O atleta transgênero

Os campos de disputa sempre foram segregados com base no sexo do competidor. Mas o que acontece com os atletas no qual a fisiologia não corresponde a sua identidade de gênero? Contra quem eles competem? Quais obstáculos eles enfrentam? E como eles têm sido tratados pelas federações esportivas?


Publicado originalmente em Sports Illustrated, Maio 2012.

Por David Epstein

Se você nunca viu um martelo atirado de perto, principalmente durante o inverno da Nova Inglaterra, nos EUA, a parte mais impressionante do lançamento é a conclusão: de como estraçalha a terra batida quando aquele cometa de metal atinge o chão. Pesando mais de quatro quilos e presa a um fio de 1,20 metros, a bola de aço inoxidável é perigosa o bastante para que os aeroportos a tenham banido de ser carregada na bagagem de mão. E numa vívida manhã de fevereiro em Williamstown, Massachussets, cada arremesso de Keelin Godsey oferece mais uma prova dessa violência.

Com 1,80m e 84 quilos, Godsey é puro músculo. Ele usa óculos e se veste todo de preto, dos tênis à touca, que aperta o seu cabelo loiro espetado. Repetidas vezes, em frente a uma gaiola de arame, ele segura a haste onde fica preso o fio do martelo, e gira de forma acelerada em círculos até não ficar claro se é ele quem gira a bola ou a bola girando nele. O objetivo dele em distância, 69 metros, é uma marca de cascalho além de umas crateras cobertas de geada. Esse é o índice de classificação para a Olimpíada de Londres — uma marca que Godsey atingiu lançando 69,38 metros num evento em Walnut, Califórnia. Caso fique entre os três primeiros nas Eliminatórias do Oregon, realizará o sonho de uma vida inteira: entrar para o time olímpico feminino dos EUA.

Morry Gash/Associated Press

Para transgêneros homens e mulheres, as características fisiológicas que os distinguem como homem ou mulher não se aplicam a como eles se sentem com eles mesmos. Alguns têm feito cirurgia de redesignação sexual ou terapia hormonal para fazer que suas identidades de gênero e biológicas correspondam. Outros, como Keelin Godsey, de 28 anos, não: ele nasceu como mulher e portanto compete como mulher, embora se identifique como homem. Imagine um corpo, especialmente um torneado como o de um atleta de elite, sentindo-se inescapavelmente estranho — como se ele fosse planejado para o sexo oposto. “Eu tenho muito orgulho no fato de possuir uma grande quantidade de massa muscular, e construí isso naturalmente,” diz Godsey. “Mas por algum motivo, esse é o último dos corpos que eu gostaria de ter”.

Um fisioterapeuta conhecido como Kelly até o último ano da faculdade, em 2005, Godsey é o primeiro atleta dos EUA, de qualquer modalidade aspirante às Olimpíadas, a ser abertamente identificado como transgênero. Quando não está competindo, ele se veste e vive como homem, aluga um duplex em North Adams, Mass., com Melanie Hebert, sua noiva por três anos. “Eu sou mulher quando eu compito”, ele diz. “Todo dia tenho de suar, me estressar e entrar em pânico. Como está minha aparência? O que alguém vai pensar de mim? Alguém vai dizer algo durante a competição?”.

Considere algo tão simples quanto ir ao banheiro. Quando usa o vestiário masculino — sua preferência — Godsey normalmente tenta encolher o peito; no feminino ele tenta acentuá-lo vestindo camisas apertadas no qual ele chama de “coisa de menina”. Ainda assim, ele já foi retirado por um segurança num banheiro feminino de aeroporto, interrogado em restaurantes, e uma vez teve de fugir de uns caras meio raivosos numa dessas paradas pra caminhoneiro, no Nebraska.

Ninguém sabe o número preciso de transgêneros nos EUA, muito menos no mundo. Uma estimativa recente do Instituto Willians da Escola de Direito da UCLA, que estuda identidade de gêneros, calcula o tamanho da população americana em 700 mil; o número daqueles que são atletas é ainda mais difícil de prever. Michele Dumaresq, uma transgênera profissional em mountain bike de Vancouver, relatou a revista Outside que ela conversa com cerca de 115 atletas transgêneros não-assumidos de todo o mundo. Desde que, em 2006, assumiu como diretora das iniciativas de gênero e bem-estar do atleta na NCAA, Karen Morrison recebeu cerca de 40 inquéritos relacionados a transexuais das universidades, candidatos a atletas trans e seus advogados. Várias consultas foram estimuladas após Godsey se assumir publicamente como transgênero homem.

