HEROIS À VENDA


Teófilo Stevenson, Yasiel Puig e a agonia do atleta cubano



“O que é um milhão de dólares comparado ao amor de oito milhões de pessoas?” — Téofilo Stevenson


Por Brin-Jonathan Butler

*originalmente via SB Nation, junho 2014

Dessa forma foi como Stevenson, o segundo cubano mais famoso depois de você-sabe-quem, respondeu às ofertas para abandonar a sua ilha e se tornar um profissional e enfrentar Muhammad Ali. Na época, ele era talvez o único homem no planeta no qual não apenas se igualava a Ali em um ringue, mas também poderia superá-lo, naquilo que o poeta Federico Garcia Lorca se referia como “duende”, essa qualidade efêmera que separa os imortais do resto de nós, e que faz mulheres chorarem e homens desmaiarem. Stevenson era alguém autêntico, um homem no qual orgulho e princípios não se curvavam a ninguém.

Vinte anos depois, Orlando “El Duque” Hernandez teria de trabalhar literalmente um milhão de anos em Cuba para ganhar os 150 milhões de dólares que o time de beisebol dos Dodgers ofereceu a um arremessador inferior, chamado Kevin Brown. Duque explicou calmamente ao jornalista Steve Fainaru que, “Eu sei que ‘dinheiro’ é a palavra mais bonita do mundo. Mas acredito que palavras como ‘lealdade’ e ‘patriotismo’ são muito bonitas também”. E mesmo depois de Duque ter ajudado os Yankees a vencer a World Series, já alguns meses após a sua fuga, ele ainda manteve a palavra de que nunca teria deixado a sua casa não tivesse sido forçado.

Stevenson em sua casa, durante entrevista em 2011 (Brin-Jonathan Butler)

“Os melhores atletas de Cuba não ficam lá pelo amor ao país”, escreveu o jornalista de Miami Dan Le Batard, numa “Edição Cuba” da Revista ESPN, na qual também contribuí. “Se o governo entrasse em colapso, e se as regras mudassem, esses atletas desembarcariam às nossas margens como ondas, e com as famílias a reboque”. Le Batard, nascido em Nova Jérsey, filho de pais cubanos, então trocou o foco paras as famosas palavras de Stevenson e explicou, “Essa é uma das melhores frases da máquina de propaganda, mas é a maior mentira, uma que tem de ser dita quando a verdade não é permitida. Em primeiro lugar, Stevenson não tinha a menor ideia do quanto aqueles dólares significavam”.

Quem entenderia, então? Um homem sem nada ou um homem com tudo? Stevenson parecia abraçar os dois extremos. Em maio de 2011, quando sentei com Teófilo Stevenson em sua modesta casa no confortável bairro Nautico, de Havana, o estado de precariedade física dele indicava que, ao contrário da avaliação do jornalista, o “atleta favorito” de Fidel suportou todas as cicatrizes de recusar a vida que poderia ter tido longe de sua amada ilha. Stevenson agora era um completo alcóolatra sem dinheiro pra sequer trocar o pneu murcho do carro. Apesar da sua vida ter permanecido uma ferida aberta, não vi qualquer evidência de arrependimento ou erro nos motivos apresentados por trás daquela impensável decisão. No outro lado dos 145km que separam Cuba dos Estados Unidos, não é como se Mike Tyson, tendo recebido quase a metade de 1 bilhão de dólares nos ringues, estivesse menos danificado.

Quando Stevenson concordou em falar de todos os milhões no qual virou as costas, ele me pediu dinheiro, cerca de 100 dólares. Suponho que você poderia escolher uma dessas duas quantias como um símbolo para definir o homem, e meio que clarear a ideia de quem ele era e o que ele representava. E, mais uma vez, caso você tenha escolhido a primeira opção, estou mais inclinado a pensar que a tua escolha é que clarifica um pouco mais sobre quem você é.

No último mês, dois anos após a morte de Stevenson, arranjei um encontro com a filha dele, Helmys, no pequeno balneário mexicano de Islas Mujeres, ao largo da costa de Cancún, onde ela mora e trabalha por quase a metade dos seus 30 anos. Islas Mujeres explodiu em todo o noticiário em 2012 como o lugar onde Yasiel Puig, o mais recente superatleta cubano e que hoje é o defensor externo [outfielder] dos Dodgers, foi feito de refém com um facão estilo machete num quarto de hotel, até que um resgate pela sua liberdade tenha sido paga.

No final da noite, eu peguei Helmys no terminal onde chegam as balsas na ilha. Ela era fácil de se reconhecer na multidão, impressionante à sua própria maneira, como o pai. Além da beleza, mesmo sem salto alto ela era tipo uma cabeça mais alta do que a maioria dos homens ao redor. Olhei pra ela um tempo antes que me visse e acenasse com a mão acima da cabeça, como uma Venus Williams prestes a sacar. Ela era uma dessas meninas que Cuba tem em abundância, mulheres que já parecem ter entrado no mundo prontas, como uma caixa de charutos já descascada, toda curva e cor.

Na última vez que estive na ilha falando com o pai dela, eu estava no meio de um nada-aconselhável romance com uma das netas do Fidel. E aquilo não acabou em uma agradável saída pelo aeroporto de Havana. Tive sorte de poder sair. Bom, sorri e acenei de volta e dei uma última suspirada bem profunda antes de cruzar a rua e encontrá-la.

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“Pode não haver uma piscina cheia de talento humano no mundo com o valor semelhante aos jogadores de beisebol cubanos”- Michael Lewis



“Em um hotel não-identificado de Isla Mujeres, 12 quilômetros de Cancún, a fuga de Yasiel Puig chegou a um impasse”, escreveu Jesse Katz, para a LA Magazine, em um perfil de Puig. “Confinado no canto de um quarto, no final de um jardim decrépito em forma de ferradura, tudo que ele podia fazer era esperar e torcer para que o seu preço fosse dado, e a sua liberdade fosse comprada”.

