Moldando parte de mim

Por enquanto, só consigo pensar, será que exagerei no título? Caramba, foi só uma aula de cerâmica. Mas ao ler “foi só uma aula de cerâmica” eu não me identifico, não sou eu. Eu sou mais o título mesmo. Ok, vamos nessa.

Faz tempo que eu me incomodo com o fato de meus trabalho serem desenvolvidos quase sempre no digital. Me incomodo que não toco o fruto de um estudo, ou o design ou qualquer trabalho feito nos últimos anos. Isso me incomoda.

E o incômodo aumentou mais ainda quando depois de muita resistência, eu assisti um episódio de Black Mirror, onde a temática era justamente a falta da realidade no cotidiano, a falta do toque, das coisas reais. E o incômodo só crescia.

Ultimamente eu venho em uma onda de produtos naturais, chás, cafés e utensílios feitos a mão, e quando descobri o trabalho da Patrícia, me apaixonei. Em um dia normal de trabalho, eu desci em um showroom, que supostamente era de doces e vi uma banca de xícaras, canecas e utensílios de cerâmica. As cores e as texturas saltavam aos olhos e em um piscar de olhos esqueci qualquer doce e fui direto para as peças.

A paixão que a Patricia explicava as cores, as técnicas e como cada peça era concebida, me fez brilhar ainda mais os olhos e obviamente eu comprei um kit. Mais do que isso, imaginei como seria mágico desenvolver algo assim.

Algumas semanas depois e eu estava no ateliê dela com mais 4 pessoas iniciando um curso básico de cerâmica com duração de 3 dias. De verdade, eu não tinha nenhuma expectativa, eu sequer sabia o que era um torno, ou pior ainda, eu nem sabia que as peças eram feitas de argila.

Eu só fui. E só indo, eu entrei em um ateliê mágico. Um daqueles lugares que você se sente em casa, com espaços abertos, janelas grandes, cheio de vida e de amor. Naquele momento eu entendi porque aquelas peças eram especiais, elas tinham o privilégio de nascerem naquele espaço.

Eu me senti em casa.

A aula começou e eu não senti que estava em uma aula. Porque na minha cabeça, aula é algo chato, onde um ser humano está em outro patamar, ensinando algo para outras pessoas a uma distância tão grande, que você quase não consegue ouví-lo. Para mim aula é alguém ensinando matérias obrigatórias dentro de uma grade fixa que muitas vezes não faz o menor sentido para quem está aprendendo. Ou melhor, aula era isso. Não é mais.

Apesar de sermos um grupo de 5 alunos, eu sequer tomei conhecimento deles. Estava tão focado em mim, tão focado na argila e na interação que minhas mãos tinham com ela, que tudo entrou em um estado atemporal.

Cada vez que meus dedos tocavam aquela massa, a forma se transformava. Cada vez que eu colocava mais força no toque, a transformação tomava um rumo completamente diferente. Era aquilo que eu estava precisando. O mundo real.

A atenção e o foco foi tão grande, que eu sequer ouvia o que as pessoas estavam falando ao meu lado. É claro que isso foi ruim, quando a Pati tentou explicar como montar as alças das xícaras que estávamos produzindo. Mas a interação entre ser humano e argila estava tão íntima, que achei injusto interromper.

As expressões do Vini estão naquelas peças. Provavelmente naquele lugar mágico. Em alguma prateleira, secando, se preparando para eternizar em um utensílio algo que eu estava sentindo hoje de manhã. Algo de mim está no mundo real. E isso foi tão lindo, e isso é tão lindo.

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