O primeiro atleta transgênero famoso nos EUA foi Richard Raskind, oftalmologista e capitão da equipe de tênis em Yale, que fez cirurgia em 1975 e tornou-se Renée Richards. Ela foi um marco ao vencer em 1977 uma batalha na Suprema Corte de Nova Iorque que a permitiu competir como mulher no U.S Open (ela perdeu em três sets na primeira rodada para a campeã de Wimbledon, Virginia Wade). Mas é só agora que atletas transgêneros estão ganhando o reconhecimento das federações esportivas.

Em 2005, o ano que Godsey veio a público, Lana Lawless, um ex-policial de Rialto, Calif. com um alto handicap no golfe, fez a cirurgia de redesignação de sexo para tornar-se mulher. Cinco anos depois, a LPGA (Associação Feminina de Golfe Profissional) negou a sua inscrição para competir em torneios classificatórios, alegando a sua regra de “mulheres ao nascimento”. Lawless entrou com um processo, mas retirou a petição somente após a LPGA votou em revisar o livro de regras. Naquele mesmo ano a lutadora Donna Rose — antes David Rosen — tornou-se a primeira transgênera pós-operação a participar da divisão feminina do campeonato nacional de luta-livre, em Cleveland, vencendo na categoria até 71,5 kg. E em novembro de 2011 numa vitória sobre Tonga, Jonny Saelua, um zagueiro da seleção de futebol de Samoa Americana identificado como mulher, tornou-se o primeiro atleta abertamente transgênero a participar duma Copa do Mundo. Caster Semenya, famosa sul-africana campeã mundial dos 800 metros rasos em 2009 não é transgênero. Após a controvérsia da musculatura definida e voz grave, alegadamente a atleta possui genitália feminina externa e, internamente, testículos não desenvolvidos, o que a faria intersexual.

Kye Allums, jogando pelaGWU. Foto: NCAA)

O caso recente mais controverso ocorreu na Universidade George Washington em novembro de 2010. Kye Allums, armador titular de 1,80m, se assumiu em público antes do seu terceiro ano de faculdade, o que fez dele o único atleta abertamente transgênero da Divisão I. “Sim, eu sou um homem numa equipe feminina,” Allums calmamente explicou aos repórteres. “E quero ser claro a respeito disso: sou um homem transgênero, o que significa, eu me sinto homem…O meu sentimento é que deveria ter nascido homem com partes masculinas”.

Sua tranquilidade contradiz a turbulência no vestiário da equipe que faz parte. Bombardeado por pedidos da mídia e conversas sobre transgeneridade, algumas das colegas do time disseram que esperavam que ele tivesse assumido após a graduação; de acordo com uma jogadora, a palavra egoísta foi usada numa reunião do time. “Foi loucura, passar de todo mundo me apoiando para ninguém”, disse Allums. Ele também se sentiu abandonado pelo treinador Mike Bozeman. “Ele foi tipo ‘agora você está nos afetando’”, explica Allums. “Ele apontou para as atletas calouros e disse algo do tipo ‘Vocês chegaram até aqui pra ter de lidar com isso?’”

Bozeman, cujo os filhos estavam sendo perguntados sobre Allums pelos professores na escola, admitiu estar sobrecarregado. “Eu estava meio que improvisando”, diz o técnico, demitido após um recorde negativo de 42 vitórias e 75 derrotas em quatro anos. “[A universidade] nos oferecia um psicólogo do esporte pra vir falar com o time, mas aquilo aconteceu quase no final do ano. Nós precisávamos desde o começo”.

Allums preferiu não voltar no seu último ano de faculdade, principalmente por uma série de concussões que o permitiu jogar apenas oito jogos em 2011. E, após uma vida inteira com medo de agulhas, ele começou a transição física. Seu médico iniciou o tratamento com injeções de testosterona de 0.5ml, aumentado para 1ml três meses depois, mas rapidamente trocando para 0.75ml a cada duas semanas, porque a alta dosagem fazia com que Allums se sentisse atingido por um dardo tranquilizante. Sua voz engrossou; o número do boné aumentou; ele cresceu um bigodinho; ele corre mais rápido; e os pés cresceram quase um número do sapato. Aos 22 anos, ele se mudou para Nova Iorque e planeja um retorno. Enquanto passa a maior parte do tempo dando palestras sobre assuntos ligados aos trans, ele gostaria de usar o restante da elegibilidade na NCAA para jogar com um time masculino em uma universidade menor, e assim completar o diploma em psicologia ou sociologia. “Basquete é basquete”, ele diz. “Se eu posso jogar, eu vou jogar”.

