Antes do bom dia

Mais estranho do que a ficção mas não menos do que a rotina matinal, eu abro os olhos e em um impulso estou em pé. Incomum. Em uma metade de hora eu já vestia garbosamente trajes característicos do designer contemporâneo e exalava o frescor de estagiário mal pago.

7:00. Uau, estou no horário. Devem ser os efeitos colaterais de se estar na casa da vó. Por falar em vó, cadê ela? Como muitas vós, uma senhora de hábitos matinais, que num ambiente rural avisaria ao galo que está na hora, que às 14 horas se estica pelo sofá e reflete como o dia passou rápido, que bate à minha porta assim que alguns minutos indevidos se passam.

Não foi esse o caso, hoje foi diferente. Abro a porta do meu quarto e desço cuidadosamente as escadas. Na cozinha, ninguém, na sala ninguém também. Um calafrio percorreu-me a espinha dorsal e me mantive inerte por alguns instantes. Ao contrário do corpo, o cérebro trabalhava incessante, milhares de imagens, lembranças, vozes, cheiros e expressões vasculhados na minha memória.

Preparei um chá e prometi a mim mesmo que depois daquele chá eu subiria ao quarto dela e a acordaria para dar bom dia e um até mais tarde. A angústia de que talvez não tenha dito adeus acabou por me manter na cadeira onde eu sentava. Acordei cedo, me arrumei a tempo, mas talvez fosse tarde demais. Eu me sentia culpado por imaginar tal coisa e ao mesmo tempo, culpado por não ter previsto.

Com a caneca em ambas as mãos, terminei meu chá ao som de alguns ruídos. Meus ouvidos aguçaram e concentrei. Uma sensação de paz estava batendo à porta mas eu hesitei, precisava ter certeza, cadê o olho mágico?

Ouço passos. Sim.

Um degrau

de cada

vez.

Aguardo ansiosamente a chegada triunfal da estrela de hoje. E lá vem, com toda sua experiência e sagacidade:

“Bom dia, Vó!”

“Ué, já levantou?”

06.07.16