Um dia depois, o artigo de Katz sobre o “American Dream” de Puig num barco de contrabando era a maior reportagem esportiva do país, quem sabe até do mundo. Puig tinha arriscado tudo para abandonar a vida em Cuba, mas o sonho naufragou durante o caminho para o México, um ponto de passagem, onde ele foi encarcerado pela diferença entre os 17 dólares por mês que recebia em Cuba e os U$ 42 milhões no contrato que assinaria em Los Angeles. Katz, ainda no olho do furacão da mídia, me descreveu os dias seguintes após a publicação do artigo como “basicamente a semana mais louca da minha vida — 33 aparições em rádio e TV e contando”. Hollywood começou uma espécie de guerra pelos direitos autorais e um acordo pra um filme foi firmado na semana seguinte, um mito já se tornando realidade.

Com algumas dicas de Katz, passei duas semanas cheiretando ao redor de Islas Mujeres. Eu estava procurando pelo motel onde Puig foi preso após nadar até terra firme na escuridão, contra correntezas e os invisíveis corais em forma de navalha, após ter sido chutado do barco.

“Tem um bar de striptease chamado Casablanca, na parte oeste da ilha”, Katz usou como ponto de referência. Então ele explicou que “eu deveria especular onde alguém levaria uma menina se acontesse de querer vazar daquele pico a procura de um quarto temporário”.

Isla Mujeres — Ilha das Mulheres — é apenas o tempo de três rocks fuleiros de distância donde ficam as balsas de turismo da mais povoada Cancún. Minha tia teve um hotelzinho aqui por cinco anos e tem visitado pelos últimos 30, mas não vi o nome Isla Mujeres no jornal antes da história do Puig. Enquanto apontava para as águas perto do lugar onde Puig possivelmente chegou, ela me contou que o governo planeja construir um museu do contrabando na costa do Caribe da ilha. Os oficiais querem divulgar todos os navios que a marinha mexicana capturou dos traficantes, seja de drogas ou pessoas.

Ela então apontou para a praia onde chegou o mais recente barco de contrabando e onde três pessoas se afogaram antes de chegar a terra. Um punhado de refugiados foram presos, mas o resto se camuflou e desapareceu na ilha. Um condomínio do tipo de uso compartilhado, construído pela metade e há muito tempo abandonado, ficou ali meio vigiando a desolada costa. Uma agitada bandeira vermelha avisa os turistas para não entrar na água devido ao repuxo com perigo de morte. Um quilômetro dali, uma dúzia de cigarette boats [lanchas de alta velocidade] foram ancorados perto da fortemente guardada base naval Mexicana. Soldados patrulhavam as praias turísticas ao redor armados com fuzis do tipo M-16s enquanto os locais andavam na areia vendendo bijuterias.

Cubanos o suficiente passaram por esse lugar que uma então vila de pescadores hoje tem um estranho aroma de Havana no ar, imediatamente reconhecível logo ao sair do barco. Música cubana ecoa pra fora dos restaurantes enquanto camelôs vendem cigarros em ruelas escuras. A ilha está infestada de carrinhos de golfe aterrorizando iguanas na estradas, muitos turbinados de um jeito que parecem os carros americanos dos anos 50 deixados pra trás e que ainda estão nas ruas de Cuba. Embora Isla Mujeres lembre a forma de crocodilo de Cuba no mapa, durante o dia a costa turística no lado oeste da ilha parece mais uma versão miniatura de Miami em segunda mão. Quando o pôr-do-sol cintila no céu, os postes de iluminação enferrujados fazem um zunido e iluminam a duras penas as ruas estreitas. Tudo em Isla Mujeres parece muito aqueles calendários de chocolate do Natal, igualzinho a Havana.

Havana, Cuba (Getty)

Do jeito que a cidade caminha, Havana é uma arca do tesouro apodrecida, uma cor primária. A paleta de Isla Mujeres é mais nova, embora não tão brilhante. Tem várias cidades no mundo que podem te quebrar os bagos, mas nenhuma que eu tenha visitado podem quebrar o coração e deixá-lo sangrando como Havana. Quando você vai embora, a casquinha de ferida cai e nunca cura. E quando você chega a primeira vez, várias pessoas te dizem que todo mundo merecia ter Havana como a sua própria ciudad natal, a cidade de nascimento. Isso é algo que devo confessar de forma não muito fácil: tenho saudades de um lugar que eu não nasci.

Sempre fiquei impressionado em como pessoas com tão pouco são dispostas a dividir tantas coisas com estranhos. Mas eles fazem. Isso é a razão de eu ter passado doze anos pensando em qualquer coisa que me deixasse ficar mais tempo em Havana, na maioria explorando o outro lado da história de Yasiel Puig. Um dos motivos que acabei voltando foi para filmar um documentário. Embora filmar aquele documentário, paradoxalmente, me custou a chance de jamais poder voltar. Um peixinho no oceano comparado a qualquer residente local que sinta saudades de Havana, eu sei. Mas U$ 42 milhões, o montante do contrato que assinou Puig, pra mim parece incentivo o bastante para qualquer pessoa arriscar a própria vida, até mesmo abandonar a família e o país para sempre para enriquecer. Pessoas vendem a própria alma todos os dias por muito menos em Nova Iorque, que é onde eu moro hoje em dia, e isso não faz ninguém te erguer as sobrancelhas ou virar a cara. E essas pessoas tem todas as opções do mundo vivendo no maior país do planeta, não?

