Nilza do Troca Livros: a professora que popularizou o consumo da leitura

Matheus Vilas
Nov 8 · 6 min read

Das inúmeras lembranças da minha infância no bairro da Liberdade, sempre escutei falarem do Troca Livros de Nilza, seja como um ponto de referência para pessoas que queriam chegar na região, ou pelas histórias contadas por minhas tias sobre a dona de um espaço do qual eu não fazia ideia de quem era e nem como funcionava. Dentro da minha coleção de histórias em quadrinhos achei, porventura, uma revistinha que contava uma breve a trajetória dessa mulher, e como qualquer criança cheia de dúvidas e incertezas, me espantei com o fato de uma moradora do meu bairro ter um gibi que abordasse sua vida. Afinal, o que ela tinha de tão especial para ocupar páginas semelhantes às da Mônica e do Cebolinha? Alguns anos mais tarde, acabei descobrindo que aquela revistinha estava associada a uma campanha política municipal, entretanto, isso não me fez perder o interesse em conhecer mais sobre uma moradora tão falada no bairro mais negro da cidade de Salvador.

Na primeira ligação, já consegui marcar uma entrevista. Segunda à tarde no próprio Troca Livros. Cheguei três singelos minutos atrasado, e ela já estava lá, sentada na área externa do ambiente que se assemelhava a um misto de papelaria, livraria e biblioteca. Fui recepcionado pela filha dela, com quem marquei a entrevista. Professora Nilza, como é popularmente conhecida, arrastou uma cadeira e eu sentei em frente a ela. Ao me apresentar, ficou nítido minha memória afetiva sobre a história dela. Ela e minha avó materna eram amigas muito próximas algumas décadas atrás. Conforme Nilza contava as aventuras das duas, algumas lembranças familiares ficavam mais evidentes na minha cabeça. Porém, o foco da entrevista não era esse, queria saber detalhes sobre sua fama no bairro e o espaço do qual a gente, e algumas crianças presentes, ocupávamos.

Professora Nilza Barbosa dos Santos, 68 anos, em seu Troca Livros. Foto: Matheus Vilas

“Eu estava no ginásio e dava aula para os meninos do fundamental, era conhecida como professora leiga. ”

Nilza nasceu em Candeias, no ano de 1951 e morava numa casa muito simples junto com os pais e seus vinte irmãos, segundo ela naquela época essa quantidade de filhos não era uma surpresa. Tive um pouco de receio ao perguntar sobre a conhecida história do botijão de gás, mas ela fez questão de ressaltar ao falar sobre sua infância. Quando tinha cinco anos, por um descuido da mãe, o botijão da casa estourou ao seu lado, deixando setenta e cinco por cento da sua pele queimada. Saindo do hospital, a pequena Nilza veio a descobrir na prática o significado de preconceito. Por conta sua aparência, foi excluída dentro do ambiente escolar, tanto por alunos, quanto por professores. Monstro e carvão eram as ofensas que mais escutava. No entanto, as lições maternas não a fizeram desistir. Nilza me conta que sua mãe foi a grande influenciadora do ativismo que hoje ela prega, ao lhe ensinar a importância de lutar pelos seus direitos. Alguns anos mais tarde, trabalhou como empregada doméstica aqui na capital. Saía todo dia de Candeias em direção à Salvador para ganhar míseros cruzeiros.

“Eu via os filhos dos patrões estudando no Central, o colégio era cheio de laboratórios, parecia uma universidade, era fantástico. E eu me perguntava, por quê eles podem e eu não posso?”, contou Nilza gargalhando, pausadamente.

Declarando-se ousada, ela se matriculou no renomado colégio do bairro de Nazaré. Nessa época, a vocação pela docência já apresentava seus primeiros sintomas. Sempre considerada uma ótima aluna, Nilza dava aulas de reforço para os alunos de séries inferiores à dela, ficando conhecida como professora leiga –termo antigo para se referir a quem lecionava sem ter formação na área.

Fachada do Troca Livros no bairro da Liberdade, em Salvador. Foto: Matheus Vilas

Com 21 anos, e já com um filho, ela se muda para Salvador e vai morar no bairro Guarani, adjacências da Liberdade. Se torna professora de Literatura e começa a oferecer reforço escolar, ou banca no ditado baianês, para os filhos das amigas. Suas aulas de reforço se consolidam pelo bairro e, em questão de tempo, pela cidade toda.

