Mais uma lista de melhores discos de 2015

O fim do ano é aquela época em que as listas abandonam a hibernação e emergem aos montes. Músicas, filmes, livros, shows, séries, atores, comidas, fatos, causos. Tudo é motivo para listas. Listas pequenas, grandes, top 5, os 150 melhores. Sempre me sinto meio merda por não dar conta de não ter ouvido tantos melhores álbuns do ano assim ou não conhecer dois terços da lista da Pitchfork.

Mas, como todo mundo, faço sempre aquela minha listinha mental com as coisas que eu ouvi e guardei mais carinho no ano. Resolvi postar só pra reverenciar essa galera que de alguma forma fez meus dias mais legais ao longo desse 2015. Tentei não pensar muito porque rolou tanta coisa boa que se demorar muito essa lista sai de 5 e não acaba mais.

Ventre — Ventre

pra baixar:
www.ventreventre.com.br

Desde que eu vi os vídeos de Pernas e Carnaval no youtube, fiquei muito interessado e passei a acompanhar a banda. Três músicos muito competentes, fazendo um som pesado baseado em canções bem brasileiras. Lendo algumas entrevistas, eles falam de influências como Jimi Hendrix, Jeff Buckley, Gonzaguinha, Deftones, toe (!!!).

Quando eles lançaram os clipes de Peso do Corpo e Quente, a minha cabeça explodiu. Som pesadão, ótimos riffs, batera lambendo, distorção pra todo lado, coisa linda. Pouco depois esbarrei com o Gabriel Ventura saindo de um estúdio e ele falou que o CD tava pra ser lançado. Aí a ansiedade bateu forte.

E foi muito justificada por um dos melhores registros de “música rock” brasileira nos últimos anos. Boas letras, referências mudernas de som pesado, junto com uma musicalidade brasileira somadas à uma ótima produção e uma execução primorosa dos três músicos. Gabriel Ventura, Hugo Noguchi e Larissa Conforto formam uma das melhores “bandas de rock” brasileiras da atualidade, sem cair em estereótipos ou querer parecer soar com alguma coisa. É muita referência mas com cheirinho de carro novo.

Eles fecharam o ano com um show no Imperator, junto com a El Efecto (outra das melhores bandas brasileiras hoje) que foi um esculacho. Cabia em qualquer palco de qualquer grande evento ou festival aí (chupa Rock in Rio). Vida longa Ventre!

créditos: facebook da banda (fb.com/ventreventre)

gorduratrans — Repertório Infindável de Dolorosas Piadas

pra baixar:
http://bit.ly/1klVDx2
gorduratrans.bandcamp.com

A primeira vez que ouvi a dupla foi no grupo Sinewave do facebook. O cd já estava sendo divulgado, e a galera chorando pitangas de tão bom que era esse shoegaze carioca. A produção lo-fi afasta muita gente que talvez curtiria os sons deles — que são, na verdade, ótimas canções. Mas a postura DIY agressiva desses dois suburbanos cariocas justifica tudo e faz do álbum um registro ainda mais importante.

“Você Não Sabe Quantas Horas Eu Passei Olhando Pra Você” e “Vcnvqnd” já são dois clássicos da música independente carioca. Com boas letras, vocais com ótimas melodias, guitarrada frenética como tem que ser, o gorduratrans aponta prum futuro promissor. O nome do álbum, inspirado em uma letra do quase dinossauro Jair Naves, e as referências à Lupe de Lupe no que tange à produção DIY mostram que eles não tão de brincadeira no rolê.

Instituto — Violar

pra baixar:
www.seloinstituto.com.br/violar

Conhecia o Instituto através do Daniel Ganjaman. Sabia que era um trampo dele com os também produtores Rica Amabis e Tejo Damasceno. E (sim, me julguem) ainda não ouvi o “Coleção Nacional”, primeiro álbum deles.

Mas, se de primeira eu já achei essa capa muito irada, quando você começa a ouvir o álbum, se depara com o groove pesado de “Polugravura”, e entende o que está por vir. Uma explosão criativa e um excesso de levadas, harmonias e melodias, passeando por todo o tipo de gênero que ajuda a constituir a música brasileira contemporânea. É um álbum multiétnico, mas não é um lance forçado, é uma sinceridade que traduz essa diversidade sonora que compõe a nossa música hoje.

E, se não bastasse essa multiplicidade, eles ainda contam com a participação de vários dos melhores artistas independentes do Brasil hoje: Criolo, Nação Zumbi, Tulipa Ruiz, Curumin, BNegão, Metá Metá, e até um trecho resgatado do Sabotage. Né pouca merda não.

O álbum todo é tão bom que foi difícil de pescar um som só, mas essa letra aí do Criolo é uma das fitas mais brabas que ele já escreveu. “Violar” é um dos registros que melhor captura o “zeitgeist” do Brasil urbano — paulista principalmente, é verdade, mas tem um pouco de cada asfalto brasileiro aí — desses nossos tempos.

Elza Soares — A Mulher do Fim do Mundo

pra ouvir:
www.naturamusical.com.br/ouca-mulher-do-fim-do-mundo-novo-disco-da-elza-soares

Esse é provavelmente o disco mais surpreendente do ano, e, o mesmo tempo, talvez o que mais faça sentido. Elza é dona de uma das vozes mais marcantes da música brasileira, tem uma biografia louca e uma carreira extensa. Faz todo o sentido que essa entidade da nossa música se unisse à essa revolução barulhenta que a música brasileira tem passado. E, com o apoio de um dream team da boa música paulista (Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Felipe Roseno, Celso Sim e Rômulo Fróes) a carioca de Padre Miguel não só coroou a própria discografia, como a música brasileira contemporânea, e mais importante, situou a cultura brasileira num ano marcado pela ascensão feminina na mídia.

Se o faixa título “Mulher do Fim do Mundo” já retrata uma mulher com força que toma conta da sua própria narrativa, “Maria da Vila Matilde” é provavelmente o maior hino feminista da história de nossa música, um grito contra o abuso de gênero.

Biltre —Bananobikenologia

pra baixar:
www.biltre.com

Esse saiu tão no início do ano que eu quase esquecia. Mas, sem dúvida a Biltre é uma das bandas mais legais que surgiu no Rio (quiçá no país) nos últimos anos.

Eu sou um merda e ainda não consegui ver os caras ao vivo, mas tudo indica (e muitos dizem) que o show deles é ótimo. Com todo esse conceito que passa pelos uniformes da banda, pelo bananodrive (pendrive em formato de banana que eles vendiam com as músicas e outros materiais), e a bananobike (bicicleta adaptada pra permitir shows em qualquer lugar), a Biltre se apresenta como uma banda muito irreverente, e as músicas traduzem muito bem esse espírito.

As músicas são quase crônicas da vida do carioca. Aluguel caro, transporte público zuado, a correria pra tentar fazer um som, sempre naquela base eletrônica safadona. Tá tudo lá. Uns arranjos muito bem feitos e um trabalho especial de com as vozes, a postura da banda, que junto com tantas outras de muita qualidade tocaram nas ruas do rio ao longo do ano (culminando até num bloco de carnaval). Um som muito carioca, 99% vagabundo e 1% anjo, puxando aquele S chiado que a gente tanto se amarra.


É isso, rolou tanta coisa foda esse ano que é difícil selecionar. Teve a Mahmed, por exemplo, o cd da Test (!!!), mais um do Emicida, a tosqueira da Amandinho… Se tu tiver muito afim de catar mais coisa, esse post aqui mesmo no Medium já lista uma porra de lista de veículos diferentes.

Vai que vai!