Entendi porquê os cubanos vão embora cinco minutos após a minha chegada. Quem não entenderia? O que eu queria entender era o porquê tantos cubanos ficaram. E queria entender o custo dessa decisão também, e o preço de ir embora, o do por que tantas vidas de refugiados como Puig, apesar de atingirem o “American Dream”, de alguma forma se tornaram insuportavelmente incompletas sem o lar. Em 1956, quando os tanques russos já rodavam fora do apartamento da minha mãe, ela abandonou a maioria da família e deixou Budapeste como refugiada do Comunismo Húngaro durante a revolução. Ela era feliz com a vida nova e nunca foi nostálgica com o que deixou pra trás. Por muitas razões, isso é completamente diferente com cubanos. Tudo parece penetrar essas pessoas de modo mais profundo. Os olhos cubanos nunca estão muito longe das lágrimas, sejam elas de alegria ou dor.

Eu tenho um velho hábito de avaliar cada cidade que visitei através da pessoa histórica que eu mais gostaria de encontrar e dividir um cigarro. Do primeiro instante que coloquei meus pés em Havana o meu sonho era falar com Teófilo Stevenson, a resposta cubana meio torta a Vincent van Gogh. Se van Gogh, em parte, cativou a imaginação do mundo por não ser capaz de vender obras-primas, Stevenson fez o mesmo só que recusando todas ofertas. O mundo sabia que ele era bom, mas não o quanto ele era bom. Brevemente após a morte dele, George Foreman me disse que Stevenson era de longe o melhor lutador da categoria de pesos-pesados daquela era. Ele estava convencido que se Stevenson tivesse deixado Cuba e se tornado profissional, ele poderia ter sido o peso-pesado mais dominante do período. E, claro, teria uma chance contra Muhammad Ali, não apenas de enfrentar, como de ganhar. Mas era muito mais do que isso também. Esqueça se ele poderia ou não ter vencido. Stevenson poderia ter sido o Muhammad Ali. E qual era o valor disso? Quanto custou dizer não para tudo isso? Existem princípios que possam justificar tamanha recusa? A resposta depende de quem você perguntar.

Tentei por anos perguntar isso pro Stevenson, mas quando finalmente ouvi a voz dele ao telefone concordando em conversar em frente às câmeras, imaginei que meus dias em Cuba estivessem contatos. Eu sabia que mostrar ao mundo a condição em que Stevenson se encontrava seria na ilha mais ou menos como vazar uma sex tape da Michelle Obama nos EUA. Se, pela sua grandeza, Stevenson era um herói emblemático de tudo o que prosperou na revolução, a sua deterioração era na mesma potência tudo o que tinha falhado.

Eu não estava feliz com isso. Explorar os peões de Castro em Cuba e expor algo negativo sobre eles também faz de você um peão para todos os inimigos a 150 quilômetros. E ambos lados não têm muito o histórico de uma opinião sensata.

Stevenson contra o soviético Pyotr Zaev na disputa da medalha de ouro na Olimpíada de 1980, na qual venceu

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“Revolução é uma luta de morte entre o futuro e o passado” — Fidel Castro.


É claro, não havia nada muito único nas circunstâncias da história do Puig como das que haviam com a de Stevenson. “Se fue” e “se quedo” (ele se foi e ficou) são decisões que tem permeado e definido a identidade de cada família cubana, e tem sido assim desde que Fidel Castro e a revolução dividiram pela metade quase todas as famílias da ilha. Isso é a versão de Cuba para o livro “A Escolha de Sofia”.

Estima-se que cerca de 10 mil cubanos — homens, mulheres e crianças — fogem contrabandeados para o México todo ano. Os barcos de drogas que a marinha captura são em maioria da Colômbia, mas quase o total das lanchas de alta velocidade traficando humanos apreendidos em Isla Mujeres têm placas de licenciamento da Flórida e pertencem a expatriados cubanos. Os contrabandistas cubanos sempre preferem pessoas, essa mercadoria frágil que respira e chora — os próprios compatriotas são os donos dessa indústria. Um contrabandista que tenho explorado no documentário, a Rainha Caribenha [Caribbean Queen], ganhou esse apelido porque ele sempre se vestia de drag queen ao contrabandear pessoas, uma persona que adotou porque as autoridades cubanas são proibidas de atirar em mulheres. Castro já advertiu que se em algum dia ele for capturado, eles cortarão as suas bolas.

A Rainha fez incontáveis milhões capitalizando em cima do desespero extremo. “Humanitarismo de risco”, foi como Steve Fainaru definiu, quando escreveu sobre a fuga de El Duque.

Isla Mujeres, apenas 6,4 quilômetros em tamanho, se tornou um destino ainda mais desejável pelos contrabandistas do que Cancún, que fica a 4,8 km de distância. Da esplanada de Isla Mujeres até Havana são 495km, e para o extremo oeste de Cuba, apenas 155km — quase a mesma distância entre Cuba e Miami. Algumas embarcações, segundo consta, levam quase 18 dias para fazer a jornada. No caminho barcos viram, pessoas se afogam, crianças desidratam e morrem de fome — às vezes as pessoas são jogadas na água se os barcos forem perseguidos. Revi alguns arquivos da Guarda Costeira dos EUA das atrocidades e parece algo do cantinho mais sujo da imaginação de Goya. Muitos acreditam que o oceano separando Cuba dos EUA representa o maior cemitério da Terra. Uma das primeiras piadas que ouvi nas visitas à Cuba dizia, “Qual a maior fonte de comida dos tubarões no Estreito da Flórida?” A resposta? Cubanos. Ja, ja, ja 

Yasiel Puig, atleta dos Los Angeles Dodgers (Creative Commons)

Os carteis de droga no México que apoiam o comércio de humanos veem o contrabando nada mais do que um jeito de diversificar o portfólio. Por U$ 10 mil por cabeça, a média da viagem para o México, é apenas 1/10 do preço pedido para a passagem direta para Flórida, então eles garantem a diferença no lucro através da quantidade. Com uma média de 30 cubanos contrabandeados por viagem, esse é um grande negócio pra todo mundo envolvido: U$ 100 milhões por ano, no mínimo, num lugar onde U$ 100 milhões parece mais com U$ 1 bilhão. “COD” não significa “dinheiro na entrega” nessa transação (em inglês, sigla para cash on delivery); ela significa “dinheiro ou morte” (cash or death). Os reais “vencedores” desse sórdido empreendimento, que é a carga, como Puig, são algemados e presos por dias e às vezes morrem esperando que o pagamento seja feito, enquanto políticas fajutas de ambos os lados só incentivam que essa indústria próspera e perversa cresça e torne-se cada vez mais rentável. Segundo Joe Kehoskie, um amigo e empresário de beisebol especializado em lidar com desertores cubanos, “quanto mais lucrativo, mais atrairá outros criminosos e isso só vai piorar”.

