Muletas sociais

Um psicólogo recomendou minha amiga a sair um pouco do Happn pois estava entrando em um consumismo de pessoas. No outro canto da cidade, um amigo que já está há anos num namoro sem graça e baseado na falta de confiança — um com o outro e no próprio taco — começa a enxergar a possibilidade de terminar com a namorada e sente que talvez isso não resulte numa solteirice infinita. Ele falou que nunca usou o Tinder, mas ficou sabendo alguns amigos que arranjaram alguém graças ao app. Minha amiga está no seu quarto (ou sexto?) grande caso de amor desde o ano passado, todos iniciados no aplicativo. Outro amigo, agora que está solteiro e desempregado, se atira pela cidade com o celular em mãos, a qualquer hora, em busca de alguém que queira passar num bar ou apenas para conversar. Ando vendo alguns comentários de gente defendendo seus namoros iniciados em aplicativos do tipo.

Por aqui, foi o Tinder a primeira ferramenta digital que expôs o namoro virtual, do tipo que as pessoas comentam de forma aberta, se admitem usuárias, contam casos engraçados, fazem piadas. Mas oras, por que piadas? As piadas só expõem o desconforto no uso dessas muletas para a vida social. Lembra como Badoo e Match eram vistos como coisa de gente triste, tarada ou apenas desesperada? Já o Tinder, como é visto? Não sei direito, mas pelo visto está todo mundo lá e isso alivia a barra de quem entra. Mesmo hoje, não é fácil admitir que ainda precisamos de ajuda bem neste campo.

Parece ser imprescindível ter o app, uma vez que ele é conectado ao Facebook. O diferencial parece ser buscar gente próxima, com amigos em comum. Próxima em costumes, preferências políticas, consumo, cultural, social e geograficamente. Neste sentido, o Tinder é um desserviço. “Maybe I don’t want to meet someone who shares my interests. I hate my interests”. O Facebook não resolve mais para conhecer alguém da rodinha? Cutucar, curtir uma foto antigona do amigo do amigo? Parece que no aplicativo, o objetivo é repor a mercadoria em falta, mais do mesmo.

Conheci o Tinder mexendo no celular da minha amiga e no app do namorado dela. Ele logo comentou sobre a plataforma gameficada: o aplicativo parece um joguinho, você exclui mecanicamente quem não interessa, com um gesto de desprezo. Reconheceu ser um gesto fútil. Você só joga no campo de conforto, quase não tem rejeição quando as pessoas se escolhem mutualmente. Mas, será?

Essa coisa de você carregar um aplicativo nas mãos, reforça o ar de descompromisso. É um aplicativo que você usa no trânsito, no mercado, no bar. Não se trata de uma pessoa de madrugada usando uma aba anônima do navegador. Este descompromisso quebra toda essa teoria da “não-rejeição”. Você não conhece a pessoa, mas faz um sexting, conversa por horas, porém é infinitamente mais fácil dar aquele temido ghosting antes do primeiro encontro. Também tem a questão econômica. Para se usar o Tinder é preciso ter um smartphone novo, com um OS que o suporte. Lembro da minha amiga triste por não conseguir usar o Tinder no iPhone 3.

Bem, o maior benefício dos aplicativos é igualar o campo dos tímidos com o das pessoas de vida social ativa, com vantagem “desmerecida” para engatar relacionamentos. O retrocesso? O maldito consumismo de gente, o sistema que eu eu você já sustentamos e fomos “vitimados” — na busca do better and better, ninguém é inocente. É uma crítica que quase ninguém pode tirar o corpo. Estabelecer vínculos descartáveis, substituir os não-funcionais, ficar intolerante às peripécias, até quando o interesse é estritamente sexual. Tudo porque temos infinitas chances de criar vínculos, a esperança ganhou novos horizontes.

O problema é que, a exemplo do meu amigo que quer terminar o namoro furado beneficiado pela existência do aplicativo, o consumismo de pessoas afeta todo mundo, incluindo usuários de iPhones 3, ou os cinquentões que compraram um Moto G, ou os usuários do V3. A lógica dos aplicativos escapou para as outras esferas do meio social, tinderificou em algum nível todos os vínculos.

Enquanto as perspectivas de perda parece ser menos dolorosa (por uma lado, ainda bem, no caso de uma relação abusiva, por exemplo), a facilidade de reposição faz com que as pessoas fiquem exortadas a empreender numa busca incessante por alguém que se encaixe na sua forminha de expectativas. Ao invés de pensar nas pessoas por suas particularidades, pensamos em categorias. Sempre tem por aí um sujeito com olhos castanhos, barba meio assim, que curta tais músicas, mas convém não se apegar às pequenas excentricidades que as coisas logo complicam. Como diz um filósofo famosinho “o amor ensina o homem a crer no mundo objetivo fora dele, que não só objetiva o homem, mas que também humaniza o objeto”.

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