Você exerce simpatia ou empatia no seu cotidiano?

Quando eu trabalhei na Secretaria de Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, eu tive a oportunidade de conhecer pessoas de diversos países que também trabalhavam com população em situação de rua. Tive contato com inúmeras histórias de sucesso e fracasso, todas com grandes aprendizados. Uma das histórias que mais me impactou me foi relatada por uma grega.

Havia uma mulher que dormia numa caixa de papelão, ao lado do prédio desta grega. Todo dia, ela deixava um prato de comida para a mulher em situação de rua. Porém, no dia seguinte, lá estava a comida intacta. Dia após dia, incansável, a grega deixava mais um prato de comida, na esperança de que naquele dia a mulher se alimentasse.

Um belo dia, intrigada com a falta de apetite da mulher, a grega resolveu perguntar qual o motivo dela não comer, indagando se ela não estava passando fome. Para a surpresa dela, a mulher respondeu que sim, ela passava fome. Porém, não conseguia comer porque não tinha nenhum dente.

Somente depois do choque em perceber que ela estava contribuindo para aumentar a fome de uma pessoa, ao invés de saná-la, que a grega resolveu perguntar o que a mulher gostaria de comer. A partir deste dia, ela passou a levar sopas e comidas pastosas para a mulher. :)

Este caso me lembra o que ocorreu aqui em São Paulo no inverno de 2016, quando muitas pessoas se mobilizaram para distribuir cobertores depois de algumas pessoas em situação de rua terem morrido de frio. De repente, estava todo mundo doando cobertores e logo depois estava todo mundo revoltado porque os cobertores estavam sendo abandonados pelas ruas.

Quando comecei a ler os post irados, a primeira coisa que me veio à cabeça foi justamente essa história da moça grega. Será que todas as pessoas que estavam recebendo cobertores necessitavam de cobertores? E será que as pessoas que necessitavam de cobertores receberam algum cobertor? E outra, se você precisa carregar todos os seus pertences junto de você, pois não tem onde guardá-los, e você vai receber um novo cobertor no início da noite, você iria carregá-lo durante o dia?

E por que eu tô contando essas histórias agora?

Porque, cada vez mais, eu tenho percebido que as pessoas oferecem ajuda a partir do ponto de vista delas sobre quais são as necessidades do outro. O que um pessoa enxerga de fora da situação não necessariamente é a necessidade primordial do outro. E dificilmente alguém pergunta qual é sua dor antes de oferecer ajuda. E daí fica parecendo que o “necessitado” é ingrato, quando na verdade o que faltou não foi gratidão, foi empatia.

Antes de oferecer ajudar à alguém é fundamental a gente se colocar no lugar daquela pessoa, questioná-la sobre suas reais necessidades.

E nesses 15 anos de experiência no Terceiro Setor, eu percebo que algumas organizações também criam seus projetos sem questionar os “beneficiários”. Realizam um trabalho na comunidade a partir do desejo dos fundadores da organização, que em alguns casos sequer são daquela comunidade.

Então, se você que está lendo este texto quer promover um trabalho social, trabalho voluntário ou até mesmo fundar um negócio social, a primeira coisa que eu te aconselho a fazer é exercitar a empatia. Será que o que você quer oferecer para as pessoas é exatamente o que elas precisam? Você vai estar de fato resolvendo um problema social? Um problema social de qual ponto de vista?

Tem um vídeo muito legal no Youtube que aborda a diferença entre empatia e simpatia. Recomendo!