Quase memória #1: A maria-farinha

Ela é um caranguejo. Quando a vejo sei que sai de um buraco que não vejo. Ela anda para o lado como fazem caranguejos. Amarelo-esbranquiçado se movendo. Melhor quando há mais de três. São como conchas que deslizam e desviam do sargaço. Só que não fazem nada. Não entram na água, mas chegam perto. Não comem coisas, mas observam. Não são ágeis, mas não as apanho. Eu num barco estacionado não percebo que sumiram. Mas o mastro sombreado me aponta o esconderijo. Meio em baixo do sargaço onde moram, dormem, crescem.

Mas como podem morar embaixo da areia. É lá no fundo? Tem espaço pra todo mundo? Depois do túnel por que se espremem é como descobrir uma gruta com um poço cristalino, em que se banham e contam histórias que lá no barco viram um menino?

Quero saber, agora adulto que sei pesquisar coisas, como mora a maria-farinha, como é a sua casa. Mas só encontro casas para vender na praia de Maria Farinha, onde elas — as maria-farinhas de verdade — com certeza não existem. Descubro que se chamam Ocypode em quase todo lugar do mundo, um desses monstros gregos mitológicos, e que o nome tem a ver com “asa rápida”. São encontradas em muitos cantos do mundo, até em Madagascar.

Mas é mentira. Ela nada tem de grega ou monstruosa. Na verdade, a maria-farinha é o animal menos grego que já andou para o lado abaixo do sol. Ela não existe nos Estados Unidos e muito menos em Madagascar. Elas existem apenas no mesmo lugar em que sempre as vi, deslizando como conchas de perninhas, em Itamaracá, Pernambuco, Brasil, Minha Memória.