A esperança é o que nos move

Adão Souza dos Santos, de 103 anos, é um dos primeiros moradores do bairro Charrua

Respeito, amor, esperança, amizade e fé. Palavras que foram repetidas por diversas vezes durante a conversa com Adão Souza dos Santos, de 103 anos. Na vizinhança, é conhecido por todos como “Seu Adão”. Sentando em uma cadeira na cozinha de sua residência estava no aguardo para dar início ao nosso bate-papo. Logo na chegada, fui recebido com a pergunta: — Tudo bem com o amigo?

Dono de um carisma e bom humor que contagia a todos que estão em sua volta, Seu Adão relembra com riqueza em detalhes de sua infância, sua adolescência e a fase adulta. Cada frase vem cheia de ensinamentos e reflexão. É impossível não viajar no tempo e, perceber que aos poucos, princípios básicos foram se perdendo entre as gerações que vieram depois. 
 
 Seu Adão, natural do município de São Jerônimo, que fica a 71 quilômetros de Porto Alegre, conta com orgulho e lembra de cada detalhe que a região carbonífera passou ao longo dos anos. Hoje ele reside no bairro Charrua, na cidade de Butiá, que até 1963 era distrito de São Jerônimo.

- Nada disso que tu estás vendo agora existia. Aqui era tudo campo aberto com a prática de invernadas e carreiras de cavalo, explica Seu Adão, ao ser perguntado como era o bairro no passado. 
 
 Esbanjando memória e lucidez com seus 103 anos, o simpático senhor conta que não aprendeu a ler nem escrever, pois sempre trabalhou muito para ajudar os pais e os 12 irmãos. Mas sinceramente, é impossível não o considerar um verdadeiro professor, que com maestria provoca reflexões a cada nova história que surge. Casado há 71 anos com sua esposa, Olalia Lopes dos Santos, de 99 anos, a união deu fruto a sete filhos, sendo seis mulheres e um homem. 
 
 Enquanto conversamos, duas de suas filhas estavam na varanda fazendo companhia para a mãe e preparando o café da tarde. O que mais me chamou atenção, é que todos são parecidos com o Seu Adão. O respeito, a bondade, o amor, a paciência e bom humor transbordam no ambiente da família. No lugar há uma energia que contagia quem chega no local. Enquanto conversamos e os “causos” iam surgindo, as filhas interagiam e davam impressão que estavam fascinadas com as palavras do velho pai.

Com 23 anos, Seu Adão saiu da casa dos pais e foi em busca da independência. Ele conta que trabalhou como encarregado em plantações, na construção de taipas de açudes e em fazendas. Apesar de ser considerado o patrão, ele nunca gostou de ser chamado como tal. Sempre se considerou um peão, igual aos demais colegas de serviço. Todos eram tratados da mesma forma, pois como ele me disse, nós somos todos iguais. Parece tão óbvio que todos somos iguais, porém, não é o que vemos no dia a dia. Com discursos de ódio, as vezes pelo simples fato de alguém discordar de seu ponto de vista sobre determinado assunto.

Confesso que fatos assim me fazem perder a esperança na humanidade. Mas somente faziam, pois depois da longa conversa com meu entrevistado, percebi que a esperança é o que nos move. E por mais que os obstáculos surjam, não podemos esquecer de levar adiante a mensagem de amor, fé, amizade e respeito.

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