Se nesta mesma data, há um ano, perguntássemos para qualquer governante qual seria o espírito do povo durante a indesejada Copa do Mundo, testas suariam, punhos cerrariam e a voz engasgaria. O Brasil que ia às ruas e prometia fazer a corrupção sucumbir ante sua presença certamente poria a baixo estádios e arenas, renegando o pão e o circo. E sob essa tenebrosa previsão, esperamos silenciosamente o tempo passar.
As esperadas vaias vieram logo na abertura. O país que celebrava e recebia o mundo todo de coração aberto, não tinha respeito pela autoridade máxima do país? Faltava respeito para com o evento? Haveria Caos? Protestos novamente? O que mais viria?
Nada mais aconteceria. E todos saberiam se nos tivessem ouvido há um ano. Enquanto nos chamavam de vândalos e nos dispersavam baixo rajadas de balas de borracha, não ouviram nosso grito. Éramos torcida. E torcíamos pelo Brasil. Envoltos em bandeiras e bradando o mesmo que se ouve nos estádios, impulsionávamos a justiça apática do país, tal como impulsionamos seleções por anos.
Nunca nos declaramos contra a Copa do Mundo. contra a Fifa ou contra qualquer estrela do futebol. Era a Canarinho que muitos trajavam quando fomos às ruas — ainda que talvez não fosse o momento adequado. A revolta que nos movia não vinha do mundial, vinha dos gastos e esforços desmedidos para atender ao Padrão Fifa, afinal, o dinheiro que garantiria a qualidade de estádios e aeroportos saíra de alguma fonte. Mas, inexplicavelmente, dessa fonte nada sairia para educação, saúde e segurança.
Senhores, entendam: Não era contra a Copa. Era contra Corrupção.
Não há falha de caráter, não há comodismo e nem hipocrisia em desdobrarmos as rotas bandeiras as quais nos agarramos durante os protestos; não há crime em reavivarmos os gritos de guerra para empurrar um grupo de atletas Brasileiros. Não há demérito em extinguirmos as vaias tão logo discursos e politicagem descarada sejam suplantados pelo esporte.
O evento decisivo que aguardamos e onde se espera sentir o efeito da “Revolta do Vinagre” ainda não chegou. Ainda está por vir o momento em que, outrora, sonhamos ser capazes de nos levantar e provar para o mundo e para todos aqueles que, do alto de sua intelectualidade, disseram que nunca mudaríamos nossa condição. Hipócritas iludidos não são a torcida que canta o hino à capela e aclama seus jogadores caídos. Hipócritas são os senhores que, com sangue mestiço, crioulo, caboclo, mulato, cafuzo fervendo nas veias, se afasta, se exclui e trata o povo brasileiro pelo frio “vocês”.
Fomos aos estádios com o mesmo amor e igual patriotismo a que fomos às ruas. Não porque somos iludidos. Fomos porque queríamos alguma alegria, visto que somos um povo que sofre tanto já com inúmeras coisas.
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