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Mesmo quando Godsey tinha longos cabelos loiros durante o colégio, em Parker, Colorado, “eu sempre aparentei ser muito masculino”, diz. Ele jogou basquete, futebol, softbol e fez atletismo, mas a sua aparência — e a percepção de que ele era gay — resultou em um tormento verbal e físico. “Eu era a criança estranha”, Godsey diz. “Eu era a criança ‘gay’. Eu era aquele que era diferente”. Uma vez quando ele chegou no colégio, encontrou uma mensagem explícita e desrespeitosa no armário. Noutra, um grupo de meninas o espancaram, quebrando algumas das suas costelas. (Aquele ataque ajudou a despertar um interesse em levantamento de pesos.) Num dia, uma ex-colega do time feminino de basquete lhe deu uma Bíblia, meticulosamente anotada, com passagens sublinhadas sugerindo que Godsey iria para o inferno caso ele não mudasse.

O conceito de ser transgênero ainda provoca extremo preconceito e hostilidade. Uma recente pesquisa conduzida pela Rede de Educação Gay, Lésbica e Hetero (GLSEN) com 295 estudantes trans entre as idades de 13 e 20, foi descoberto um alarmante grau de vitimização. No ano passado 87% foram ofendidos ou ameaçados por causa da expressão do seu gênero; 53% foram empurrados; 26% levaram socos, chutes ou agredidos com uma arma; e 46% reportaram terem faltado a escola porque sentiam-se inseguros ou desconfortáveis. “Eu realmente acredito que a questão da igualdade gay em nossa sociedade está no caminho de ser resolvida”, diz Cyd Zeigler, co-fundador do Outsports.com, uma publicação que cobre LGBT ligado ao esporte. “Igualdade transgênera é a próxima. E é um passo muito maior”. A meta mais recente de Allums é criar uma fundação destinada a juventude trans — dezenas dos quais o tem contatado através do Facebook. Sobre um menino de 16 anos em conflito com os pais, ele diz “Tipo, o que eu tenho de fazer pra que ele não venha a tentar o suicídio”?

O sofrimento não é limitado aos jovens. Em abril de 2007, Mike Penner, um aclamado colunista de esportes do jornal Los Angeles Times, anunciou que era uma trans mulher e mudou o nome para Christine Daniels. “Eu sou um jornalista esportivo transexual”, ele escreveu em sua coluna. “Levei mais de 40 anos, um milhão de lágrimas e centenas de horas de uma dolorosa terapia pra eu ter a coragem de digitar essas palavras”. Ainda assim, depois de tantos anos e toda a terapia, a transição se provou muito difícil. Em outubro de 2008, Penner parou de trabalhar usando o nome antigo. Um ano depois, ele se matou em sua casa, em Los Angeles.

Godsey perdeu muita aula durante o colégio por causa de bullying. Por mais que tentasse, não existe um botão de ligar e desligar. Durante o colégio, ele assumiu que era lésbica, porque não? Godsey só aprendeu a palavra transgênero quando assistiu a uma palestra de Erica Rand, uma professora de estudos de gênero na Universidade Bates, em Lewinston, Maine. Um tempo depois, em outra aula, Godsey assistiu uma pesquisa administrada por psiquiatras para julgar identidade de gênero. “Na minha cabeça eu estava marcando todas as respostas”, ele se lembra. “Era tipo…é isso!”.

Ele então virou um rato de biblioteca. Quanto mais ele lia autores transgêneros, mais inevitável a verdade se tornou. “Se assumir pra mim mesmo foi na verdade mais difícil que para todo o resto”, ele admite. “Eu era muito transfóbico internamente”. Ele pausa. “Essa é a primeira vez que estou disposto a falar sobre isso”.

Keelin Godsey / Foto: Bates University

Na primavera de 2005, brevemente após aniquilar o recorde de lançamento do martelo feminino na Divisão III (ao lançar 59,54m), Godsey abraçou o maior desafio até então. Após se confidenciar com a professora Rand, o então aluno de segundo ano mandou um email ao presidente do DCE e ao diretor atlético em Bates para notificá-los de uma mudança iminente: a partir do semestre seguinte, Kelly seria permanentemente Keelin e preferia ser referida como “ele”.

