Os processos de cura (ou a falta que o iodo faz a essa geração)

Vilma Balint
Aug 27, 2017 · 5 min read

Tem épocas em que é mais difícil escrever, e isso pode ter a ver com o estado de espírito. A vida pode até estar boa, e tem horas que é por isso que não é preciso escrever. Não há nada para se botar para fora, tudo corre em ordem internamente. Até os motivos se acumularem no peito e se juntarem para formar frases.

Talvez as redes sociais estejam dando mais vazão a muitos desabafos momentâneos — tantos que eles não são capazes de se juntar mais em um formato específico. Isso pode ser bom para o indivíduo vomitador no caso de um mal estar — tais quais os mal estares do estômago. Mas isso pode também não ser tão bom para a assimilação completa de uma ideia ou sintoma. A gente se contenta com o meio desabafo, tem um alívio momentâneo e, talvez, uma meia cura (embora eu só conheça como meia cura o tipo de queijo, e tenha percebido agora que essa analogia ficou bem ridícula e pseudo engraçada. Enfim).

Há épocas em que também buscamos a cura. Às vezes, desesperadamente. Em outros casos, tentando o aparente desapego, daquele que a gente também pena para aplicar nos crushs da vida, para aparentar desinteresse e facilitar as coisas para a “hora certa”. Mas a gente nunca sabe que porra é isso de “hora certa” além da que está no celular — aquele aparelho que a gente pega toda hora pra ver se já chegaram os caralhos das mensagens, e às vezes para ver a hora vigente.

Bom, mas eu falava sobre a cura em um texto que está parecendo que foi escrito pelo menino do Acre. Não, esses escritos não terão criptografia (e antes eu tinha escrito PSICOGRAFIA) e não cabe uma estátua do Giordano Bruno no microquarto de meu pequeno ap de pouco mais de 30 m2.

Esse monte de groselha só me mostra o quanto somos capazes de fugir de processos de cura, por mais paradoxal que o negócio seja. Por mais remédios, terapias holísticas e receitas que existam, a gente fica com medo até de citar a palavra. Imagine então o temor de mexer naquilo o que faz adoecer.

Tenho pensado muito nesse termo ultimamente, talvez por influência dos eclipses, com foco maior nesse eclipse master blaster em Leão da semana passada. E também por ver que a cura que possibilita outros passos também é usada como desculpa para muitas preguiças ou incapacidades momentâneas. Há o apego ao sofrimento, em muitos casos, como desculpa para não seguirmos em frente. Além disso, a incapacidade pode virar arma de empatia. Se eu reclamo sempre da minha vida miserável, eu sou acolhida, eu sou compreendida, legal, as pessoas me amam.

Podem até amar. Mas vai chegar uma hora que elas não vão mais te suportar com a mesma história.

Aí, te resta ou inventar mais causos ou dar jeito nesse monte de citação aos mesmos motivos de sofrimento — tanta citação que pode ser capaz de levar o nome dos motivos citados para o primeiro lugar de buscas no Google.

E, bingo: você não cura sem confronto. Não tem ferida sem marca. O mertiolate hoje pode até não arder, mas já te aplicaram iodo? Arde, olha. Arde demais, parece que você vai pra outra dimensão e volta (oi, menino do Acre). Mas veja só: cura. No dia seguinte, o ferimento é bem menor, e assim sucessivamente até que dele só fique uma pequena marca — se ela restar. E você pode tratar a cicatriz até com um leve orgulho. “Isso aqui é de quando eu me esfolei caindo no chão depois de uma corrida”, “essa aqui é de quando eu passei debaixo de uma cerca de arame farpado e levantei antes, olha que imbecil”, risos.

Por mais que a indústria farmacêutica tenha tirado o ardor do mertiolate, ainda não inventaram processos curativos sem dor do enfrentamento. Por isso, tenho admiração por aquelas pessoas que chegam ao fundo do poço e depois caçam um baldinho para sair dele em pouco tempo — elas sofrem, se matam, não disfarçam que está tudo bem, mas depois estão prontas para seguir.

Toda essa enrolação — ou reflexão, talvez esse termo seja mais interessante para se definir as voltas que os textos e a vida dão — é para dizer que eu também estou lidando com meus processos, não sem alguma lentidão, além de tentar me livrar de outros pesos. Fiquei, por exemplo, uns bons três anos sem nem clicar em alguma música do Marcelo Jeneci. Agora, me digam: o que o sujeito tem a ver com os lapsos/insucessos/cagadas emocionais/*use o termo que mais te apetece* de alguém? Via youtube e spotify, fui ali tentando, como quem molha o pezinho na água gelada de um marzão bonito, mas que você acha que pode te botar num redemoinho, porque isso já aconteceu antes.

Fui hoje em um show dele, de graça, com a Tulipa Ruiz — tudo bem que cheguei atrasada, e isso também deve ter sido obra do inconsciente que nem queria tanto essa cura assim. Mas fato é que ouvi de novo coisas lindas e que devem ter embalado outras histórias que foram felizes em algum momento. E que as músicas não têm culpa de nada. Mas elas ativam sentimentos, e é aí que lida todo o desgraçamento emocional. Acredito que, quando a gente isola o que era bom de uma história, tira o peso de uma série de coisas da vida. E é assim, talvez, que valha a pena seguir. Pensa no que foi bom, aprende com o que não foi tão legal, e vai. Poderia ser mais fácil do que escrever, apenas. Mas aí, não seria um processo de aprendizado constante.

E outra coisa muito importante também deve ser voltar a resgatar seus gostos, e não subordiná-los a uma situação específica. Eu gosto de uma música X. Não é justo deixar de ouvi-la para sempre porque ela te lembra o momento Y. Você sempre gostou de ir a lugar Z. Não é justo com você deixar de ir porque ele te lembra a situação A (não tinha mais letra no fim do alfabeto). Mas esse é outro raciocínio que a gente compreende depois ou durante os processos de cura. Que são desagradáveis, tais quais o ardor do iodo. Mas que só são eficientes se forem assim.

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    Vilma Balint

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    Alguém que tenta um rumo na vida.