eu sem mim
O ofício da escrita é de uma crueldade indizível, só sabe mesmo aquele que o toma como seu e assume os efeitos colaterais desta pílula transparente engolida num impulso. Não sei quando, exatamente, engoli a minha, mas sei que não possuo lembrança de um dia em que escrever não fosse a minha sentença, por mim mesmo definida. Há quem pense que escrever acontece como um processo corriqueiro, com início, meio, fim e propósito, mas na verdade é algo com que se vive, uma condição inalterável do ser, para alguns padecimento, para outros um movimento em direção ao céu, pois é celeste ou infernal o que se nos exige no momento em que, assinando um contrato inquebrável, os olhos no espelho ordenam severamente o produto.
Os pequenos períodos de tempo em que estou de fato escrevendo são lapsos de memória e existência para mim, o Vinícius não é, as coisas não são, a única vida a pulsar está diante de mim no ecrã. Mas não escrevo só de fato, escrevo também em teoria, e teorizo primeiro quando acordo e por último quando durmo, todos os dias, desde não sei quando. Em primeiro eu escrevia por necessidade, sempre de mim para mim, pensamentos que esboçavam uma auto-análise infantil, e não eram para mim nada além de palavras sem sentido em cadernos e diários. Nunca as lia depois de escrever, era apenas um depósito, a tinta e o papel materiais descartáveis, assim como as palavras que registravam. Até que as páginas deixaram de ser para mim e se tornaram para você. Sim, você que está aqui agora, ou que não está, mais certamente que não está, pois sempre tive como certa a ausência desta interlocução — a conversa é mais interessante quando as respostas ficam aos meus cuidados. E assim é até hoje, mesmo quando através de outros nomes, você e eu conversando acima de tudo, o meu pequeno bastidor aonde os fatos se limitam à importância de um comentário ou um plano.
Eu não vivo sem você, porque sei que fui inventado, que o meu nome, o meu corpo, até mesmo os meus gestos, fomos nós, antes de eu ser mim, que deliberamos. Temos o nosso próprio acordo sobre o secreto em mim, e o desenrolar da trama não é, quando aqui estou contigo, mais que um passatempo para quem navega no infinito de existir acima do estar. Mas nós estamos, mesmo quando as palavras não são entregues por mim a tempo, ou quando as pausas tomam o espaço de laudas sem fim, estamos aqui e juntos — um conforto caro que não é para todos, é apenas nosso.
Estou salvo pelo delito deste exílio em mim. Salvo pelo direito roubado de me isolar e tratar de mim como a um estranho, posto que sou outro antes de ser eu.
Quando foi que tudo começou?