Mais uma vez

O velho e o mar de Hemingway, por algum motivo, sempre está no chão do meu quarto

ela pergunta: ‘’que livro é esse’’
eu respondo: ‘’é um clássico da literatura’’
então ela diz: ‘’você ao menos já leu todos esses livros que estão espalhados pelo quarto?’’

‘’claro que não, você acha que eu sou louco?’’

E ela ri, e eu sento na borda da cama,
ela senta no meu colo e passa a mão entre meus cabelos
e nos beijamos, no estalar da chuva
e noutro instante estamos rolando pela cama, pelados e suados
fazendo o que fomos feitos para fazer
e o que melhor sabemos
fazer

Só voltamos a nos falar depois da foda

ela aponta outro livro qualquer e pergunta, ‘’e aquele, que livro é aquele?’’

‘’outro clássico da literatura provavelmente’’

Eu levanto bocejo e dou dois tapas na minha barriga de cerveja
E vejo pela janela, o desespero dos pássaros fugindo da chuva

ela ri de mim e diz: ‘’você deveria fazer academia’’

‘’é’’ eu respondo acendendo um cigarro.

Abro a janela e vejo que a duas quadras, há prédio em construção
eu consigo ver os pedreiros trabalhando
será que eles me enxergam de lá? será que eles me viram foder?
isso me incomoda um pouco, eu abro a garrafa de conhaque, tomo um gole
e volto pra cama
ela me olha e acaricia meu rosto, suas mãos entre meus cabelos, e de novo nos beijamos
e é só questão de tempo, até repetirmos isso à tarde inteira

O amor vive
por alguns dias
dentro do meu quarto
mas logo morre
de uma hora, pra outra
eu volto a querer ficar sozinho

Mas de uma outra hora, pra outra
o amor volta e me mata mais uma vez

E eu a quero de novo, a quero de volta
mas ela segue sua vida
sem querer me ver novamente algum dia
e
com razão

Então eu a transformo em poesia, que é o máximo que posso fazer

Mas o que mais me entristece é não ter lhe dito
antes
que eu era louco e que li todos aqueles livros
e que no auge da minha loucura eu a magoaria
e depois me arrependeria de ter fodido com tudo
mais uma vez