Quando o Sertão Virar Mar


De repente eu estava no sertão nordestino, vestindo chapéu de couro e com o facão na algibeira. FACÃO?? CHAPÉU DE COURO??? Sim! Afinal de contas, pelo que eu podia averiguar, estava encarnado na figura de um cangaceiro. Mas de alguma forma, sabia que não era qualquer cangaceiro: Eu era Corisco!

Na planície avermelhada eu me arrastava a procura de um juazeiro pra descansar sob sua sombra. ANTES EU ACHASSE O JUAZEIRO… Ao invés disso o que avisto na paisagem é o matador de cangaceiros Antônio das Mortes!

Bem de longe, ele ergue sua arma e mira em minha direção. Minha esposa, a Dadá, que estava ao meu lado, começa a correr. Antônio começa a atirar. Juntos nós fugíamos dos disparos. Fatalmente, uma das balas trespassou a perna de Dadá que se estatelou no chão. Não teve jeito, segurei-a pelos braços e comecei a arrastá-la.

Antonio das Mortes me alcançava. De repente, sabe-se lá da onde, começo a ouvir uns pizzicatos… Um violoncello começa a tocar algo bem melancólico e uma soprano também inicia uma melodia… Era a Bachiana Nº5 de Villa-Lobos. Puta merda! Se existe algo que eu aprendi com a lógica das trilhas sonoras de filmes era que se uma música melancólica dessa começava a tocar, alguma merda ia acontecer. E não deu outra: O matador me alcançou.

— Se entrega Corisco! — Gritou, com a arma apontada para mim.

Eu não tinha certeza de muitas coisas na minha vida, mas nesse instante eu sabia que não iria me entregar: Saquei o facão da minha algibeira e dei um salto pra trás ao mesmo tempo em que gritava feito um animal. Fiquei ali, com os joelhos dobrados, em posição de ataque, com o facão na mão. Impiedosamente, Antônio das Mortes me atinge com três tiros. Desnorteado, girei feito um peão até que paro, abro os braços e, com o ar que pude reunir num ultimo suspiro, extravaso:

— MAIS FORTE SÃO OS PODERES DO POVO!

E me estatelei no chão, aos gritos de horror de Dadá (e ao som triste de Villa-Lobos).

A terra seca da Caatinga fica molhada com meu sangue… E um forte cheiro de amônia começa a surgir.

O matador saca um facão. Como a lâmina de uma guilhotina, o facão desce velozmente pra cortar meu pescoço.

Num estalo eu acordo. Muito longe geograficamente do sertão e temporalmente do cangaço, eu estava dormindo no laboratório de química analítica, rodeado por tubos de ensaio sujos com metal pesado e ar saturado com amônia.

Era apenas eu sonhando com cinema e acumulando desejo de ser cineasta.