Atletas cubanos valem bilhões em qualquer lugar, menos em casa. Embora menos de 1% de todo o talento atlético de Cuba tenha abandonado o país desde o “triunfo” da revolução, ao longo dos últimos anos, mais do que nunca jogadores de beisebol e boxeadores cubanos têm entrado nesses barcos de contrabando e perversamente se transformado nos mais caros humanos para exportação do planeta. Mesmo após a taxa/resgate do atleta ser paga, um pedaço considerável dos contratos feitos nos EUA ainda devem ser “taxados” sob a ameaça física ou de morte aos familiares que ficam na ilha. Enquanto a imprensa debate se financiar esses atletas seria um estímulo ao tráfico de pessoas, fico intrigado ao saber o que é exatamente necessário para que isso seja reconhecido como algo ainda mais malévolo: uma moderna forma de escravidão. Atletas como Puig, apesar dos contratos multi-milionários nos EUA, permanecem servos contratados que tem de trabalhar pra se safar da dívida.

Apesar disso, o incentivo pra sair só aumenta a medida que as ofertas continuam a ficar maiores e maiores. Kehoskie estima que exista, no mínimo, meia dúzia de outros contatos ao estilo-Puig esperando por jogadores que até agora têm provado ser, na linguagem comercial, “uma aposta sem risco”.

Tem sido assim faz um bom tempo. Em 1492, ao ver Cuba pela primeira vez, Colombo a descreveu como “a mais linda terra que os olhos já haviam contemplado”. É claro, esse foi apenas um inesperado desvio do real objetivo da viagem. Felizmente, os nativos Taínos rapidamente o mantiveram no foco quando saudaram os visitantes os oferecendo ouro (o que não tinha qualquer valor na sociedade deles) e alegremente mostraram outros lugares onde mais podia ser encontrado. Colombo e aqueles que o seguiram prontamente escravizaram os nativos fazendo-os procurar por todo e qualquer ouro que pudesse ser encontrado, e retornou à Europa.

Colombo e seus homens também perseguiram as esposas e filhas dos Taínos e, após intermináveis estupros coletivos, as vendiam como escravas de sexo na Espanha. Quando os nativos remanescentes de Cuba entenderam que o desejo insaciável pelo recurso natural da ilha era a razão da presença de Colombo e seus homens, eles jogaram ao mar qualquer ouro que ainda tivessem, na esperança de se livrarem dos invasores da ilha. Na parte mais distante, os Taínos despejavam o ouro nos rios. Por volta de 1530, quase todos os Taínos foram dizimados numa combinação de genocídio, escravidão, fome, suicídio ou doenças. Quase 500 anos depois, atletas como Puig têm substituído o ouro como o mais lucrativo tesouro de Cuba.

Hoje, a história se repete com os bens de Cuba jogados ao mar, mas desta vez o protesto é o oposto aos valores dos Taínos — aqueles que viam o ouro como algo não mais valioso do que nada ou ninguém –, mas sim, àquele controlado pelo governo de Castro. Agora o tesouro de Cuba está disposto a se jogar ao mar em busca de dólares.

Stevenson em 2000, posando para um retrato (Getty Images)

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“América… apenas uma nação de 200 milhões de vendedores de carros usados com todo dinheiro necessário para comprar armas e nenhuma restrição quanto a matar alguém no mundo que nos deixa desconfortável.” — Hunter S. Thompson


Entrevistei Teófilo Stevenson na casa dele em maio de 2011, a mesma semana em que derrubaram Osama Bin Laden, o “homem mais perigosodo mundo”, segundo a CIA. Na estrada para a casa dele passei por uma dúzia de outdoors de Che Guevara, o mais venerado revolucionário cubano. Hoje, a maioria dos americanos o conhecem pela camiseta de turista, vestida até mesmo por um nova-iorquino que vi celebrando a morte de Bin Laden acendendo um cigarro Cohiba (N.T: famosa marca de cigarro de origem cubana). Porém, Che também foi executado pela CIA no tempo em que ele é que estava na lista de “o homem mais perigoso do mundo”. Fiquei imaginando o quanto Bin Laden poderia ser modinha um dia, assim como fizeram com o legado de Che.

Eu já tivera muitas chances de entrevistar boxeadores famosos sob a vigilância do governo. Somado aquele romance com a neta do Fidel, as coisas estavam ficando meio tensas pra mim em Havana. Em Cuba você nunca sabe se chegou no lugar errado na hora certa, no lugar certo na hora errada, ou — o mais sinistro de tudo — simplesmente chegou pela última vez. Carros cheio de estranhos passavam alegremente apontando para as câmeras de segurança. Liguei pro Stevenson de novo de um orelhão e ele relutantemente concordou em se encontrar.

Ok, então, foda-se tudo. De um jeito ou de outro, eu nunca teria uma outra chance. Se algum lugar apreciava alguém com colhões, este era supostamente Havana. Mantenha-se firme e caia fora bem na manha. Parei um taxista ilegal e ofereci pra ele a corrida de um dia inteiro pra traduzir tudo o que eu dissesse e me levar do centro até a casa de Stevenson no bairro Nautico, perto da marina Hemingway.

