Leque de penas

Débora Vieira
Sep 7, 2018 · 2 min read

Sem nome ela andava pelas ruas da cidade, sem documento ou titulo de eleitor.
Enquanto todos olhavam para os celulares, esbarrando-se uns nos outros, ela com seus trapos sujos andava distraída passeando pelo tempo que escorria dentro de sua memória, a todo momento alguém tão convertido em sua própria pressa, esbarra por ela, sem nem
Seus cabelos sujos e emaranhados tapavam boa parte de seu rosto, ela não tinha nome nem face, era invisivel no meio do turbilhão de pessoas com contratos para fechar, graficos para preencher, metas para entregar e ligações para fazer.
Seus pés descalços, pisavam em bitucas de cigarros que eram lançados das mãos daqueles tão atarefados, parafusos da grande máquina, que ela não se encaixava.

Solta pela cidade, ela caminhava, com seus cabelos emaranhados, seus pés descalços e seu vestido vermelho, sem ver o caminho a volta, ela seguia um canto que não saia de sua mente.
Certa manhã enquanto estava parada em frente à uma pedreira, relusente em sua invisibilidade humana, ela pode compreender as palavras ditas naquela canção, e neste momento, com os pés sujos, com o desdem de todos que por ali passavam, algo nasceu dentro de si e ela sabia que o caminho então era sem volta.

Respirou fundo o último encher de pulmões de toda aquela poluição, guiada por nervosismos e ansiedades incompreensíveis, e ao soltar o ar ela devolveu em forma de trovão tudo que a escurecia por dentro, uma limpeza de dentro pra fora, entregou para aquela grande máquina o que realmente não a pertencia e fundiu-se à pedreira a sua volta, irradiando natureza e leveza por onde o vento sopra.

Hoje ela ainda caminha por ai, sem rotas, sem rotina, mas com leveza e comprada com sua canção, e essa nada mais é do que aquela frase dentro de todos nós, que se repete todo dia ao amanhecer, o primeiro pensamento que temos, aquele que se repete infinitamente, mas que não conseguimos ouvir por estarmos tão preocupada com métricas, com entregas, com desafios, com bens materiais.

Silenciamos a voz da nossa própria intuição e menosprezamos o que há de invisivel em nós, mas verdadeiro.

O que você tem ouvido todos os dias pela manhã, presente dentro si mesmo, e que tem ignorado?

Nossa conexão conosco mesmo é a única coisa que temos nessa vida, não adianta, não tem emprego, cidade, pessoas, dinheiro, que vai trazer a liberdade da mutação individual e comunitária, se não buscarmos dentro de nós as frases caladas por nós.

Ao decorrer da vida, enfretamos tantos desafios e tanta rotina que é muito fácil ignorar aquele sentimento, que ao olhar comum, parece ser algo sujo, sem nome, sem forma sem posicionamento… Você sabe a letra da sua canção, você sabe lá no fundo à pedreira que lhe pertence. Vá!

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