O insano ato de ser

O magnetismo da obra O Grande Gatsby sob a ótica do cinema moderno.

As reflexões sobre desejo, amor e poder, misturadas ao cotidiano de um grupo de peculiares personagens, são o que, basicamente, caracteriza o renomado romance do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald. O Grande Gatsby encanta os amantes da literatura e também do cinema desde o primeiro lançamento, recheado de uma crítica genuína à sociedade nas sutilezas das entrelinhas. Na mais nova versão cinematográfica, lançada em 2013, o longa-metragem ganha na adaptação novos tons, sons e texturas que reiteram o seu significado como obra de arte atemporal.

Nick Carraway, interpretado por Tobey Maguire, é um escritor em ascensão maravilhado pela vida na cidade grande. Ele serve como os olhos de quem assiste ao filme, pois tudo se passa sob o ponto de vista dele. Ao encontrar a prima Daisy, papel da atriz Carey Mulligan, ele mergulha no universo dos milionários e excêntricos de Nova York e, também, perde-se. Daisy é alvo da paixão obsessiva da personagem que dá nome à obra, Jay Gatsby, interpretado por Leonardo DiCaprio.

De início, a história parece simples, um amor impedido por questões sociais. Contudo, quando imergimos nos diálogos, dignos de um roteiro perfeito, é que vemos a subjetividade da trama. As relações de poder são exaltadas nos 142 minutos que compõem o longa. E não só isso, mas a forma como isso pode modificar e adoecer os indivíduos também. Daisy é o retrato perfeito desse problema. Uma mulher rica, perdida no mundo e dentro de si. Quando olhamos para a personagem e seus devaneios, ela parece um ser frágil, e, então, tendemos a vê-la como dependente seja do marido, Tom Buchanan (Joel Edgerton), com quem vive um relacionamento difícil, seja do dinheiro, que inconscientemente a conforta e protege.

Gatsby é misterioso, dono de tantos segredos e também de uma verdade que o move: o amor. Como mostrado no filme, desde criança almeja um certo padrão de vida, que por fim conquista. A certeza do futuro promissor e do amor por Daisy sempre lhe pareceu a combinação perfeita para ser feliz, pois, com dinheiro, poderia conquistá-la e ter tudo o que quisesse. Entretanto, Gatsby se afoga em um mar de obsessão por se tornar perfeito para Daisy e para si mesmo.

Um ponto de destaque dessa versão da trama é a trilha musical. A história do filme é ambientada na década de 1920, mas a música que enche de vida as exuberantes festas são da atualidade. O diretor Baz Luhrmann, conhecido também pela direção de Moulin Rouge, combina música fora de época e figurino exageradamente pomposo e torna o filme um divisor de águas. Há quem ache desfigurado, mas a ousadia de brincar com aspectos cruciais e inovar um clássico consagrado é, inegavelmente, um ponto positivo.

A surpresa da revelação me vem no fim. Todos somos um pouco tanto de Gatsby quanto de Daisy. A condição humana de sonhar nos torna tão egoístas a ponto de não querermos enxergar uma realidade para além da que nos agrade. A empatia com a angústia de cada uma das personagens é intrigante, pois a premissa do filme é criticar o estilo de vida fútil de alguns milionários americanos. Contudo, O Grande Gatsby é muito mais que isso. É sobre solidão, escolhas e desilusão. É sobre ser de verdade em um mundo de mentiras e aparências. É sobre sentir.

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