O tradutor me disse que a melhor chance de convencer Stevenson a falar em frente as câmeras seria levar alguma vodka “de respeito” como presente. Stevenson era conhecido por enrolar um monte de jornalistas chamando todo mundo pra beber como numa festa, e na hora de gravar ele dava a noite por encerrada. Um amigo escritor de Nova Iorque, Bobby Cassidy, foi feito de trouxa dessa mesma maneira.

Quando chegamos em Nautico, pegamos uma garrafa num quiosque e caminhamos o resto do caminho até a casa dele. A vizinhança era verde e rica, bem mais alegre que a de Felix Savón (a resposta cubana a Mike Tyson, e que recusou U$ 20 milhões por uma chance de lutar contra o próprio), mas as notícias que Fidel tinha dado pro Stevenson uma “mansão” era nada mais do que propaganda. O que passa por um bairro luxuoso em Cuba, para os padrões americanos é algo triste, tedioso e inqualificável. Camadas de tinta fresca e carros russos velhos — Ladas trancados atrás de calçadas com uma cerca — são o único sinal de uma relativa afluência. A maioria dos cubanos de outros lugares, de qualquer modo, não têm dinheiro nem pra carro ou tinta.

O meu tradutor ficou quase mudo a medida que chegávamos na casa do Stevenson. Claramente ele estava pensando duas vezes em se envolver nisso. Ele já tinha conhecido o Stevenson antes, traduzindo para diplomatas que queriam conhecê-lo. E ele não curtiu muito a experiência.

“O quanto difícil ele é”, perguntei.

“Você já conversou ao telefone sem ele estar bêbado?”

Acho que não”, eu disse.

“Pois é”, ele balançou a cabeça.

Stevenson durante a entrevista, feita em 2011 (Brin-Jonathan Butler)

Durante a conversa, ele com frequência não sabia qual dia ou mês a gente estava. Nunca saquei se ele tava de sacanagem. Ele mudava de inglês pra espanhol pra russo. Se Muhammad Ali ficou preso em seu corpo como o preço da sua carreira, qual foi o preço pago por Stevenson, preso pela imoralidade de uma causa política?

“Acho que está bastante óbvio o quanto difícil ele é, não acha?”, lamentou-se o tradutor. “Ele não está te encontrando pelo prazer de falar com um jornalista estrangeiro. Ele precisa da grana. Assim como eu. E assim como todo mundo nesse maldito país. Esse homem é meu grande ídolo e de muita gente ao redor do mundo, e vê-lo reduzido a isso me envergonha”.

“Você acha que ele falará com a gente?”, perguntei.

“Na frente da câmera, duvido. Ele não está bem. Lá na frente é o carro dele”. Ele apontou pra um Toyota verde e enferrujado do início dos anos 90 atrás de uma cerca. “Aquilo é dele. Ele virou as costas pra U$ 5 milhões e dirige aquilo. Você acha que sou orgulhoso do meu país por isso? Essa é a casa do Téo. Para os padrões cubanos é de boa, mas em Miami ele viveria em um palácio. Você quer saber o quanto difícil as coisas ficaram? Ele não tem dinheiro nem pra colocar os pneus naquele carro”.

Em 1987, Stevenson se envolveu em um acidente de carro que muitos imaginam ter relação com o álcool e que tirou a vida de um motoqueiro. O crime, se é que houve algum, foi varrido pra debaixo do tapete pra preservar a imagem de ícone de Stevenson. Ele nunca foi fichado na polícia ou condenado, e embora a sua imagem pública tenha lentamente retrocido, simbolicamente ele permanecia a estrela-guia da moral de Cuba. Muitos cubanos ainda acertam o seu relógio moral, digamos assim, de acordo com o relógio de Stevenson, e mesmo aqueles opostos aos princípios socialistas dele, admiram a coragem e convicção do homem.

Eu não estava ansioso pra desmistificar isso. Galileo não foi pra cadeia porque estava errado sobre o que ele descobriu no telescópio; em vez disso, ele foi encarcerado simplesmente porque ele viu o que os outros não queriam ver.

Quando chegamos na calçada de Stevenson pudemos ver através da cerca cadeada que a porta da frente estava aberta. Meu tradutor berrou pra dentro, e momentos tensos depois, um Stevenson sem camisa e uma calça esportiva azul, cigarro no canto da boca, tropeçou os seus 1,96m para a entrada, se segurando contra o batente da porta. Não entendi se a fragilidade dos movimentos dele era devido a carreira de boxeador ou a bebida. Ele recém tinha celebrado o 59.º aniversário e ainda parecia em forma e elegante. Ele se aproximou da gente segurando a chave do portão, enquanto o meu tradutor se virou pra mim com um olhar de pavor.

Teófilo Stevenson ganhou o seu primeiro ouro em Olimpíada em 1972, e o último título mundial amador foi em 1986. Ele ganhou 302 lutas e chegou a ficar 11 anos sem perder. A oferta pra enfrentar Muhammad Ali veio depois de Stevenson ganhar a segunda medalha de ouro na Olimpíada de Montreal, em 1976. U$ 5 milhões estavam na mesa quando ele contra-golpeou o capitalismo e perguntou “O que é 1 milhão de dólares comparado ao amor de 8 milhões de cubanos?”

Ali era adepto de achar a fraqueza em seus oponentes e cruelmente explorar isso como vantagem, e ele nunca encontrou fraqueza em Stevenson, nem mesmo na recusa dele em tornar-se profissional e enfrentá-lo no ringue. Ele admirava um homem que se impunha pelo o que acreditava, assim como Ali tinha feito, ao recusar-se a comprometer suas crenças para lutar no Vietnã. Em 1996 e 1998, Ali doou o total de U$ 1,7 milhão em auxílio médico para Cuba como um jeito de se opor ao embargo econômico contra a ilha, e que tinha contribuído brutalmente pra crise financeira da década anterior. Stevenson cumprimentou Ali no aeroporto internacional de Havana, e eles ficaram inseparáveis durante as duas visitas de Ali, como iguais.