Godsey ainda não consegue lembrar o que ele disse ao subir na arquibancada para informar a todas suas colegas de atletismo sobre a nova identidade. “Você já viu o filme Dias Incríveis, quando o Will Ferrel naquela cena do debate não sabe como mas aniquila geral com o discurso?”, Godsey pergunta. “Foi uma experiência de dar nos nervos. Meio que apaguei”. Tudo que ele sabe é que as mais ou menos 30 meninas que estavam por lá foram tipo “muito foda” quando elas ouviram a notícia.

Mas o quanto a NCAA estava preocupada? Tirando o nome e a escolha do pronome, nada mudou a respeito dum atleta que estava se formando sendo um dos melhores da América por 16 vezes — no lançamento de martelo, disco e arremesso de peso.

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No primeiro mês de gestação todo mundo é feminino. Depois de seis semanas embriões com um específico gênero masculino, quase sempre encontrado no cromossomo Y, desenvolvem testículos, ativando as células responsáveis pela produção de testosterona e a inerente disparidade atlética entre homens e mulheres. Testosterona, que aparece durante a puberdade masculina, é o motor que permite uma série de vantagens competitivas ao homem: maior altura e peso, maior densidade óssea, aumento de massa muscular e maior proporção de oxigênio carregando células vermelhas pro sangue. Na comparação com os efeitos do estrogênio (gordura acumulada na extensão dos quadris), é algo forte o bastante para segregar atletas pelo sexo. Mas a existência de atletas abertamente transgêneros complica a questão de quem pertence aonde.

Em 2004 o Comitê Olímpico Internacional (COI) redigiu uma primeira resposta, estipulando que qualquer atleta trans que queira competir contra aqueles que não são do seu sexo de nascimento deve realizar cirurgia de realinhamento de sexo e então dois anos de terapia hormonal — seja suplemento de testosterona (para ir do feminino para o masculino) ou a supressão de testosterona (para ir de masculino para feminino). Mas em agosto de 2012, a NCAA, que tinha previamente adiado o estudo da documentação emitida pelo governo sobre classificação de gênero, lançou um livro de 38 páginas com uma posição diferente. Guiado por um grupo de consultores mantido pelo Centro Nacional para Direito das Lésbicas (NCLR), em 2009, a organização decidiu contra a cirurgia obrigatória, que tipicamente custa na casa dos cinco dígitos e não é coberta por seguro. Genitália, concluiu a NCAA, não impacta na performance atlética.

Em outra ruptura com as regras do COI, as orientações da NCAA estipulam que trans femininas precisam realizar apenas um ano de supressão de testosterona antes de competir contra mulheres; trans masculinos estão isentos de tomar testosterona sob a supervisão de um médico, mas não podem mais competir em uma equipe feminina.

Seguindo a liderança da NCAA, várias universidades criaram suas próprias políticas de inclusão transgênera. A Universidade Bates, onde estudava Godsey, foi uma das primeiras, em 2011. Escolas de conferências mais importantes, como Berkeley ou Syracuse, fizeram o mesmo. “Os dados estão dizendo que se você ainda não lidou com essa situação, existem boas chances que irá brevemente”, diz Ryan Cobb, um Diretor Atlético assistente em Berkeley. Complementa Helen Carroll, diretora de projetos esportivos da NCLR e uma ex-treinadora de basquete na UNC Asheville. “Com o resultado de Kye Allums vindo a público, vários diretores atléticos olharam em volta e pensaram, ‘O que eu teria feito se isso acontecesse com um time na minha escola?’ E eles não tinham a menor ideia”.

Na questão dos banheiros, vestiários e chuveiros, as orientações da NCAA recomendam que atletas possam usar qualquer espaço que se encaixem na sua identidade de gênero (e antes de jogos fora de casa, representantes da escola consultam o atleta e confidencialmente notificam a escola mandante que garanta “acesso a um espaço seguro e confortável”). Allums, depois de assumir-se, continuou usando o mesmo vestiário das colegas de time, “Era tipo, eu fiquei aqui três anos, porque eu deveria sair agora”?, ele diz. Em Bates, Godsey ganhou o seu próprio vestiário improvisado — uma espécie de cela com uma porta. “A escola achou que seria melhor e menos confuso se eu tivesse o meu próprio espaço”, ele diz. “Era um saco? Sim, com certeza. Eu não gostava. Não estava me divertindo com minhas colegas de time”.

