Na minha frente

Uma noite como outro qualquer, pelo menos era para ser assim. Tivera um dia de merda e só pensava em dormir após a turbulência que é viver. Ele sempre chegava em casa e tratava de seguir o mesmo ritual de sempre. Banho, comida, cerveja, cigarro, televisão, música e sonhos — ou quase isso. Depois do ritual, iniciava-se outro ritual. Só dormia se tivesse dopado. Era obrigado a ingerir a deterioração que chamava de remédio. Já tornara-se escravo dos comprimidos.

Ele dizia que dormia e bebia para esquecer. Tentava, a todo custo, esquecer como havia nascido e como chegara até onde chegou, mesmo após trinta e oito anos. Uma estrada e tanta. Tivera dezenas, quiçá centenas, de namoradas. Tivera noivas e até uma “esposa”. Não era o suficiente para aquietação de vida, ou matrimônio, como costumava apelidar.

“Amigos”? Aos montes, como formiga. Quanto mais andava, mais fazia. A troco de nada, é claro. Sempre a troco de nada. A rotina não parava. Era manhã, tarde e noite. A noite só chegava porque havia escurecido. Ele não sonhava, dormia feito uma pedra todos os dias. A tal pedra que já o incomodava há dias, talvez semanas. Ou meses. Resolveu tentar dormir em paz para sonhar. Não deu certo e o tal do sono só chegou quando a luz da manhã começava a surgir entre as nuvens.

Em um ato de súplica ou suicídio, tomou uma cartela completa da droga. Não havia motivo para tal façanha, mas argumentava sempre que tivera um dia de merda e precisava daquilo…

Não demorou muito. Vinte minutos se passaram e os dez comprimidos já começavam a corroê-lo por dentro. Seus órgãos e sua alma pareciam ser dissolvidos pelo líquido que misturava os medicamentos com seu ácido interior. Terminava de bebericar o último gole da sua melhor vodca e o apagão veio instantaneamente. Seus noventa e dois quilos de sedentarismo emitiram um som oco e estático no solo e no teto da vizinha de baixo. Até a fez pensar: “Mas esse homem não se aquieta, deveria arrumar é uma mulher logo”, pensou a inocente aposentada. Aos sessenta e oito anos, ela não fazia outra coisa que não fosse cuidar dos seus próximos.

Trinta minutos depois do apagão ele se encontrava ali no chão, de bruços. Babava e quase que repetidamente, seus pulmões tentavam encontrar o pouco de ar que conseguia passar pela traqueia. Era uma luta automática pela sobrevivência.

Ele conseguiu. Pela primeira vez em meses, conseguiu sonhar. Mas… será que aquilo era mesmo um sonho?

Sentado à beira de uma cadeira, o homem aguardava seu cappuccino enquanto lia o jornal. Não conhecia aquela língua e nem o local que visitava, mas entendia tudo. Pessoas, todas, sem exceção, olhavam-o nos olhos ao passarem. Era como uma reverência. Seria ele um Deus naquele sonho? Ou um preparativo de morte? Não sabia também.

Quando virou uma das páginas do diário de notícias, percebeu dois homens sentados a sua frente; o cappuccino também o aguardava na mesa. Um dos homens estava completamente acabado — cheio de rugas, careca, acima do peso e barba completamente branca. O outro homem parecia mais jovial — corpo atlético, bem vestido, barba bem feita e cabelos grisalhos. O mais interessante é que ele notara duas versões de um homem só. Sem hesitar, questionou:

“Quem são vocês? O que fazem aqui?”

“Somos seus amigos, Alex. Eu sou o Alex da direita e este é o Alex da esquerda”, respondeu o homem ‘mais bem cuidado’.

“O que é isso? Uma piada? Onde diabos eu estou?”, questionou o homem viajante.

“Fale baixo, pois ele pode ouvir. Nós estamos aqui para te ajudar a nos ajudar. É importante que você faça uma escolha. A sua vontade vai mudar a nossa vida para sempre, inclusive a sua”, disse o homem ‘mais velho’.

“Eu não entendo. Eu estava no meu apartamento. Fiz tudo como de costume. Era para eu acordar para trabalhar, mas vim parar aqui. O que é isso?”, questionou.

“Você tomou dez comprimidos. Era para tomar apenas um, esqueceu?”, comentaram os dois quase que simultaneamente.

“É… eu sei, eu sei. Mas é que eu tive um dia ruim, precisava dormir um pouco mais do que o habitual”, explicou.

“E você está”, disse um deles.

“Mas eu estou morto?”, disparou com os olhos arregalados de susto.

“Ainda não. Nós estamos tentando resolver isso, mas precisamos da sua ajuda”, disse o Alex grisalho.

“Eu não entendo. Parece que estou conversando comigo mesmo. Parece que é uma tentativa minha de sobreviver a esse caos”, comentou.

“Alex, explica para ele!”, ordenou o homem com barba branca.

“Tá certo, mas da próxima vez VOCÊ irá falar. Ok?”, retrucou o Alex-barba-feita.

“O que é?”, perguntou o viajante.

