Não Confie nas Palavras


Sábado eu fui assistir ao novo filme do diretor Gaspar Noé (que é brilhante, assistam) e que me deixou intrigado. O filme fala de Murphy e do desenrolar de seu relacionamento amoroso com a francesa estudante de arte, Electra. No decorrer do filme, acompanhamos cenas de um casal, inicialmente apaixonado e feliz, se tornando inimigos, que nutrem ódio e rancor um pelo outro. Mas o que deixa este filme genial é a sua montagem, que não é cronológica. Assim, após passar mais de duas horas acompanhando se materializar na tela de cinema a deterioração de um relacionamento e uma verdadeira catástrofe amorosa, acompanhei na ultima cena o casal, ainda em um de seus primeiros momentos, abraçado e nu, tomando uma ducha; eis que um dos personagens (não em lembro qual) diz que ama o outro e quer passar o resto da vida com ele; a imagem dos amantes abraçados se congela; o nome do filme toma toda a tela: “LOVE”; sobem os créditos.

O casal Murphy e Electra vivendo o prelúdio de uma tragédia afetiva.

Essa montagem me deixou muito intrigado porque, mesmo vendo o casal se amando naquela banheira e um personagem dizendo que amava o outro, eu sei que eles não vão se amar pra sempre e que eles irão se odiar, ou seja, aquele “eu te amo”, naquela última cena, não me passou a segurança nem a confiança de que Murphy e Electra se amariam para sempre. Só tinha desastre amoroso nas duas ultimas horas anteriores de filme! Eu não confiei naquelas palavras.

No final da sessão, tomei consciência de algo: Como é grande o número de ocasiões em que as palavras não nos garantem nem efetivam nada. Nós

ouvimos muita coisa dos outros, mas nada se concretiza; é angustiante. É por isso que eu não confio nas palavras. Maaaaas, como não sou ninguém nessa imensa fila do pão que é a vida, não vou ficar aqui sendo verborrágico: vou usar um pouquinho de Sartre para expressar o que to sentindo.

Muitas vezes podemos ouvir um “eu te amo” da boca (ou ler do whatss) de alguém, mas na verdade, essas palavras são apenas expectativas inúteis. Nas palavras de Sartre:

“[…] somente a realidade é que conta, e que os sonhos, as expectativas, as esperanças, permitem apenas definir alguém como um como um sonho malogrado, como esperanças abortadas, como expectativas inúteis; […] ‘Você não é outra coisa senão sua vida’”.

A partir disso, entramos na questão de valor e sentimento: O que define o valor de seu sentimento por alguém? Precisamente é a sua ação.

“Não posso determinar o valor exato dessa afeição sem fazer, precisamente, um ato que a confirma e a defina. […] o sentimento se constrói pelas ações que realizamos”.

Uma vez que só existe realidade na ação, a pessoa só vai convencer de seu afeto por mim à medida que realizar uma série de empreendimentos, uma soma, um conjunto de relações que constituem tal sentimento. Se nada se concretizar, se não houver ação que o defina, o afeto não é verdadeiro e não há porque acreditar no contrário.

“[…] não há outra possibilidade de amor do que aquela que se manifeste em um amor […]”

Eu, por exemplo, adoro a cineasta Anna Muylaert, acho que a genialidade dela é representada por suas obras. Agora, por que atribuir a Anna Muylaert a possibilidade de dirigir uma nova obra incrível e espetacular, uma vez que ela não dirigiu. A mesma coisa nos nossos relacionamentos, por que nutrir a possibilidade de amar alguém uma vez que nada foi manifestado?

As palavras podem ser um engodo para nós. Desde uma amizade até um namoro, nossas relações afetivas, aquilo que de fato sentimos por outro, são definidas, exclusivamente, por uma série de empreendimentos que são nossas ações e nada mais.

Na real, frustremo-nos menos.

(…).

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