lar, de um lugar para voltar no fim do dia. “Quero voltar para casa”, eu pensava. Mas, materialmente, eu já estava lá. Então eu me refugiava. Eu me refugiava em mim mesmo.

Foram tantas as minhas fugas. Aprendi a desenhar. Mas há uns anos que não sei o que é um lápis. Acho que foi uma das primeiras coisas que abandonei. Em meio a tantos jogos que não zerei, tantos livros que não terminei e tantas paixões que, de fato, acabei. Algumas antes mesmo de começar.

Tentei karate, aikido, violão, natação, academia, dança, cozinha, cerveja artesanal. Nada. Sempre ia embora, deixava de lado. No fim, eu sempre criava o fim. Mencionei os livros que não terminei? Resolvi (tentar) arrumar meu quarto essa semana. Fiz uma pilha que seguia até o joelho… de livros que ainda estou lendo. Foi quando eu abandonei a ideia de arrumar o quarto.

Poderia te dizer que tenho medo que as coisas terminem, inventar algo poético sobre a infinitude da vida, do universo e de tudo mais ou algo pseudo-filosófico sobre a ausência de começo e de fim. Citaria Raulzito, cultura celta, budismo, Douglas Adams… mas eu só estaria, uma vez mais, fugindo da realidade. E qual é a realidade? Eu decido ir embora. Queria largar a faculdade, sair de casa, morar fora da minha cidade, morar fora do meu país, morar fora de mim.

Então comecei a fazer isso com as pessoas ao meu redor. Quantos amigos abandonei? Quantas pessoas queridas deixei sentindo saudades? “Quero voltar para casa”. Foi o que eu sempre busquei em todas essas pessoas, em todas essas coisas. Um lar, algo para voltar no fim do dia. Mas eu não voltava. Até que te conheci. Pela primeira vez eu tinha algo que não sabia como abandonar. Pela primeira vez eu quis voltar no fim do dia, no fim de todos os dias. “Acho que, finalmente, voltei para casa”. Irônico, não? Quando eu encontro meu lar, eu o abandono. “Não sei me despedir de ti”, mas já comecei me despedindo. E continuei a ir embora. Repetidas vezes. Claro, eu sempre voltava. Mas do que adianta voltar se a única coisa que eu sei fazer é ir? E fui. Fui tantas vezes que, uma hora, não tinha mais para onde voltar. Uma hora quem foi embora foi você.

Já há um tempo que não lembrava dessa minha necessidade de “voltar para casa”. Acho que é o que acontece quando encontramos nosso lar. Nós ficamos confortáveis, nos acomodamos, esquecemos que nosso inconsciente está ali, “apertando nossa mente”. Agora estou perdido outra vez. Largado, nu, no deserto. Assustado. Como sempre estive. Como todos estamos. Agora eu quero ir embora mais uma vez. Abandonar mais uma vez. Abandonar para não ser abandonado? Fugir? Sempre te falei para não fugir das coisas, por mais assustadoras que elas sejam. Ninguém consegue fugir para sempre, esconder-se para sempre. You can run, but you can’t hide. Ou como diria uma tia minha que nasceu morta: “se ficar, o bicho come; se correr, o bicho pega”. Só há uma saída, então… enfrentar. Eu tive medo, admito. Fugi e quero fugir de novo. Mas não posso, não quero. Não mais.

Talvez eu tenha falhado. Falhei ao ver que meu lar era em ti. Porque, no fim das contas, meu lar estava em mim o tempo todo. Falhei em fazer de ti meu lar. Eu deveria ter te convidado para fazer parte dele e me convidado para fazer parte do seu. Dessa forma, não importa para onde eu fosse, você estaria ali. E eu estaria lá.

Quer saber? Na verdade, você sempre esteve. Essa é a questão com a música de fundo, não? Ela está sempre ali, embora nem sempre percebamos.

Leia: You know, as much as we fought, I always hated it when you left.
Han Solo: That’s why I did it, so that you’d miss me.
Leia: I do miss you.
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