Eu, que sequer sou feminista, ao menos fui amada

Eu sabia que todas as minhas amigas sentiam pena de mim e pensavam que eu era uma pobre coitada. Estavam elas ali na minha sala de estar, sentadas no meu sofá, rindo, bebendo cerveja, fingindo que aquele era apenas um dia normal. Logo que chegaram, me deram abraços demorados, olharam profundamente em meus olhos, reafirmaram seus votos de lealdade e amor, juraram que não iam me deixar sozinha. “Acontece com todo mundo, namoros acabam e é foda pra caralho de superar. Nos próximos meses, não tem muito o que fazer, sabe? Só esperar o tempo passar, e a memória dele ficar cada vez mais fraca em você… E também, não procurar contato mais”, disse uma delas, em tom professoral. Seus olhos estavam inundados por compaixão.

Eu me resignei ao silêncio. Não me importavam as outras pessoas, nada importava além dele, e do fato de que tinha sido especial, único, um encontro improvável como a queda de um cometa. Não acontecia com tanta gente da forma como aconteceu comigo — não, eu sabia que ele me amava a seu jeito. Se eu acreditasse no contrário, eu de fato seria digna de pena.

Elas, no entanto, falavam sem saber. Ele sempre me dizia que tinham inveja de mim, eram insatisfeitas com suas próprias vidas e seus relacionamentos. Carregavam o próprio feminismo junto ao peito como se fosse um broche de ouro, quando isso na verdade só as fazia mais solitárias. E o sexo então? Duvidava que todas elas juntas fizessem metade do sexo que fazíamos. Que qualquer homem que encontrassem tivesse metade da profundidade que ele tinha. Na verdade, ele era incompreendido. Mas ele não se importava, só não queria ser obrigado a dividir espaços com a presença delas, com as intrigas. Eu achava justo. Meu namorado não era obrigado a gostar das minhas amigas, e eu poderia separar as duas coisas.

Eu me posicionava sempre ao seu lado, no universo doméstico perfeito que eu sempre almejei para mim — eu a esposa e mãe que minha própria mãe nunca fora e ele… Bem, no fundo eu sabia que ele tinha suas limitações e era brusco, mas ele estava sempre ali. Como marido e pai que o meu pai nunca fora. Eu não precisava de terapia para me dizer isso, ou para consertar o que havia sido quebrado já havia tantos anos. Meus anos de infância e adolescência ficaram para trás, tudo o que acontecera antes dele não importava. Tínhamos um ao outro, ainda que ele não quisesse dizer que me ama, ele me dizia a seu próprio modo. Ele odiava todas as outras mulheres, e eu era a única mulher que ele queria ao seu lado. Não era suficiente? Eu acreditava que estava genuinamente apaixonado por mim, embora ele nunca dissesse. Afinal de contas, amar a minha modéstia era amar uma parte constituinte de mim — talvez uma das mais importantes.

Nosso mundo era mais objetivo e claro, menos insidioso. Seu mundo masculino. Eu quase pertencia: não era como as outras mulheres modernas, ele dizia em tom elogioso, afirmando que se agarraria a mim para sempre. Mal acreditava que havia me encontrado, em meio ao ambiente contagioso e tóxico que era a universidade, com seus esquerdismos, seus feminismos. De fato, nunca havia me sentido à vontade com as regras do mundo jovem. Sentia-me sempre inibida pelo meu desejo — mais do que isso, minha ânsia — em constituir uma família. Não as julgava por quererem coisas distintas, mas aquele universo confuso, bêbado e inconstante me apavorava. A instabilidade dos sentimentos: tantas mulheres de terra fingindo ser água. Esforçavam-se para viver uma suposta, porque imposta, liberdade sexual mais do que mulheres tradicionais buscando um companheiro. Estavam atendendo às expectativas masculinas do ambiente no qual viviam tanto quanto eu, que sempre quis casar.

Não tolerei ser julgada.

Finalmente, eu havia encontrado meu homem. Às vezes me maltratava, mas no final do dia tínhamos um ao outro. Eu nunca tivera alguém de maneira tão plena, eu não dormia mais sozinha. E agora, que ele havia me deixado, tinha que acreditar que era a oportunidade perfeita para me empoderar? O que diabos significava isso? Morrer sozinha? Transar com milhões de desconhecidos? Que pavor. Eu retribuía o olhar de pena de minhas amigas. Mal sabiam elas de sua própria infelicidade.

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