Como organizar um Django Girls


Eu decidi que queria fazer o Django Girls numa viagem de ônibus quando vi as fotos dos outros eventos ao redor do mundo. Na verdade eu não tinha decidido. Eu até queria, mas a decisão veio quando percebi que não tinha saída. Um amigo meu me colocou num chat com umas vinte meninas programadoras e alguma delas já pareciam animadas com o evento. Estava nervosa, com medo delas me massacrarem quando descobrissem que eu não era programadora. E aí eu não podia falhar, todo mundo sabia que eu estava responsável por aquilo.

E aquilo era bem grande. Quando mandei email para as meninas da Polônia para realizar o workshop aqui soube que seria não só o primeiro do Brasil, mas também o primeiro da América Latina. Eu já tinha ganho um título, um email e um site pronto que tinha que mexer (e que era em Django e nem sabia).

Eu achei que, apesar da relevância, esse evento não seria grande. Iam umas pessoas, íamos implorar para outras irem e aí conseguiríamos uma sala meio cheia. Eventos de programação para meninas eram underground.

Abrimos as inscrições sem muita divulgação. Amigos falaram com amigos. E nisso apareceram SETENTA inscrições. Estávamos pensando em fazer pôster e divulgação e um segundo depois estava implorando que não aparecesse mais gente para evitar a dor de cortar participantes (com a reconfirmação de participação o número caiu para 40 pessoas).

Eu subestimei que as pessoas tinham interesse. Principalmente, que as meninas teriam interesse. Tive só uma ideia disso quando falei para minhas amigas do evento e elas se inscreveram segundos depois. Não parecia pena, parecia interesse mesmo daquelas pessoas que eu conhecia tanto e que não sabia que tinham interesse em programação.

E aí comecei a me dedicar muito. Na minha cabeça eu pensei “muita gente e pouca organização era sinal de caos”, e para mim era isso que ia acabar acontecendo. Era arranjar lugar, patrocinador, treinador, day-off do trabalho, horário para fazer hangout. Todo mundo que eu conversava sobre o evento achava fascinante. Todo mundo apoiava desde que não fosse com dinheiro (que no final conseguimos bem pouco).

Eu tinha então na mão alguns reais, maravilhosas organizadoras, adesivos de pônei e treinadores que eu não conseguia acreditar que estavam se esforçando tanto para ajudar. Parecia o suficiente mas todos os medos passaram na minha cabeça como:
Faltar comida
Sobrar comida
Comida estar ruim
Chover
Faltar luz
Assalto
Não ter wifi
Ninguém ir
Muita gente ir

Mas valia a pena. Eu me repetia diversas vezes que o que eu estava fazendo era muito importante, apesar de eu não acreditar nisso. Que eu estava tentando ser não só uma feminista de textão do Facebook (sem ofensa, precisamos das feministas de textão também) e realizando algo que ia mudar minha vida.

E mudou. E tiveram diversos motivos:

  • Quando o pai disse que ia levar a filha de 12 anos (acho?) para o evento e ela foi mesmo
  • Quando uma participante me contou que participou de entrevistas de estágio que o entrevistador disse que a vaga era só para homem ou quando duvidam que ela sabe programar
  • Quando eu vi uma sala que tinham meninas dando pulinhos toda vez que aparecia um It worked na tela
  • Quando amaram meu bolo de milho e sanduíches de wasabi e comeram tudo
  • Quando eu queria chorar quando acabou e eu vi que nada daquilo que pensei de ruim aconteceu

Foi incrível para mim. Acredito que foi também incrível para outras pessoas. Valeu a pena. A demanda é gigante, muita gente quer participar de eventos assim, então devia ter mais gente fazendo.

Espero fazer outros Django Girls? Com certeza e quero que outras pessoas façam também. Faço um, e se reclamar faço dois, porque quero é que, no futuro, eu não precise de um evento com Girls no título para conseguir fazer as meninas participarem.