Dois postes no fim da rua olhavam dentro dos meus olhos, e iluminavam a sala, cedo da noite eu bebia deitado em um monte de madeiras duras e isentas de sentimento ou compaixão (meu sofá), bebia e olhava para a rua, não enxergava muito mais do que pequenas poucas luzes espalhadas pela quase total escuridão da noite. Três dias e três noites sem dormir, três dias e três noites sem parar de beber, três dias e três noites trabalhando em uma metalúrgica, três dias e três noite tentando escrever poemas, sobre a tristeza dos homens que trabalhavam comigo.

Desespero era o que havia no riso daqueles pobres homens, riam de tudo que conseguiam rir, inclusive de si mesmos, admirava isso neles, mas sentia pena também, a base de gim e risadas sem motivo, passavam dias trabalhando naquele lugar mais quente que o inferno, o lugar fedia a produtos químicos, que provavelmente estava nos matando aos poucos assim como tudo que consumimos. Escutei muita coisa inútil nesses dias, nenhum deles tinha alma, empregos ruins, mulheres ruins, filhos, pobreza, alcoolismo, fast food, programas de tv, internet, conta de luz, política, futebol, prostitutas com gonorreia, música nova, decepções amorosas, pobreza, burrice, crises de meia idade, depressão. Tudo se resumia a isso, era fácil de entender a tristeza iminente da maioria dos homens de 35 anos que pareciam ter 50.

Meus pés doíam muito,calos e bolhas de sangue, de água, de merda, bolhas de todo o tipo, eu estourava todas e e jogava uísque em cima, eu ria da dor, era engraçado, porra, aquelas botas de merda foderam com meus pés de uma maneira inimaginável, em carne viva, meus pés estavam, agora tão feios quanto meu rosto.

O sono estava vindo, as dores em todo o corpo tentariam atrapalhar sua vinda, mas o cansaço e o excesso de álcool iriam traze-lo, minha barriga fazia um barulho estranho e engraçado, não me lembro a ultima vez em que comi, agora, deitado naquele sofá mais duro que concreto, bebendo um uísque barato, não teria forças para fazer mais nada, era só esperar, o sono e a morte, um dos dois vai vir, eles sempre vem.

Fechei meus olhos, tentei ignorar a dor, bebia do uísque e saboreava seu gosto de cirrose, estava tudo errado, então estava certo, pensava, nada nem ninguém além dos ratos poderiam me assassinar, nada nem ninguém além do meu pé poderia me fazer sofrer, nada nem ninguém além da solidão poderia me fazer chorar, enfim, o sono estava vindo silenciosamente, e eu estava o aceitando.

A campainha, que até então eu não sabia que existia, tocou, um barulho infernal, impossível de se ignorar, prometi para os deuses e para as aranhas que se não fosse a morte, eu perderia minha sanidade, levantei como pude, corpo e mente em frangalhos, cada passo uma dor nova, dei no máximo dez passos por aquele mundo de garrafas de cerveja, papéis amassados, restos de comida, ratos, aranhas gordas e baratas magras, abri a porta.

Não era a morte, a morte nunca viria através daquela figura, um garoto gorducho que nunca tivera trabalhado um dia em sua vida miserável, mais o menos 22 anos, gordo como um porco, o filho da puta transpirava demais, respirava demais, ocupava espaço demais, ele olhou para mim com desprezo como se fosse algo além de banha e disse:

— O aluguel ta atrasado a 12 dias, paga hoje ou junta tuas tralhas e vaza.

— Ta.

Dei meia volta, a raiva fez com que a dor fosse embora, cada passo uma ideia assassina, peguei a garrafa de uísque e voltei até a frente do gorducho, ele apoiava seu braço de 50 quilos na minha porta e olhava para baixo, me aproximei dele, bebi um bom gole do uísque e pus a mão no bolso, os olhos dele acompanharam minha mão até o bolso, com toda força e raiva que eu tinha quebrei a garrafa de uísque na face redonda dele, caiu como se fosse leve, o estrondo da queda ecoou por todo o bairro, ele segurava seu rosto coberto de sangue e gritava:

— FILHO DA PUTA! EU VOU TE MATAR! FILHO DA PUTA! AAAARHG!

Inclinei meu corpo em direção ao chão, e disse em um tom muito baixo:

— Segunda feira gordão, segunda feira eu pago.

Entrei e tranquei a porta, caminhei até o quarto, fechei a porta e deitei, o quarto estava mais escuro que o cu de uma aranha, os gritos de dor do gordão ecoavam por todo o bairro, de uma maneira estranha, aquilo me deu sono, então eu dormi, e quando acordei, só me restava esperar pela morte.