É POSSÍVEL (E CORRETO) TRANSIGIR COM O DISCURSO DE ÓDIO?

Antes leia, por favor >>> http://goo.gl/UddEPi

O texto publicado no Observatório da Imprensa faz um recorte bem específico do tema “discurso do ódio em transmissões ao vivo”: como lidar com manifestações racistas e antissemitas vindas da audiência. É uma realidade bem europeia (tanto o antissemitismo, como o racismo e o formato de programas com participação ativa de ouvintes na grade de programação). Mas, antes de clicar no link, na leitura da chamada, pensei que o gancho da pauta seria a entrevista que o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) concedera ao jornalista Juremir Machado da Silva na Rádio Guaíba no começo da tarde de terça-feira, pois foi este o tema que pipocara com mais fervor naquele dia. Quem conhece os envolvidos sabe que um oceano político-ideológico os separa e, logo, o encontro seria um áspero confronto de ideias ou, na mais branda das hipóteses, Juremir poria Bolsonaro contra parede e o sabatinaria com questões polêmicas. Estas possibilidades sempre animam ouvintes — o que de fato ocorreu. O Esfera Pública pautou a timeline do meu Twitter durante um bom período do dia. A polarização (é lógico que ela ocorreria) se deu entre revoltados com as manifestações do deputado vs. revoltados com a postura do jornalista — a que julgaram indecorosa e antiprofissional. Na verdade, o programa foi mais um episódio para renovar a dicotômica rixa entre esquerda e direita (embora nestas horas ninguém aceite com naturalidade a rotulação extremada). No que o programa transcorria, e o bate-papo no ar virava bate-boca, me questionei, provocado pelas opiniões na internet: é possível transigir com o ódio? (Por mais subjetiva que seja a definição de ódio). É válido debater diante de quem não quer debate?

Quem já assistiu meia dúzia de entrevistas do Bolsonaro com atenção mínima sacou seu modus operandi: terrorismo verbal teatralizado por gritos. Tudo bem cênico. O político invariavelmente toma as rédeas das entrevistas, monta nos jornalistas e cavalga despejando números e dados nem sempre verídicos. Quando perde o controle, ideologiza a conversa, cita Lula, Dilma, o PT; isso quando não viaja mais longe (e no tempo) e coloca Che Guevara e a KGB em pauta, num daqueles excessos típicos de quem ainda não superou o fim da Guerra Fria. Poucas horas antes de ir à Guaíba, ele foi à Rádio Gaúcha responder perguntas. Lá recebeu o palanque que só a imparcialidade jornalística é capaz de conceder. Ficou à vontade, como costuma sempre que responde com eloquência e agressividade os primeiros questionamentos mais espinhosos. Bolsonaro não dribla espinhos, corta os galhos com facão e, quem não está afiado, vai pra vala. Foi o que ocorreu durante um pouco mais de meia hora. Quando não conseguia responder a uma pergunta com precisão tangenciava sem o menor disfarce.

No Estúdio Cristal, que fica no térreo do prédio do Correio do Povo, separado da calçada por uma parede de vidro e logo aos olhos da multidão, Bolsonaro foi sabatinado com plateia (contra e a favor) por Juremir e pela também jornalista Vitória Famer. Ali Bolsonaro foi confrontado e, sempre que lançava um dado ao léu, sem muito contexto, mas que normalmente acabam por conferir-lhe a imagem de político sério e informado, era interpelado. Principalmente quando havia imprecisão histórica ou erro de informação, como na hora em que disse que o AI-5 extinguiu os partidos políticos em 1968. Bolsonaro maquia a inconsistência do seu conteúdo com dados falsos ou imprecisos, inseridos num discurso sedutor de indignação, facilmente comprado por quem está indignado (90% dos brasileiros, com muita razão, diga-se). Aqui (http://goo.gl/JNV6jq), foi desmentido pela revista do Grupo Abril, Nova Escola ao escarrar na sua fanpage uma série de números que sabe-se lá de onde brotaram sobre a educação brasileira e de alguns países desenvolvidos. E aí temos uma efetiva arma contra o discurso de ódio: a informação. A melhor maneira de combatê-lo é irracionaliza-lo. Mas para isso é preciso confrontar. Juremir goza de liberdade editorial para opinar nos veículos em que trabalha, e fez uso deste benefício para por o deputado contra a parede. Confesso que sempre me afligiu ver Bolsonaro comandando entrevistas, lançando números e revisitando a história brasileira seguro de quem não será questionado. Como disse a amigos de quem discordei na terça: é preciso conviver e dialogar com o diferente, mas não com quem segrega. A estes o embate dialético é a melhor saída. Seja na rua ou num programa de rádio.