E mesmo com todo o desconforto e reação negativa — de serem referidos como mulheres nas caixas de som, ou serem chamados de travesti ou traveco nos eventos fora de casa — nem Godsey ou Allums fazem parte do quase intocável assunto nos debates de igualdade de gênero em equipes esportivas. Segundo Karen Morrison da NCAA, “ainda não tivemos alguém nascido homem identificado como mulher querendo participar de uma equipe feminina”.

Não existe nenhum dado médico publicado que estipule precisamente quanto tempo é preciso para não haver vantagens atléticas de uma vida inteira exposta ao testosterona. Mas um atleta tem atacado a questão de um jeito bem pessoal. A cientista médica Joanna Harper, 55, que nasceu homem, iniciou terapia hormonal para fazer a transição em agosto de 2004. Harper competiu como homem em corridas de longa distância por anos, e ela cuidadosamente documentou o impacto que teve a supressão de testosterona e aumento de estrogênio no seu rendimento. “Achei que ficaria mais lenta gradativamente”, diz Harper. Em vez disso, ela começou a perder velocidade e força em três semanas. “Eu me sentia do mesmo jeito enquanto corria”, ela diz. “Apenas não conseguia ser mais rápida”. Harper venceu em St. Louis o campeonato nacional feminino de cross-country na categoria entre 55 e 59 anos, mas ela era apenas sombra da antiga forma atlética. Como homem em 2003, Harper correu uma maratona em Portland em 1h e 23 minutos; em 2005, como mulher, ela terminou a mesma corrida em 1h e 34 minutos, uma diferença de quase 35 segundos por cada quilômetro.

Equiparando uma performance padrão em categorias de idade e gênero, no entanto, Harper como mulher é uma corredora quase tão boa como era quando homem — e levou menos de um ano de terapia hormonal para isso. Dados coletados de outra meia dúzia de corredoras masculino-para-feminino contam a mesma história. “Não responde definitivamente a questão se eu tenho ou não uma vantagem”, ela diz. “Mas certamente é uma forte evidência que minhas performances nos dois gêneros são praticamente as mesmas”.

Lindsey Walker e a amiga Alexi Faro

Mesmo assim, nenhuma injeção pode desfazer certas características físicas. Lindsey Walker, uma trans feminina de 2,13m, era conhecida como Drew quando jogava basquete em Michigan entre 2004 e 2007. Walker não assumiu-se publicamente até o fim da universidade, mas o sofrimento foi o mesmo. “Não esperava perder todos os meus amigos”, ela diz, com uma tatuagem nas costas com as inicias de vários ex-colegas de time. “Teve época que pensei em suicídio”. Mas e se ela tivesse feito a transição durante a faculdade e se tornasse a pivô titular da equipe feminina? E se Walker, após cinco anos de tratamento hormonal e pronta para a cirurgia, decidir tentar uma vaga no time para a Olimpíada de 2016 — algo que ela diz estar “definitivamente considerando”? A altura dela, algo quase impossível no basquete feminino, testaria o delicado balanço entre inclusão e igualdade competitiva.

Esse é um caso radical, mas de modo que a sociedade torna-se mais tolerante com atletas transgêneros, é possível que outros se assumam numa idade menos avançada. A NCLR tem trabalhado com uma jovem jogadora de futebol, abertamente transgênera, e com sua família. Jazz, 11, nasceu menino e foi diagnosticada com transtorno de identidade de gênero aos três anos — o sobrenome e o estado foram sonegados na matéria a pedido dos pais. Aos cinco anos, após uma melhor avaliação, ela começou a viver como menina. “Era fundamental aprender tudo o que pudemos”, diz o pai, Greg. “Jazz ficou radiante assim que a transição foi autorizada e jamais vacilou nestes seis anos. Ela é uma criança feliz, bem ajustada, que adora a vida e abraça a sua individualidade”.

Especialmente agora. Em dezembro, após mais de dois anos banida de competir pelo time de meninas — e vários processos da família e da NCLR — a Federação Americana de Futebol (USFF) forçou a associação do estado de Jazz que ela tenha permissão de jogar. A USFF desde então tem feito uma força tarefa para criar ela mesma uma política de inclusão. “Futebol”, diz Jazz, “é algo que espero jogar pelo resto da minha vida”.

