O telefone tocou e ele atendeu.

E ai Max. Tudo bem e você?. Ah sim. É foda. Todos nós precisamos. Vamos. No lugar de sempre? Sim, realmente é mais barato. Ta. Pode ser as 22:00. Nos vemos lá. Ok. até.

O bar era grande, lotava em dias de jogos, naquela noite estava vazio, Max chegou primeiro e pediu uma cerveja de casco verde, o garçom tinha olhos arregalados e um rosto indiferente, parecia estar morto a muito tempo, fedia a madeira e vômito e desodorante vencido, trabalhava por centavos e por cerveja barata.

— Ei Tony, senta ai cara! — disse Max.

— E ai, tranquilo? — disse Tony, ele pediu uma cerveja.

O garçom voltou com duas cervejas de casco verde.

— É. Podemos dizer que sim, como vai a vida?

— A mesma merda, trabalho, família, pouco dinheiro, muita cerveja, o mesmo de sempre.

— Entendo.

— E sua?

— Sonia terminou comigo.

— Puta merda Max, ALGUÉM TRAGA UM UÍSQUE PRA ESSE HOMEM!

Todos os poucos pobres diabos do bar puseram-se a olhar para eles, e os dois riram, sem mostrar os dentes, não se sentiam constrangidos.

— Preciso mesmo. — Tony chamou o garçom e pediu uma garrafa.

— Por que ela terminou?

— Disse que eu estava velho e que ela precisava aproveitar a vida.

— Puta merda, que vagabunda cara.

— Vai entender, mulheres, cara, mulheres…

O garçom voltou com a garrafa e com dois copos, ambos cheios de gelo, despejou o uísque neles e foi atender outra mesa.

— Mas, ela fez isso na hora certa Tony.

— Como assim?

— Eu to morrendo.

— Todos nós estamos, Max, todos nós.

— Não nesse sentido porra, eu tenho câncer.

— Caralho…

Tony deu um longo gole na cerveja e bebeu todo o copo de uísque com gelo antes de voltar a falar.

— Que tipo de câncer?

— No estômago.

— E isso mata?

— Tudo mata, Talvez eu viva mais 20 anos, ou talvez eu morra semana que vem.

— E a quimioterapia e aquelas merdas todas?

— Não quero ir pra um hospital, se eu for, vou morrer lá, não pelo câncer e sim por estar lá, aquilo me fode. Quer dizer, me fode mais ainda.

— Eu estive algumas vezes no hospital, sempre sai pior do que entrei, aquilo suga sua alma, sua masculinidade, tudo, é horrível.

— Então você entende minha decisão?

— Entendo… Mas e ai o que você vai fazer?

— Beber e esperar a morte é só o que me resta.

— Merda, eu sinto muito cara.

— Eu também.

— Posso fazer algo por você?

— Beba sua cerveja e finja se importar.

— Bem, eu posso fazer isso.

Os dois riram e beberam, cerveja e uísque…

— Que tipo de amigo eu seria se não pudesse? — disse Tony, levantando a cerveja e propondo um brinde.

— Você é um bom amigo Tony. — disse Max, brindando com Tony.

Os dois mataram suas cervejas e suas doses de uísque. Tony encheu os dois copos e pediu mais duas cervejas.

— Sabe, eu tinha comprado uma aliança pra ela, gastei 1500 dólares, ia pedir ela em casamento hoje.

— Porra, 1 e 500, da onde você tirou isso?

— Empréstimo no banco.

— Tu se fodeu, bonito, se fodeu bonito.

— É…

Continuaram bebendo, terminaram com todas as cervejas de casco verde do bar, trabalharam no uísque também, os dois estavam bêbados demais para se importar com qualquer coisa, apenas riam de suas frustrações, falavam sobre como a vida era uma merda e de como todos seus planos deram errado, era triste, mas eles riam, não lhes restava muita coisa a fazer, o dinheiro acabou e o uísque também, os dois saíram do bar, abraçados, cantando alguma música do Bob Dylan.

Os dois vivem até hoje, bebem também.