Ali e Stevenson em 1996 (Getty Images)

Fazendo força pra empurrar o portão até a gente conseguir entrar, Stevenson então trancou de novo o cadeado. Haviam rumores que ele mantia uma pistola que Fidel lhe deu pessoalmente para proteção. Ele me deu um caloroso aperto de mão e sorriu, ainda que os seus olhos vermelhos de sangue tenham ficado um pouco triste ao notar minha câmera.

“Por favor, pode entrar”, ele disse em inglês.

“Você gosta de falar inglês?”, perguntei.

“Até ele começar a falar russo…”, disse meu tradutor, sorrindo em direção a Stevenson.

Uma vez na casa dele — cercado por fotografias, recordações e troféus — Stevenson me apontou uma cadeira pra sentar, enquanto ficava no lado oposto, com a rua visível pela porta da frente. Rapidamente entendi o motivo: cada pessoa que passava, ao perceber que era ele, cantava o nome de Stevenson com alegria, estendendo a mão em louvor, e isso levantava o seu ego. Entreguei a garrafa de vodka e ele acenou a cabeça em agradecimento, perguntando ao tradutor se ele poderia ir à cozinha pegar alguns copos e um suco de laranja.

Mesmo que na época eu não tivesse ideia que essa seria a última entrevista de Stevenson antes da sua inesperada morte, um ano depois em junho de 2012, eu sabia que isso não seria fácil. E de repente ficou consideravelmente pior.

Comecei a prender minha câmera a um pequeno tripé. Já tinha desdobrado e ajustado o ângulo quando Stevenson acendeu outro cigarro e, se virando pro tradutor, disse em espanhol:

“Diz pra ele que precisa pagar, ou não tem entrevista. Faz ele oferecer alguma coisa”.

“O quanto a gente pede?”, perguntou o meu tradutor.

“Sei lá, tu que me diz”, ele grunhiu. “Tu que tem experiência nisso. Diz algum valor”.

“Acho que a gente pede 80 ou 100. Eu tô quebrado”.

“Ok”, resmungou Stevenson. “Mas eu tô bem pior do que tu. Se eu disser que não tem entrevista…” — Ele então notou a câmera apontada em sua direção. “Não filma agora. No camera! Põe essa câmera pra lá”.

Foi o que eu fiz.

Stevenson estava em uma daquelas sinucas de bico. Ele não apenas tinha rejeitado os milhões da América, mas também tinha de fingir que isso não teve consequências. Ele tinha de ser tão convicto na sua escolha quanto Yasiel Puig precisava fingir que alcançou a salvação ao entrar na “American life” sem uma dor permanente. Mudar de ideia a esta altura era uma faca de dois gumes. A verdade emocional permanecia oculta.

“Tá desligada?”, rosnou Stevenson. Eu desliguei.

O tradutor espalhou os três copos perto de Stevenson e colocou uma grande garrafa de suco de laranja ao lado da vodka.

“A gente pode conversar, mas não quero ser filmado”.

“Se você me der a entrevista, eu tenho de filmar”, eu disse. “É pra isso que estou aqui”.

“Por 100 dólares tu pode filmar as fotos na parede e ficar com o áudio da entrevista”.

“Desculpe”, eu ri. “Ao telefone falei que era uma entrevista filmada. É pra isso que estou aqui. Esse é meu trabalho”.

Stevenson jogou o cigarro no chão e procurou por outro numa carteira vazia. Ofereci um dos meus.

“Qual é esse?”

“American Spirit”, eu disse.

“Tu quer que Teófilo Stevenson fume American Spirit?”, cupsindo as palavras. “Porque raios te deixei entrar na minha casa?”

E assim, Stevenson começou a preparar três drinques em grandes copos de papel. Ele encheu os três até a borda, mas dois tinham 90% suco de laranja e 10% vodka, enquanto o outro tinha 90% vodka e uma borrifada de suco de laranja. Metade da garrafa de vodka já era.

“OK”, Stevenson riu. “Quanto tempo tu precisa para a nossa entrevista?”

“Uma hora?”, eu disse.

Stevenson balançou a cabeça pensativo, alcançou o coquetel de screwdriver e ergueu em minha direção.

“Foda-se isso”. Empurrei o drinque de volta. “Eu nem bebo”. Eu já conhecia o ritual. Vi o meu pai beber até morrer, do mesmo jeito que Stevenson estava fazendo agora.

“Meu amigo”, Stevenson murmurou, “meu acordo é o seguinte. Se tu pagar 130 dólares, tu ganha a tua uma hora comigo em frente a câmera, e pode filmar minha parede de troféus e as fotos com Fidel e Ali”.

“Feito”. Peguei a minha câmera.

“Eeeeeee”, Stevenson acrescentou, “o tempo começa agora, mas tu só pode começar a filmar quando acabar esse drinque. Estes são os meus termos”.

“São os teu termos?”

“Sim”, Stevenson sorriu maliciosamente. “Tu aceita os meus termos?”

“Fechado”.

Tomei o copo de vodka, e sem parar coloquei pra dentro em cinco ou seis dolorosos goles, lutei pra não vomitar na sala dele por um tempo, e assim que a coisa parou no estômago, liguei a câmera pra sacar a reação de Stevenson.

“Nooooooooo”.

“Acordo é acordo, campeón”, eu disse.

O tradutor chacoalhou a cabeça. “Vocês dois são malucos. O que que eu tô fazendo aqui?”