Foto: USA TF

O dia da seletiva para a Olimpíada está circulado no calendário de Godsey por meses. Dia 21 de junho em Eugene, Oregon, é quando ele ajusta o alarme para as 4 da manhã, treinando um pouquinho antes de ir para o trabalho; pois ele trabalha em tempo integral como fisioterapeuta num posto de saúde em Pittsfield e como treinador voluntário de atletismo na Universidade Williams; e ele continua aguentando uma dor crônica no joelho direito. “Não me importo se tiver de ser carregado até o círculo para lançar”, ele diz. “Sacrifiquei muito pra chegar até aqui”.

Mas há um segundo sonho sombreando a distância — e as Olimpíadas é a única coisa que está no caminho. Este ano, assim que Godsey estiver fora da disputa, ele começará medicamente a transição, e sua carreira estará acabada como atleta de elite. “Por quanto tento eu poderia adiar tomando testosterona? Eu sou humano”, ele diz. “Sou humano”.

E quando ele diz isso, sua voz o trai no que ele quer dizer exatamente. Anos em salas de musculação esculpiram tríceps e dorso — ele agora levanta 124,5 kg no arremesso e 79kg no arranco — mas apenas testosterona pode mudar o que Godsey chama “a mais embaraçosa das coisas a meu respeito”. “Minha voz me trai todo o tempo”, ele diz. Dependendo da situação, Godsey segura a dor pra se manter quieto ou “meio que faço uns grunhidos um pouco”. Sua noiva Melanie completa que nos restaurantes os garçons logo de cara “nos chamam de senhor e senhora, até Keelin começar a dizer alguma coisa”. Eles ficam meio perturbados e saem de fininho.

Colega de trabalho de Godsey na clínica, os dois se conheceram na escola de fisioterapia em Northeastern. Ela não é transgênera mas já esteve num relacionamento com um trans homem e sabia o que esperar antes de começarem a namorar cinco anos atrás. “Algumas das pessoas com quem saí eu tive de conversar respeito, e tudo bem”, diz Godsey, enquanto senta ao lado oposto de Melanie na sala de jantar. “Pra nós nunca foi algo que tive de me explicar. Tive muita sorte”.

Agora, independente se Godsey chegar as Olimpíadas ou não, uma nova vida o espera. Ele não resiste e admite que o círculo de lançamento sempre foi o seu espaço de segurança: um lugar segregado por sexo, sim, mas no qual o sucesso não depende de uma visível manifestação de gênero — a genitália, roupas, voz. “Eu entendo que estou lançando como mulher num evento para mulheres agora”, ele diz, com dificuldades para lançar o martelo de 7,25 kg dos homens. “Mas não estou sendo julgado em parecer masculino ou feminino o bastante. Estou sendo julgado pelas minhas habilidades”. Distância é a única coisa que importa, e assim tem sido desde tribos dos ancestrais Teutônicos lançando o martelo para homenagear o Deus Thor.

E assim, olhando para a extensão desse campo cheio de crateras em Williamstown, Keelin continua o trabalho: encarando o seu projétil favorito, arrastando-o para trás como se fosse um filhotinho de aço, e usando de toda a força pra levantá-lo novamente. “Eu me sinto pronto”, diz. Ele arruma os pés dentro do círculo, cerrando os olhos no cascalho a distância, e o martelo começa a girar. De perto, nessa vívida manhã, os seus dois sonhos parecem perto de se tornar realidade.

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David Epstein é repórter investigativo na Pro-Publica, especializado em ciências e esporte, e autor do livro best seller "A Genética do Esporte — Como a Biologia Determina a Alta Performance Esportiva".

Tradução: Leandro Vignoli

Foto de Capa: Pedro Torres (Sports Illustrated)

NOTAS DO TRADUTOR:

Keelin Godsey acabou a seletiva em quinto e não disputou as Olimpíadas de Londres. Ele ficou 27 cm abaixo da marca da terceira colocada. Hoje trabalha no departamento atlético da Bates University.

A adolescente com a identidade preservada na matéria é Jazz Jennings, eleita em 2014 pela revista Times uma das adolescentes mais influentes do ano. Autora do livro "I Am Jazz", ela recentemente foi estrela de um comercial da Clear & Clear.

Lindsay Walker não faz parte da seleção americana feminina de basquete e a chance de disputar a Olimpíada do Rio é nenhuma.

Em julho de 2015, o competidor de duatlo Chris Mosier foi o primeiro atleta transgênero a entrar para uma seleção americana na história, embora essa não seja uma modalidade Olímpica.

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