Não sei se foram aos anos que me fizeram frio ou se é algo que questionar o mundo me trouxe, mas eu sempre questionei se eu tinha direito de me sentir como estava sentindo. Me parece importante questionar se a tristeza que eu sinto agora é justificável, embora os meus momentos felizes não tenham o mesmo tratamento pela sua raridade. Sempre me pergunto se eu realmente deveria ficar chateado com as ações de algumas pessoas, com os relacionamentos passageiros e o mundo como ele se desenvolve para mim.

Algo que a filosofia e a astronomia me ensinaram desde muito cedo é que eu não sou um nada. Uma fagulha de energia num planeta periférico de um sistema solar pertencente a uma das muitas galáxias. Os egos das pessoas devem ter algum problema em não perceber que na verdade é o vazio que predomina no universo. E nossos sentimentos e emoções são insignificantes para todos menos para nós mesmos. Esses dias me peguei sofrendo por situações que eu passei na infância, provavelmente só eu lembro o ocorrido. Minha dor sobrevive apenas em mim, o que é um tanto quanto irônico. Não é só socialmente que o ser humano se sabota.

Nós somos de uma época que o comum é ser descartável. Pessoas são reduzidas a quantidade de prazer que podem causar e eu sei que não posso grande coisa. Não me irrito com minha personalidade monocromática, mas aparentemente não prende atenção por muito tempo. Eu sou uma receita médica para uma cartela de pílulas. Os poucos rostos em minha volta se reorganizam de tempos em tempos em velocidades crescentes. Esses dias perguntei para uma amiga como estava o namorado dela e ela respondeu “Eu estou sofrendo por outra pessoa agora”. Isso me define.

Mas se me perguntarem se eu vejo problemas nisso, sinceramente não. Os filósofos mais variados, dos estoicos até Camus, de Nietzsche até Epícuro, não vinham sabedoria em se focar no futuro. Por mais diferentes que esses pensamentos sejam. Ser descartável tem sua vantagem no presente e é tudo que eu posso vivenciar no momento. Eu não mais acredito em amizades eternas então fico feliz em ver novas desabotoarem e aproveito cada segundo que elas duram. Depois as vidas seguem, se elas vão se reencontrar ou não é algo longe da minha faculdade de poder.

Bauman e sua teoria do amor líquido, apesar de ter alguns pontos interessantes, me parece meio conservadora. As pessoas idealizam o conceito de família de uma forma que me parece estranha. Historicamente os casamentos eram arranjados por interesses, depois começou uma noção Romântica de amor mas que ainda preservava muitas opressões de gênero e puniam as pessoas que terminavam tais relacionamentos. Alguém gostaria de voltar no tempo onde divórcio era um taboo? Hoje, numa sociedade um pouco mais progressista, as pessoas querem viver de forma diferente. Não é necessariamente ruim que os relacionamentos sejam mais curtos.

Eu sou uma pessoa descartável e me viciei em ser assim. Leio vários textos de pessoas que reclamam os ideais de Romance e Amizade eternos e ininterruptos para si. Se dizem os alicerces da luta pelo relacionamento “verdadeiro e duradouro”. O passado não nos apresenta modelos que me agradam e o presente nos oferece a possibilidade de ser uma pílula. Eu não quero lutar contra isso. Conheci muito mais pessoas dessa forma que as antigas gerações. E se meu futuro oferecer algo diferente talvez eu abrace. Mas sinceramente não vejo isso como ruim.

Talvez isso alimente melhor minha fantasia de ser esquecido. Isso me agrada bastante.

Vinícius Machado Miguel.