Snowden, Girls e Humans of Austin

Quarto dia de Interactive SXSW


Austin está ficando cada dia mais bonita. Primeiro porque a temperatura está em agradáveis 20C (acho, porque aqui eles sempre falam em fahrenheit). Segundo porque as pessoas de música estão chegando e elas são bonitas, descoladas e esquisitas (bem melhores que os CEO do Vale do Silício do Interactive).

Perdi muita coisa (eterno sentimento de que a palestra do outro é mais verde), mas o que vi está aqui no post:

Feminism 2.0: Technology & Women’s Empowerment
Painel com Carla Franklin (Digital Program Mgr & Strategy Consultant — Carlin Solutions), Kelly Wallace (Digital Correspondent & Editor-at-Large, Family, Career, Life — CNN), Maggie Neilson (CEO — Global Philanthropy Group), Tara Hughes (Sr Dir of Prod Mgmt — Turner Broadcating)

O painel juntou mulheres que possuem cargos importantes onde trabalham para falar sobre as dificuldades que passaram e como é a situação no mercado (especialmente no americano, mas que não é muito diferente do Brasil).

Através a palestra conheci a campanha Ban Bossy. A ideia é banir o uso da palavra “mandona” para meninas que tem essa personalidade. A questão é que isso afeta ao auto-estima delas e isso incentiva submissão. Tem muita ligação com o painel que falou muita do número muito pequeno de mulheres em cargos altos.

Minha filha mais nova estava vendo a lista de presidentes para o colégio e me perguntou: Mãe, não tem nenhuma mulher? Kelly Wallace

O Ban Bossy foi citado outras vezes durante o SXSW, está sendo bem divulgado pela Sheryl Sandberg.

Lena Dunham Keynote

A palestra da Dunham aconteceu ao mesmo tempo que a comentadíssima aparição do Edward Snowden, ainda sim o keynote para vê-la tinha uma fila imensa (claro que a sala para o Snowden era bem maior).

Lena Dunham chegou um textinho pronto que ela parecia não estar seguindo. Ela contou como tentou começar no próprio SXSW mandando seu vídeo (que não foi aceito) e a relação dela com o festival.

Não espere que outra pessoa conte sua história. Faça você mesmo.

Ao falar sobre as possibilidades das pessoas contarem sua história ela focou em como atualmente são acessíveis as tecnologias e as pessoas conseguem divulgar seus trabalhos no Youtube, Vine. Ainda, quando você conta sua história as pessoas se conectam com isso e “o mundo fica menor”.

Acho que tudo isso que ela falou explica muito do trabalho da Lena Dunham na série Girls.

A Virtual Conversation with Edward Snowden
Conversation with Ben Wizner (Dir Speech, Privacy & Tech Project — ACLU) e Christopher Soghoian (ACLU)

Fiquei cerca de meia hora na palestra da Lena Dunham para conseguir ver a aparição de Edward Snowden. Tinha uma sala principal que passou o vídeo e onde estavam os mediadores da conversa. Outras quatro salas estavam transmitindo o vídeo da conversa. A sala principal com mais de mil lugares estava já lotada e entrei em outra, com cerca de 500 lugares que também estava praticamente lotada. Foi definitivamente o momento mais concorrido do Interactive.

A plaestra foi inclusive ameaçada por congressistas americanos, mas sinceramente soube disso pela internet, por lá não ouvi ninguém comentando a possibilidade da conversa não acontecer.

Snowden estava conectado via Google Hangouts, mas com uma forte segurança por trás, o que fez o vídeo dele ter diversos lags o tempo todo.

A conversa obviamente focou no tema segurança de dados. Primeiro ele criticou como é feita (ou melhor, como não é feita) a encriptação das informações pelas grandes empresas. E que sim, o vazamento dos dados feito por ele ajudou a tornar a internet mais segura.

Snowden recebeu perguntas do público e a primeira veio de Tim Berners-Lee, criador da world wide web, que agradeceu as ações do ex-agente e disse que “suas ações foram de interesse público”.

Diversas outras perguntas do público eram sobre como um cidadão comum pode se proteger (uma tendência que vi muito em outras palestras e na feira de negócios da SXSW). Ele comentou que uma encriptação de dados já dificulta (e encarece muito) a NSA fazer uma vigilância em massa, apesar de não impedir que eles entrem no seu computador se realmente precisarem.

Os passos básicos que Snowden exemplificou como necessários para aumentar a segurança pessoal como usar o browser Tor, foram criticadas pelo moderador da conversa. “Se a recomendação que temos que dar é “use Tor” isso quer dizer que falhamos”, disse Soghoian. E o que parece é que há sim uma preocupação em criar ferramentas mais acessíveis de segurança de dados online.