“Ok, um minuto”, Stevenson pediu. “Um minuto”. Ele cambaleou até a sala de jantar e achou uma camisa e um boné, após atirar pro lado algumas peças de dominó na mesa. Ele voltou com uma camiseta do Che Guevara e um boné cinza como armadura e me encarou como um leão velho.

Comecei a filmar.

“Você é feliz com sua vida em Cuba?”, perguntei, minha voz tremendo. “Você é feliz com a vida que teve?”

“Feliz? Eu sou feliz. Muito feliz”.

“Algum arrependimento?”

“Não”.

“Por que é tão difícil para as pessoas acreditarem?”

“Há pessoas que se tornam imorais. Eu nunca faria isso. Suporto até o fim”.

“Eu acabei de chegar da Irlanda, onde (o boxeador cubano) Guillermo Rigondeaux lutou pela última vez. Ele me disse que você o defendeu depois que ele tentou desertar”.

“O sistema cubano o ajudou. Onde ele cresceu, em Santiago de Cuba? Eles não tinham as condições que a revolução criou hoje em dia. Ele devia ter respeitado isso”.

“Félix Savón me disse que pra ele Rigondeaux traiu o povo cubano”, eu disse.

“Eu rejeitei todo o dinheiro. Porque eles queriam que eu ficasse nos Estados Unidos como o Rigondeaux e todo os outros. Rigondeaux decidiu sair. Ele foi proibido de lutar em Cuba. Ele traiu o povo cubano. E…foi embora”.

“Qual é o sentimento em decidir se fica ou vai embora”, perguntei ao Stevenson. “É uma decisão com a cabeça ou o coração?

“Existem decisões que emergem de dentro do coração e a alma e elas não podem ser traídas. Agora pare a câmera um pouco. Não quero que as crianças vejam o campeão fumando, por favor. É um mau exemplo”.

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Helmys durante o funeral do pai, em 2012.

Helmys vestia um longo vestido branco com seu cabelo cacheado caindo sobre os ombros. Embora tenha crescido alta e ágil como uma nadadora Olímpica, os braços dela eram tão largos e torneados quanto qualquer boxeador da categoria meio-pesado que eu tenha visto.

“Você levanta caminhões em Cancún ou o quê?”, perguntei.

“Eu não faço exercícios”, ela disse, corando. “Fui abençoada com um boa genética”.

“Bom, boxe feminino está nas Olimpíadas agora”.

“Ouvi falar.”

“Talvez pra encerrar o debate entre o seu pai e Ali eu poderia promover uma luta entre você e uma das filhas dele”.

“Laila Ali já foi campeã mundial”.

“E o pai dela também quando Teófilo recebeu todas aquelas propostas pra lutar com ele”.

“Vou considerar a ideia”.

Assim como Ali e Stevenson nasceram com uma estranha semelhança física, Helmys poderia facilmente se passar por uma das filha de Ali. Fiquei imaginado o quanto diferente teria sido a vida dela, caso tivesse aproveitado dos benefícios que as filhas de Muhammad Ali tiveram da fama e fortuna. Teófilo Stevenson era um herói nacional, mas ele nunca pôde oferecer para os filhos o conforto e a segurança dos milhões. Mas não vi qualquer sinal de ressentimento nessa linda menina.

Depois de alertar Helmys da distância onde pensei em levá-la pra jantar, ela trocou o salto alto por um chinelo.

Eu a levei ao mesmo hotel onde Yasiel Puig foi mantido em cativeiro sob a ameaça de ter o braço cortado por um machete até que o resgate fosse pago. Era o único hotel que se encaixava em todas as pistas que Klatz tinha me dado: em forma de U, com piscina e vista pro mar, uma enorme bandeira Mexicana em Cancún, e a apenas uma caminhadinha daquele clube de striptease. Katz tentou por semanas identificar no Google Imagens, mas não conseguiu. Desde que Puig foi feito de refém, o hotel passou por uma massiva reforma. Imagina de onde saiu o dinheiro pra financiar aquilo? Minha tia tinha certeza que a encarnação anterior do hotel era a boate que Katz escreveu a respeito no artigo dele.

Caminhamos no escuro ao longo da estrada, tipo uma avenida de Nova Iorque que dividisse dois mares. Helmys não usava perfume, mas a fragrância que flutuava dos seus cabelos, expelido pelo luar ou algo assim, era uma grande distração.

“Como você deixou Cuba?”, perguntei.

“Estudei turismo internacional no México, então apliquei pra um visto pra ficar e trabalhar aqui. Visito minha casa em Cuba sempre que consigo”.

“Onde você cresceu em Havana”?

“A casa que você visitou, onde meu pai acabou se mudando, em Nautico, era a única piscina da vizinhança, mas ele não a usava pra nadar. Ele gostava de tartarugas e patos, então os deixava usar. Mas antes daquela casa Fidel nos deu uma casa perto da Plaza de la Revolución, onde ele se dirigia ao povo cubano. Nossa casa era ao lado da viúva de Che Guevara. Os filhos de Che eram os meus amigos de infância”.

“E Fidel era próximo ao teu pai”?

Muito próximo”, ela estapeou meu braço pra enfatizar, como só a filha de um três vezes campeão Olímpico o faria. “Ao nascer o meu pai me apresentou pro Fidel e parece que puxei com força a barba dele enquanto me embalava nos braços”.

“Então você o conhecia durante a juventude”?

“Claro. Mas eu não era…aterrorizada por ele. Eu não conseguia falar com ele, jamais. Ele era o Fidel! Mas sempre que estávamos em alguma lugar com ele na audiência, eu pedia pro meu pai ‘Por favor, posso falar com ele?’. Então meu pai conversava com Fidel, e ele sempre viria falar comigo, mas a minha fala travava. Isso incomodava o meu pai. Mas eu simplesmente não conseguia falar com ele”.

“Você alguma vez pensou na vida que poderia ter tido caso o seu pai aceitasse todo aquele dinheiro pra ir embora”?

