A Onda Dos Direitos Humanos

I — DO FILME: Sinopse

O filme “A Onda” retrata a experimentação de um professor anarquista, que, em sala de aula, passa a desenvolver com seus alunos um movimento autocrático, cujos objetivos estabelece a união, a uniformização, a disciplina e a integridade do grupo. O movimento, contudo, extrapola os limites dos muros da sala de aula e passa a se tornar um fato social gerador de rixas, inclusive, com as próprias facções anarquistas (punks). A proporção do movimento se amplia e passa a se tornar notícia de jornal, contagiando crianças e até a direção da escola. Com isso, uma aluna dissidente do movimento da Onda, resolve protestar e disseminar panfletos em prol do fim dessa sectarização, sendo que, controvérsias internas ao grupo começam a fragmentar a organização. Com isso, o professor resolve dar fim ao movimento, e explica que apenas queria demonstrar como a autocracia é possível de ser instaurada ainda em tempos atuais, na atual Alemanha.

II — ANALISE DO FILME

Trata-se de filme alemão que trata de um tema sensível para a sociedade alemã: a autocracia. A palavra remete a concentração de poder nas mãos de um único indivíduo, e engloba o conceito de ditadura. O enredo do filme nasce da seguinte pergunta: seria possível hoje em dia a possibilidade da instauração de um novo governo autocrático? O filme demonstra que sim, pois, através da figura de autoridade de um professor carismático, os alunos começam a se mobilizar em prol de um ideal comum.

A ideia de ideal comum, historicamente, permeou o imaginário de ditaduras e regimes fascistas, bem como, também é o foco das instituições internacionais que visam consolidar a democracia, colocando a paz como escopo universal. No entanto, não se pode comparar democracia com autocracia, simplesmente porque aquela pressupõe a pluralidade de manifestações culturais, e esta visa reduzir as liberdades individuais em nome de um ideário coletivo uniformizante.

A disciplina é uma das principais marcas da representação do poder autocrático, e é através dela que as relações de poder atingem os corpos dos alunos, conduzindo suas condutas e governando suas mentalidades. Algo que pode se chamar de biopolítica, e que pressupõe a adesão irracional e nem sempre consentida das massas governadas. No caso, o experimento em sala de aula, que deveria auxiliar estudantes com pensamento crítico, a julgar e discernir de forma refletida os tornam, inicialmente, alunos manipulados por uma fictícia ideologia de integração. Isso resulta na formação de uma perigosa identidade segregacionista, que separa os que estão “dentro” dos que estão “fora” da onda.

Com relação a identidade dos alunos, percebe-se a nítida formação de uma outra identidade que se espelha na lógica de grupo, que, no contexto do filme, refere-se ao desejo incutido de pertencimento a algo maior que as particularidades individuais, mas que se mobiliza por emoções autocráticas, e não democráticas.

Nesse ponto, alegamos que a integridade psíquica de um grupo pode se sobrepor perante as fragilidades individuais do sujeito, que torna a consciência coletiva a referência e meio de vida para adolescentes em face de sua formação ideológica, como exemplifica o filme.

III — DIREITOS HUMANOS

Segundo meu ponto de vista, o filme indica justamente uma crise de valores humanos, que na ausência de ideais que contemplem o anseio social, acaba por colocar adolescentes à deriva e sem uma referência segura para a sua formação ética. Seja por conta do próprio “ressentimento histórico” do povo alemão com o mundo, seja mesmo pela apatia e pela falta de fé nas instituições humanas, permissivas e impotentes contra a degeneração humana. Na cabeça desses adolescentes, a figura de autoridade de um sistema autocrático iniciado em sala de aula, passa a ser visto como uma fonte segura de aceitação maior que o regime democrático em crise ética, e, posteriormente, consolida a própria anarquia, enquanto forma de representação política autogestionária. Isso é, a figura de autoridade do professor é limitada apenas ao perímetro onde ministra suas aulas, mas, para além disso, os próprios alunos começaram a criar seus próprios canais de informação (sites, panfletos), estética(grafite, adesivos, stencil), de tal forma, que a falta de consciência política transforma o movimento em verdadeira referência do caos social.

Cabe aqui um contraponto: qual seria o papel dos direitos humanos nessas condições? Em primeiro lugar, não devemos esquecer que a própria consolidação de tais direitos surgiu após um estado de exceção da Alemanha nazista, e do tribunal de Nuremberg. A ONU é a maior representação da humanidade até hoje que admite a concepção de direitos universais, influenciando, inclusive, as constituições democráticas dos diversos estados democráticos de direito. A declaração universal dos direitos humanos é um documento histórico elaborado por distintas representações culturais do mundo todo, e muito do que foi positivado nas constituições democráticas, sobretudo, com relação aos direitos fundamentais positivados, receberam influência dessa carta maior.

A forma como esse documento surgiu, também decorre como consequência dos acontecimentos autocráticos da Alemanha nazista, ao passo que, para se autoafirmar no mundo, a própria ONU se colocou, por vezes, como uma “autocracia da nova ordem mundial”. Nesse ponto, pergunta-se: será que o professor do filme em sala de aula — atuando como uma entidade superior, querendo demonstrar os vícios da barbárie autocrata, não agiu em nome da democracia (liberdade de pensamento) para provar de um remédio que acabou envenenando sua própria meta? Será que toda forma de imposição, ainda como forma de paquera com a democracia, no fim, não gera mais um vício de autocracia?

É a autodeterminação dos povos que gera o emblema mais democrático dos direitos humanos, mas é preciso mais que a autoafirmação desse direito em cartas positivadas para que o sistema democrático se torne pleno. É preciso uma concepção multiculturalista de direitos humanos, sobretudo na formação de estudantes adolescentes. Um sistema de ensino-aprendizagem onde não exista a figura autocrática de um ditador prescrevendo formas de conduta, ou impondo uma ética de vida desprovida de um fundamento ético-humanizante poderia ter evitado catástrofes, como a que ocorreu no filme. O papel dos direitos humanos, nesse caso, é contemplar a categoria jurídica dos operadores e militantes do direito, somando esforços para a consolidação de um sistema educacional eficiente, que considere as particularidades dos alunos, e os coloquem como sujeitos de direitos, conscientes desses direitos e produtores desses direitos ao inaugurar novas formas de percepção do mundo, que deve ser captado pelo olhar sensível dos educadores. O processo democratizante e humanizante, parte das novas experiências — dos mais jovens — para os educadores, que devem mediar a produção cultural em sintonia com a ordem do tempo presente, sempre enquanto potencializador da iniciativa das novas gerações, mas nunca como um autocrata. Ao se instituir uma nova ética — aquele que cuida do desenvolvimento da sociedade, está cuidando de si.

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