Um simples sushi, um sushi simples.

O final da tarde aparece. Diferente. Não só pelo horário de verão, mas por uma vontade súbita e repentina de sentir e fazer algo diferente. Mas hoje é terça-feira, já são 19h. Ok, fecho os olhos e penso, se você pudesse escolher algo para fazer agora, o que você faria? Comer. Ok, o quê? Comida japonesa. Ok. Como? De uma maneira que eu nunca comi antes. Ok.

Na hora vem na cabeça o Phil (grande amigo que trabalha comigo) falando sobre um restaurante minúsculo, praticamente sem fachada e muito perto de onde trabalho. O Sushi Hamatyo.

Vai Vini, não custa nada tentar chamar o cara para jantar, mesmo já tendo almoçado com ele. O não você já tem. E o sim apareceu muito rapidamente e sem qualquer hesitação.

Lemos alguns relatos na web sobre experiências no restaurante com o menu degustação, sobre o chef tradicional e sobre o quanto o restaurante é conceituado nacionalmente. Liguei e arrisquei perguntar se havia dois lugares no balcão para daqui 30 minutos. Ela disse que sim, arrisquei perguntar sobre o menu degustação, mas confesso que não entendi uma palavra do que foi falado. O sotaque japonês era muito forte.

Ao andar pela rua no caminho do restaurante, uma mistura de sensações e expectativas pairava sob a cabeça dos dois, e falo por mim quando digo que estava com muito medo de passar vergonha. Será que existe algum protocolo? Precisamos falar algum código na porta ou algo do tipo?

Entrada do Restaurante

Ao chegar na porta, uma pessoa de terno e gravata abre as portas e afasta os panos que contém o nome do restaurante. Um silêncio toma conta da minha alma e todas as 5 pessoas sentadas olham diretamente para nós com uma feição séria e ao fundo é ouvido uma saudação em japonês dita por uma voz feminina. A gente não consegue responder.

Eu confesso que fui tomado por um pânico e não sabia se andava, se parava, se precisava tirar os sapatos ou se fingia um desmaio. Optei por andar e o Phil foi acompanhando cada passo. Queria olhar para o chef super bem vestido e sua maravilhosa faca, mas não tive coragem. Só fiz contato visual com uma senhora que veio em nossa direção e perguntou se tínhamos reserva. Balancei rapidamente a cabeça e falei Vinícius.

Ela moveu uma pessoa de lugar e abriu espaço para que nós pudéssemos sentar. O Phil sumiu para o banheiro e eu estava tão nervoso que não pensei duas vezes e corri atrás. Começamos a rir baixo ao mesmo tempo que lavávamos as mãos (sem necessidade, porque havia toalhas quentes no balcão).

Resolvemos pedir uma cerveja japonesa, a famosa Sapporo, que delícia de bebida.

Cerveja Japonesa Sapporo

Olhamos o cardápio. Estava em japonês, com legendas em português. Mas enquanto estávamos com ele na mão, apareceu o primeiro prato. Uma salada de pepino acompanhada de um peixe. (são suposições, porque não sabemos o nome de quase nada).

Salada de pepino com peixe

Nesse momento, nós acreditávamos que a mulher e eu havíamos trocados informações subliminares na ligação para marcar a reserva e ela já sabia o que iríamos comer. Deu até uma tranquilidade, que foi rapidamente quebrada quando o simpático, porém imponente chef parou diante nós e perguntou se havíamos escolhido os pratos.

Eu olhei para o Phill e confesso que gaguejei. Olhamos para o cardápio e com uma rápida troca de olhares decidimos optar pelo menu mais completo da casa. O Menu Hamatyo. Ele balançou a cabeça e falou algumas coisas, que só entendemos que hoje não havia Toro no cardápio e que ele iria substituir por outras duas coisas. Balançávamos a cabeça fingindo entender e falar a mesma língua que ele.

Eu confesso que me emocionei com os movimentos da faca, das mãos e principalmente pela atenção e o cuidado que o chef montava os sushis. Estou aprendendo muito sobre foco, atenção plena e cuidado quando fazemos algo com o coração. E assistir o chef Ryoichi Yoshida foi uma aula. Ele não desvia o olhar do que está fazendo, o silêncio no restaurante certamente contribui para a atenção total, mas é simplesmente lindo assistí-lo montar cada etapa do menu.

Mais lindo era ver cada peça vir parar em uma tábua linda de madeira colocada na frente de cada um, com uma porção de gengibre. Não tivemos coragem de colocar Shoyu em nenhuma peça e certamente foi uma escolha sábia. Porque cada um dos sushis servidos tinha uma personalidade, uma história, um gosto, uma sensação.

A cada mordida dada, era inevitável pensar:
Que bom que estou podendo viver isso. Que bom.

Meu propósito não é descrever o que senti em cada um desses pratos, nem muito menos explicar o que é cada um deles (mesmo porque nós não temos a menor ideia).

Um dos pratos mexeu comigo, me fez ver estrelas, me fez sentir uma sensação gostosa pelo corpo inteiro. Não sei explicar. Foi realmente algo mágico. Eu respirei fundo, chamei o chef, mostrei a foto no celular e perguntei o que era. E ele respondeu bem baixo: É enguia. (peça da direita na foto abaixo)

Uma das nossas aflições era descobrirmos quando os pratos acabariam. Será que ele avisa? O que acontece? Um sino soará? Não, nada disso, percebemos quando a senhora nos perguntou se gostaríamos de uma sopa.

Esse era o sinal e descobrimos na hora. Aceitamos a sopa e fomos surpreendidos por uma mistura tão inusitada de sabores que eu percebi que não tenho capacidade de descrevê-los. Eu olhava para a sopa, para o Phil e falava, eu nunca senti esse tipo de gosto na minha vida.

A sopa ajudou a colocar um ponto final em uma refeição maravilhosa. A uma experiência maravilhosa. Extremamente satisfeitos, leves, sem exageros. Levantamos felizes, e foi aquela felicidade franca e honesta, sem máscaras, sem fingimentos.

Feliz por viver aquilo e por receber o sorriso do chef de agradecimento. Nós que agradecemos por nos mostrar o poder de algo feito com o coração.

Hamatyo (chef e proprietário: Ryoichi Yoshida)
Avenida Pedroso de Morais, 393 — Pinheiros
São Paulo/SP
Fone: (11) 3813–1586
www.hamatyo.com.br