“Dinheiro é algo legal”, ela sorriu, acariciando o ombro que ela tinha estapeado. “Mas não fui criada desse jeito. Eu tinha uma vida linda em Cuba e sou muito feliz com minha vida agora”.

“Você pensa que o seu pai alguma vez se arrependeu”?

Stevenson posa pra um retrato em 2006 (Getty Images)

Não. Foi uma decisão fácil? Não. Não pra todo mundo. Meu pai teve a vida que sempre quis em seus próprios termos. Talvez tenha a vivido demais e isso tenha custado mais tempo. Mas ele teve uma vida linda e me deu uma vida linda também. Ele foi exatamente o que queria ter sido”.

Helmys e eu passamos em frente ao Casablanca, o sujismundo clube de striptease na qual Katz mencionou, bitucas de cigarro e tampinhas de garrafa espalhados pela calçada. Dava pra ouvir Britney Spears cantando lá dentro, mas nenhuma luz era visível. O clube estava escondido da estrada por um arbusto, como se fosse uma barba escondendo a papada.

“Você sabe a respeito de Yasiel Puig’?, perguntei. “O jogador de beisebol que ficou famoso em Los Angeles”.

“Claro. Muitos cubanos vem aqui nessa ilha ou em Cancún todos os anos. E alguns, como ele, são atletas que vem por todo o dinheiro que os espera nos Estados Unidos”.

“Você é indiferente a escolha dele”?

“Ele tem de viver com a escolha que fez e se isso foi o certo pra ele. Eu não julgo ninguém. Não é da minha conta”.

“E quanto as pessoas que julgam as escolhas do seu pai. Que não acreditam que alguém teria feito o que ele fez?”

Ela deu de ombros.

“Apenas por alguém não concordar com ele ou as razões dele, não significa que precisa acusá-lo de ser um mentiroso”.

Tive a chance de encontrar o pai de Helmys apenas uma vez, e fiquei triste no minuto seguinte em que a nossa conversa feriu aquilo que era o orgulho de um grande homem, e que pra muitos era algo que o reduzia. Demorei o mesmo tempo com a filha dele pra perceber o quanto ele devia ser orgulhoso do seu legado, tendo a criado como a sua maior realização pessoal dentro ou fora do ringue ou em nome da revolução.

“Trouxe algumas fotos do meu pai que eu carrego no telefone pra te mostrar. Achei que iria gostar. Algumas fotos são do meu pai e Fidel. Meu pai e eu, e muitas nunca foram publicadas. Gostaria de vê-las?”

Ela parou ao meu lado, o cabelo na minha cara, e calorosamente trocava na tela as fotos da vida do pai. E como não haviam fotos de boxe na coleção, tudo que ela me mostrou clareou todas as coisas que imagino ele tenha lutado. Da lua-de-mel a momentos íntimos com a família, ao ser apresentado a Nelson Madela, ao fazer uma saudação com Fidel nos Jogos Pan-Americanos — tudo isso era maior que a sua vida e com um sorriso digno de qualquer ícone do cinema de Hollywood.

“Meu Deus, o teu pai era um cara muito bonito”, eu disse. Ainda olhando para o rosto do pai na tela, ela me corrigiu, “Ele não era bonito. Meu pai era lindo!”.

Dois anos atrás vi Helmys no funeral do pai, onde quase mil cubanos no público choravam juntos a sua perda. Olhei ela confortar o irmão enquanto o caixão de Stevenson era colocado sob a terra e cada pessoa saudava um herói amado. Incluí as imagens da cerimônia no meu filme como um contraste de como seria o funeral dos boxeadores cubanos desertores na América, tão longe dos amigos e família.

Não estava procurando vilanizar ou julgar qualquer decisão, o que sempre quis questionar são os efeitos colaterais da decisão, em si, algo que Puig e Stevenson e muitos outros conhecem muito bem. Ao tentar entender a vida e morte de Stevenson, pedi ao meu pai pra assistir minha entrevista com ele. Foi uma hora bastante tensa, porque ele enxergava um pouco de si mesmo em Stevenson, assim como eu também.

Quando o filme acabou, meu pai se referiu a um poema de Rainer Maria Rilke. Em 1905, Rilke estava trabalhando como secretário de Rodin, o escultor, e confessou que não estava mais escrevendo. O artista o mandou ao zoológico e falou pra ele procurar um animal até que avistasse algum. Rilke, então, imaginou a vista do cativeiro, só que de dentro pra fora.

“A Pantera” é o que chega mais perto de me mostrar o foco da borrada relação entre Stevenson e Cuba:

Seu olhar, de tanto percorrer as grades, está fatigado, já nada retém. É como se existisse uma infinidade de grades e mundo nenhum mais além.
O seu passo elástico e macio, dentro do círculo menor, a cada volta urde como que uma dança de força: no centro delas, uma vontade maior se aturde.
Certas vezes, a cortina das pupilas ergue-se em silêncio. — Uma imagem então penetra, a calma dos membros tensos trilha – e se apaga quando chega ao coração.
(Trad. José Paulo Paes, do original em alemão Der Panther)


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Brin-Jonathan Butler já escreveu para Revista ESPN, Deadspin e Vice. Tem dois livros publicados: “A Cuban Boxer’s Journey”, um relato da relação entre Cuba e Estados Unidos sob a ótica dos boxeadores cubanos enfrentando a decisão entre os milhões ou entrar num bote clandestino; e “The Domino Diaries, um livro de memórias em que Butler fala sobre a época em que treinava boxe em Cuba, cujo esse texto serve de base para o capítulo final.

Produtor: Chris Mottram | Editor: Glenn Stout | Revisor: Kevin Fixler

Tradução: Leandro Vignoli


Abaixo a íntegra de "Ali vs Stevenson: The Greatest Fight that Never Was", curta-metragem produzido junto a esta reportagem (sem legendas).