O Enterro

(Parte 4)

Horas depois que fiquei sabendo que Jennifer havia contado a ela sobre o enterro, eu pensei em como ficaria tudo o que havíamos preparado. Enquanto ponderava a opção de mudar a data ou cancelar de vez, Jennifer acabava de ler meus pensamentos.

“Posso te dar um conselho?”

“Acho que, o mais estou precisando é de um conselho”

“Não mude nada.”

“…como você…?”

“Eu te conheço. Faça o que você planejou fazer, e se isso não der certo, o seu coração vai te dar a direção certa.”

“…”

“Calma aí… você estava pensan…”

“Sim… Eu estava pensando nisso. E me avisa quando for dar uma de Professor Xavier.”


Eu respiro fundo e fecho os olhos… quando abro os olhos e me vejo sentado em um banco num fundo de algo que parece ser um pequeno palco, percebo que dormi no carro de Jennifer enquanto estávamos a caminho do local do enterro. Respiro fundo e me encosto no banco, olho meu celular e vejo que tenho um tempo pra pôr as ideias no lugar. Me levanto e vou em direção a saída da casa… quando fecho a porta me deparo com um belo cenário: um pequena rampa de pedra, envolvida em flores brancas e azuis, com a participação ilustre de um pôr-do-sol laranja, porém penetrante.

Chegando nas escadas que levam a rampa de pedra, me sento nos degraus e olho para a rua… e é tudo o que faço durante uns cinco minutos quando tiro, do bolso da minha jaqueta de couro preta, um maço de cigarros pretos. Abrindo-o, vejo que restou apenas um… e era apenas um que eu queria.

“Achei que você tinha jogado isso fora.”

Eu levo um susto muito grande… com a minha mão ainda no peito e a respiração ofegante, vejo quem não deveria estar onde estou… vejo quem não deveria saber de nada disso.

Ela.

Eu normalizo a minha respiração e olho profundamente para ela, antes de virar meu olhar de volta para a rua. Como eu sei que não adiantaria, vejo o seu vulto sentando ao meu lado, nos degraus da escada que levam a rampa de pedra. E dessa vez somos nós dois que ficamos olhando a rua por uns cinco minutos, até que ela quebra o silêncio.

“Eu sei que você é um músico e um romântico desesperançoso… mas não acha que isso não é muito dramático? Até pra você?”

“É só um cigarr…”

“Não é disso que eu estou falando, Victor. E por favor, não seja imaturo.”

“… tanto faz…”

“Olha…”, disse ela se levantando das escadas. “Eu estou querendo conversar com você, pra tentarmos resolver isso de uma vez por todas. Porque, acredite você ou não, não existe uma pessoa que esteja mais intrigada com o que vai dizer, do que eu. Mas é só você falar comigo, e eu vou emb…”

“Fica.”

“…”

“…”

“… o quê?”

“Fica. Não é só você que quer ouvir o que eu tenho a dizer… eu também preciso saber o que vai sair do meu coração, pela minha boca.”

“Ué… você não escreveu nada?”

“Não. Seria artificial.”

“É… vendo nessa perspectiva…”

“Por que você quis vir?”

“Porque estava parecendo que, com essa cerimônia toda, sua intenção não era seguir em frente… e eu vim pra garantir que…”

“Que eu te esquecesse.”

“Nesse sentido, sim. Victor, seu coração vai bater forte e você vai perder seu sono e fome por alguém… mas esse alguém não sou eu.”

“Eu percebi isso da pior forma.”

“Porque foi você foi burro de mergulhar de cabeça, sem antes ver se a piscina estava cheia.”

“[risos]”

“O que?”

“Essa foi uma excelente metáfora. Perfeita.”

“… babaca. [risos]”

“… é nessas horas que eu costumava pensar que podíamos funcionar juntos…”

“…”

“…”

“Então… você não pensa mais nisso?”

“Não. Claro que, eu não vou esquecer que te amei… mas essa frase ficará no passado, junto com tudo isso. Você é uma pessoa especial pra mim, e quero que seja assim.”

“… bom… então meu trabalho aqui está concluído.”

“Como assim? Você não vai ficar?”

“Não… na verdade, eu tenho que ir agora.”

“…”

“Lembra do dia que você me contou da história dos cigarros?”

“… sim… um para cada momento de extrema importância.”

“Ênfase no extrema.”

“Pois é…”

“Acha que agora pode me contar a história verdadeira?”

Olho pra ela, surpreso com a sua inteligência… eu nunca soube como ela descobriu, e para falar a verdade, prefiro continuar não sabendo. Faz parte da aura misteriosa dela…

“[risos]… ok. Vou te contar.”

“Estou ouvindo.”

“Isso não é meu, mas foi passado pra mim. No ensino médio, eu fazia parte de um grupo muito unido de amigos… ainda faço, nunca perdi contato. Enfim, numa tarde fomos almoçar juntos e decidimos não assistir a monitoria de química. Ficamos andando em um parque perto do shopping onde almoçamos, até que sentamos em um gramado.

Entre brincadeiras e conversas, um amigo disse que era a primeira vez na vida dele que estava “matando aula”… não me orgulho do que vou dizer, mas todos nós ficamos felizes por ele, e com um copo de refrigerante, brindamos o pequeno salto de rebeldia dele.

Foi aí que um outro amigo nosso puxou esse maço e nos contou a história que estou te contando agora, e vimos que um já estava em falta porque ele já tinha tido o momento dele, e deu o maço pro iniciante das matanças de aula. E assim foi passando de um em um, de momento a momento, até que no final do ensino médio o maço chegou até a mim. Porém o momento ainda não havia chegado…”

“… até hoje.”

“É… até hoje.”

No final da história, ela se levanta e anda em direção a rua, e sem olhar para trás, ela diz:

“Sabe o que dizem sobre momentos, Victor… aproveite-os, e faça durar.”

“Eu farei o meu melhor.”

“Eu sei que vai…”

“…”

“A gente se vê por aí.”

“Estarei esperando por isso.”

Abaixei minha cabeça ainda ouvindo o salto do sapato dela reverberando pela rua vazia, até que me levantei com um isqueiro na mão e ela já não estava mais na casa. Acendi o canudo preto e fiz o que tinha que ser feito, com a consciência do que estava fazendo.

Eu estava tendo o meu momento.

Quando soprei a última fumaça, Jennifer aparece do meu lado anunciando que pessoas já haviam chegado.

“Você tá pronto pra isso…?”

E vendo a fumaça subindo pelo céu sem núvens, respondi:

“Agora… estou.”