“A fama da banca foi de boca em boca, as pessoas iam divulgando. Se tornou renomadíssimo. Se a escola fosse R$100, o reforço era R$200. Qualquer menino de 0 em matemática, eu botava em 10. Vinham alunos de Stella Maris pra cá com motorista e tudo.”

A partir das aulas de reforço, Nilza foi percebendo que alguns alunos não tinham os livros necessários para suas respectivas séries, e, ao mesmo tempo, ela possuía uma sobra de livros usados dos seus filhos, resolveu fazer uma troca entre eles. Foi a gênese de uma prática que virou febre em todo o país, principalmente para os pais de estudantes no início do ano letivo e que evidentemente visavam uma economia. Do reforço escolar, Nilza expandiu para dentro das escolas, até abrir um espaço próprio próximo ao Largo da Lapinha, no bairro da Liberdade. O espaço, fundado em 1992, funciona até hoje com a mesma política: você leva um livro, escolhe outro e pega uma taxa simbólica para a manutenção do espaço. O ambiente tem dois andares, embaixo encontra-se o balcão de atendimento e uma área para o reforço escolar que é mantido até hoje. Em cima funciona uma biblioteca comunitária com um acervo de mais de 50 mil livros, que segundo Nilza, foram todos doados. A biblioteca não tem, e nem requer um cadastro dos seus visitantes e, para a professora, é isso que explica o sucesso dela. Me senti na obrigação de conhecer aquele andar. Um labirinto literário muito bem organizado. Infelizmente, minha ritinte não me permitiu ficar por muito tempo.

“A biblioteca dos Barris só vai quem já lê. Aqui não, ele não precisa dar o nome, o endereço e nem dizer quando e se vai devolver o livro. Isso é a fórmula do sucesso. Você precisa encantar a família com a escola. Falta o encantamento. Você constrói escola, creche, num sei o quê, mas falta o encantamento.”

Parte superior do Troca Livros que funciona a biblioteca comunitária. Foto: Matheus Vilas
Piso inferior do troca livros, com o reforço escolar. Foto: Matheus Vilas

Nilza me conta que sua popularidade na cidade fez com que os políticos começassem a procura-la. Mas ela faz questão de enfatizar que odeia político, mas é apaixonada por política. Alguns nomes conhecidos pelos soteropolitanos foram citados, mas isso não vem ao caso. Seu interesse por política já lhe renderam algumas candidaturas não ganhas para cargos municipais.

Nilza ao lado de Rui Costa e Jacques Wagner na inauguração da sede do Neojiba na Liberdade. Foto: Reprodução.

Nessa altura da conversa, chegou um rapaz que aparentava ter cerca de 35 à 40 anos. “Professora Nilza, como vai a educação?”, ele pergunta pausadamente. “Oi, meu filho, vai melhorar.” Foi o gancho suficiente para eu questionar sua visão diante do cenário político atual. Nilza vê a necessidade do Brasil ter um grande estadista nacional, salienta que a educação precisa ser priorizada e quando perguntada sobre o presidente, responde com uma gargalhada “tá se achando”.

Do Troca Livros, fomos até a casa dela, que fica a alguns metros dali num prédio de origem espanhola no Largo da Lapinha. No elevador de porta pantográfica, ela me contou alguns de seus feitos pelo bairro. A ex- professora da rede pública que tem Dom Casmurro como livro favorito já elaborou junto com alguns do seus sete filhos uma revista comunitária sobre o bairro em que mora. No apartamento, ela me mostou a única cópia do material que ela ainda tinha. A revista “Acorda Liberdade” aparentava ir muito além do duplo sentido no nome, ela simbolizava um manifesto cultural de um bairro com extrema importância histórica e social para a cidade. Reportagens feitas pelos moradores e sobre os moradores compõem o material que foi financiado e distribuído por Nilza para dez mil pessoas em 2012.

Revista A Cor da Liberdade. Foto: Matheus Vilas

O fim da tarde se aproximava e eu me encontrava saindo da casa de Nilza com algumas lembranças: umas máscaras de carnaval do Lula, o livro “A Escrava Isaura” de Bernado Guimarães e a história de uma professora que acredita na transformação social a partir da leitura.

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