“Vamos começar. É perceptível que a sua vida não é lá essas coisas onde você vive. Tá uma merda, a gente sabe. A gente te acompanha desde o seu nascimento. Você não teve vida fácil. Todos bens que você tem hoje, foram conquistados com muita luta. Acredito que intelectuais também, você é bem esforçado. Acredite, Alex, nós tentamos te ajudar algumas vezes te oferecendo oportunidades. Algumas sim, mas nem todas foram aproveitadas por você. Sabe por quê? Existe uma coisa chamada livre-arbítrio. A gente faz o que quer dentro de nossas possibilidades. Nosso papel aqui não é dizer o que você tem que fazer, é mostrar um caminho.Você sempre terá a escolha de segui-lo ou não. Você é um homem de sorte. Aquele lá de cima está tentando te oferecer uma segunda oportunidade. Você agora está morto. A grande quantidade de remédios que ingeriu levou-o a uma overdose. Após quatro dias, os vizinhos acharam seu corpo em decomposição. Você está agora dentro de uma gaveta a espera de alguém da sua família que o reconheça, o que, cá entre nós, não vai acontecer. Eles nunca ligaram para você. Posso tomar um pouquinho do seu café?”, questionou o homem grisalho.

“Claro”, disse.

“Você está esquecendo da outra parte, Alex-mais-novo”, disse o barbudo.

“Calma, não há porque ter pressa. Bom, Alex. Nós temos duas ofertas para você. Aliás, dois caminhos. Você terá de escolher. É como bem ou mal. (Risos)… é brincadeira. Olha aqui, temos duas pílulas. A direita e a da esquerda, é claro. Uma é verde e a outra é azul. Se você optar pela verde, sua vida recomeçará. Você vai entrar em uma espécie de reencarnação. Tudo voltará do 0. Mas é claro, você jamais se lembrará do que aconteceu nos seus trinta e oito anos e o que está acontecendo aqui agora. É uma chance de fazer tudo diferente. Você pode ter uma profissão diferente, se relacionar com pessoas diferentes. Você pode ser rico. Você pode ter filhos, já imaginou? É o que sempre quis, né. Você terá um leque de grandes possibilidades nesse recomeço. Mas claro, você terá que renunciar a tudo e a todos até este momento. Certo?”, disse o grisalho.

“E se eu escolher a pílula azul?”, perguntou Alex.

“Esse é o caminho de volta. Você voltará para a sua vida de merda e acordará no exato momento em que você tomou os dez comprimidos. Seu caminho será o mesmo. Claro, você poderá mudá-lo. Você pode tudo, Alex, basta querer. Nunca é tarde, né. Ao voltar para o momento atual em que vive, não vai lembrar de nada disso aqui. É conveniente, até. Confesso. Bom, é isso? Se você observar bem, somos você. Eu sou a pílula azul e o cara de barba branca é a pílula verde.”, disse o grisalho.

“Como? Como assim? Se eu tomo a pílula azul, eu serei você? Não deveria ser ao contrário?”, disparou Alex.

“Na verdade, não. Quando você acordou e não tinha tomado os comprimidos, você mudou completamente a sua vida. Você fez muitas coisas boas que refletiram na pessoa que você. A outra escolha foi como uma repetição até o momento em que você chegou. Não há salvação nela. As vezes, Alex, a gente tem que sofrer algumas consequências para dar valor a determinadas coisas. Depois do susto, você deu valor. Sabe, esse é o grande erro das pessoas. Elas não sabem, mas se elas dessem esse valor antes, economizariam tempo e coisas ruins não aconteceriam. Que mágico, né?”, disse o mais novo.

“Mas então não há escolha. Já está tudo definido? Como poderia ter uma outra vida?”, disparou.

“É, certo. Você está certo. Na verdade, você já escolheu. Nós trouxemos você aqui para você entender o porquê da sua escolha. Não existe, certo ou errado, Alex. Existe ponto de vista. O que pode ser certo para mim, pode ser errado para você, né? Vão te acordar agora!!!”.

“ACORDA!! ACORDA!!! ACORDA!!”, disse uma voz bem longe.

Ele mal conseguia abrir os olhos. Quando abriu, quatro pessoas o rodeavam. Estavam bem preocupados com o homem de trinta e oito anos. No chão, uma cartela cheia de comprimidos de rivotril — um passo para a morte. Ele, novamente, não hesitou e jogou os dez comprimidos no vaso.

Alex não sabia, ou não queria enxergar. Mas talvez uma força maior deu a ele a chance de pensar. Ele nunca tomara os comprimidos e nem acabara com sua vida. Mas, ele teve que achar que sim para melhorar. Ele teve que tomar um susto para que mudasse de caminho. A decisão sobre qual pílula tomar não existia, ele já a tomara há tempos, só tinha que entender o porquê. Um homem que vivia reclamando pelos cantos, agora é um homem feliz. Um homem que gosta da sua vida.

Muita coisa o fez pensar. Muita coisa ainda o faz pensar. Ele as vezes não sabe se está morto ou vivo. Ele ainda se pergunta se tudo aquilo é fantasia, se ele mesmo tomou os comprimidos; apesar de não lembrar da conversa entre seus eu’s.

A vida é incrível e sempre há uma fila de oportunidades na porta. Se Alex ficasse sentado no sofá, a vida teria passado como um carro no horizonte. E, claro, ele não teria feito nada do que sempre quis.

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