O mundo se beneficiou. O governo se beneficiou. Toda a sociedade se beneficiou. Eu fiz um juramento para apoiar e defender a Constituição americana, e eu a vi sendo violada em uma escala massiva. E, apesar do que está acontecendo comigo, não me arrependo porque todos tinham o direito de saber o que estava acontecendo. Snowden

Snowden disse também que seu maior medo era divulgar o caso da NSA e ninguém dar a devida atenção para isso ou simplesmente não ligarem de ter seus dados vigiados pelo governo. Ele queria mostrar a situação e esperava alguma reação, o que realmente aconteceu e por isso, ele diz, valeu a pena.

Creepy to Cool: Fine Lines in Audience Analytics
Solo with Graeme Noseworthy (Strategic Messaging Dir, Big Data for Mktg, Media & Ent — IBM)

Muita gente que me deu dicas do SXSW disse para buscar os Solos e os Dual porque, segundo elas, a conversa flui melhor. Nem sempre é assim, mas esse curto solo de 15 minutos feito por Noseworthy merece atenção.

Ele explicou que os dados são coletados sem motivo: 65% das empresas não usam os dados que coletam para obter nada vantajoso. O que é inutil já que “stalkear” o seu consumidor pode ser útil para entender o indíviduo ao invés de um segmento ou, como ele disse, “deixar de falar num megafone para falar num headfone”.

Os slides da palestra dele estão aqui e eu realmente acho que quem tem interesse no tema vai gostar de ler.

Can You Feel Me Now?
Panel with Cameron Clayton (Pres, Digital Division — The Weather Channel), Gary Klassen (Principal Architect- BlackBerry), Giorgos Zacharia (Chief Scientist — Kayak) and Tara O’Donnell (VP — Text100)

Os panelistas foram muitos focados em design dos apps mobiles, mas sempre indo para o lado da usablidade, o que foi interessante. O que foi muito citado é que, no geral, muito do que eles fizeram foi no erro ou acerto. Como o Clayton que contou a história do problema que teve quando o app do Wheater.com atualizou para um layout mais claro e, como as pessoas viam o app assim que acordavam, ainda num quarto escuro, a luz mais clara irritou bastante.

Hoje eles dizem que há mais pesquisas na área. Klassen diz que na Blackberry são feito estudos com os usuários mais extremos nas situações mais extremas e, como isso, eles conseguem perceber possíveis problemas no usuário comum.

Do Algorithms Dream of Viral Content?
Conversation with David Carr (Columnist/Reporter — The New York Times) and Eli Pariser (CEO — Upworthy)

Não conhecia o gigante Upworthy (shame on me), um site gigante que reúne qual conteúdo está viralizando na internet, mas ainda sim a palestra me chamou a atenção para fechar meu dia no Interactive.

Apesar de falar de algoritmos, umas das primeiras coisas que foi falada foi a limitação dele: “Pense no algoritmo como estar num filme atrás da tela e por isso só ver a reação do público”. Por isso, para avaliar o desempenho do seu enorme site, Pariser diz que leva em conta três pontos: atenção, satisfação e qualidade. Apesar de atenção e satisfação estarem ligadas a reações, qualidade está ligada ao conteúdo e, por isso, promove o equilíbio.

Tente achar pedaços de bons conteúdos para emergirem no meio de tanta coisa
Pariser

Eles ainda continuam discutindo como poderia ser feito um controle editorial automatizado e que, de fato, equilibre os três pontos importantes para avaliação. David Carr então provoca o CEO perguntando se então os grandes jornais americanos possuem um problema de marketing. Ele diz que sim e que os conteúdos devem pensar em como serão apresentados e criar espaços que influenciem o compartilhamento e a discussão.

‘Humans of New York’ Creator Brandon Stanton on Yahoo Tech Mix
Brandon Stanton (Photographer and Creator of Humans of New York) and David Pogue

Na sala do Yahoo (um dos mais agradáveis locais do festival), David Pogue recebeu diariamente um entrevistado diferente. Perdi todos os outros (eu perdi muita coisa) mas consegui ver pelo menos a do fotógrafo da melhor página ever do Facebook.

Stanton comentou como acontece sua abordagem nas pessoas (pede educadamente para tirar uma foto da pessoa com um voz de menina) e como consegue tirar declarações das pessoas (faz perguntas extremamente abrangentes que não fazem muito sentido).

Ver como o trabalho dele na verdade é simples (ele usa a câmera no automático, anota as frases das pessoas mandando sms para si mesmo) só prova como o trabalho do Humans of NY ganha mesmo na boa ideia.

Eu não era tão bom assim, mas a ideia era. E ter uma boa ideia é especial.
Stanton