O pobre ideal

Geovane Moreira

Eu estava lendo um textinho maroto do Sakamoto (é sério) sobre o taxista reaça. Acabei me lembrando, imediatamente, de uma situação, quando eu voltava pra São Paulo, num ônibus intermunicipal, um dia desses, e quase houve uma batida entre dois carros no cruzamento. Pelo o que eu entendi, não foi um erro grave de nenhum dos dois motoristas e nem chegou a ser, de fato, um acidente. Uma senhora que levava suas compras naqueles carrinhos de duas rodas, estava sentava ao meu lado e, ao perceber que se tratava de uma motorista no carro, soltou aquele velho “só podia ser mulher”.

Bem, este é o mundo real. Não fico mais surpreso com esses preconceitosinhos, nem com a rápida solidariedade com que esses comentários costumam ser recebidos. Pobres esquerdistas da classe média, que vira-e-mexe, têm que saber lidar com o seu pobre — veja o absurdo — que não reproduz sua sensibilidade social, não leu os textos geniais de facebook que você leu, não compartilha do seu ideal de sociedade justa.

Sabe, o pobre que fala de cotas raciais com as estatísticas em mãos, que vê o aborto como uma questão de saúde pública, que vê como algo bom a demolição do Elevado Costa e Silva. Aquele que concorda contigo, que repete a sua estética e sabe seu lugar como minoria. Não precisa ser militante, mas que ao menos lembre no senador que votou em 2010 . Aquele que mora na casinha pintada a cal e sobrevive fazendo bordado, digno, humilde e trabalhador.

Mas, putz, amigo, uma dica: já somos mais reaça que o taxista. Essa história é de um classicismo fodido. Seu taxista faz comentários bizarros? O professor, o médico, teu chefe, e olha, você, também faz. Mas claro que a balda de reaça tinha que sobrar pra alguma categoria e calhou de sobrar pra uma categoria de pobres a qual você, de vez em quando, se vê obrigado a ouvir um pouco. É o mais novo “cantada de pedreiro”.

O fato é que seu grupo de iluminados nunca vai desconstruir séculos de preconceitos históricos e a meritocracia — que estão enraizados na sociedade — de forma ideal. E se a revolução fosse hoje, aposto que mulher machista do ônibus, o gay transfóbico, o operário racista, o taxista reaça, compartilharão com você um lugar no lado (eita, certo ou não)da força. Sem problema? Não. Mas meça sua indignação, parça.

O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006)
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