A Promessa

ABRIL

- E aí, como foi? — Perguntou a mãe.
- Vou precisar operar em novembro. — Respondeu o filho.
- Não pode ser! — Respondeu a mãe, com a mão no coração.
- Não pode ser! — Disse o pai, levantando-se do sofá da sala de TV. Estava passando o jornal da tarde.
- Mas é, não adianta.
- Tem certeza? 
- Tenho, oras, o médico disse. 
- Mas ele não deu outra alternativa? — Barganhou a mãe.
- Não, sem chances.
- Você não acha melhor pedir a segunda opinião de outro médico? — Inquiriu o pai.
- Não, gente, parem… Parem. — O filho gesticulava com as mãos, aflito com a comoção. — Ele me mostrou os exames e me explicou a cirurgia, não é nada demais.
- “Nada demais”… — Zombou a mãe. — Por acaso vão usar bisturí?
- É lógico, mãe.
- Você vai sangrar?
- É óbvio… Mãe, é uma cirurgia!
- Então não vem com essa que não é nada demais, caramba! — Ela espalmou as mãos contra as pernas. — Não tem nenhum tipo de remédio pra curar? Um tratamento mais longo? 
- Não. É tão difícil assim usar a cabeça e aceitar?
- Olha como você fala com a sua mãe, menino…
- Mas, pai…
- Você me respeite que eu sou sua mãe, só quero teu bem! 
- Mas…
- Nã, nã, não. Sem “mas”. Deixa a cirurgia marcada pra novembro que isso aí vai sarar antes. Vou fazer promessa.
- Ah, não! — O pai e o filho responderam, em uníssono.
- Mãe, não começa com isso. 
- Meu amor, promessa de novo nem pensar. 
- O que vocês tem contra as minhas promessas? — Respondeu a mãe, acuada, sentando na cadeira da cozinha. 
- Meu bem, é desnecess…
- É idiota, mãe. Todo mundo sabe que não funciona. 
- Fale por você mesmo, meu filho. 
- Falo por todo mundo. Não é com palavras mágicas que se curam as doenças.
- É assim agora, menino? Eu te empurro pra fora de mim, limpo tua bunda, dou comida na tua boca pra agora você me ensinar o que é e o que não é? Qual o quê! 
- Calma, meu amor, meu filho…
- Ah não, pai, nem vem, mais uma dessas de promessa não. Lembra da última vez? De janeiro a outubro ela não saía de casa aos domingos! Não me apareçam com essa palhaçada de novo que eu paro de ir ao médico! — O filho esbarrou a porta do quarto. Os pais ouviram o clique da fechadura virando.

MAIO

- O cheiro tá ótimo, pai. É macarronada?
- Com almôndegas! 
- Hmm! Bota na mesa logo, mãe! 
- Calma que já vai. — A tigela estava cheia da pasta bem cozida, com um molho avermelhado e belas almôndegas. O filho se intrometeu antes mesmo do recipiente chegar à mesa e foi se servindo no caminho entre a cozinha e a sala de jantar, enquanto a tigela repousava nas mãos da mãe.
- Ficou muito bom, pai. — Disse o filho, com a boca cheia, no seu segundo prato. — Mãe, para de lavar a louça e vem logo comer.
- Estou terminando de lavar a louça, vão comendo que já vou…
- Mãe, a torneira nem tá ligada, que história é essa de lavando a louça? — O filho entrou na cozinha e viu a mãe comendo num prato com duas almôndegas, sem nenhum macarrão. Algo começou a ferver no seu sangue. — Mãe, porque é que não tem macarrão no seu prato e você tá comendo aqui?
- Filho…
- Eu falei que não era pra fazer promessa! Mas que porcaria! — Ele estava com as mãos na cabeça, apertando os cabelos. — Macarrão, é sério? Macarrão? Isso é promessa ou greve de fome, porcaria? 
- Rapaz eu te cri…
- Sim, sim, me criou, e daí? Agora pode fazer dessas frescuras pra vida toda? Não está ajudando em nada! — Ele saiu pisando fundo e esbarrou a porta do quarto, como sempre. Os pais ouviram a fechadura virando num clique, e o bufar do filho irritado.
- Ele vai acabar quebrando essa porta. — Disse o pai, num suspiro desmotivado.
- E você é um banana que não faz nada! 
- Meu amor, o que foi que eu fiz?
- É, agora é “meu amor” pra lá e pra cá. Não me defendeu quando ele brigou comigo! Eu só quero ajudar, caramba, eu criei esse menino. Não aceito desculpas. Grande maridão, hein… — Ela saiu e fechou a porta do quarto do casal. O marido ouviu o clique da chave virando. Ele se levantou, foi até à porta do quarto, levantou a mão para bater, mas parou no meio do caminho. Deu meia-volta, esticou as pernas no sofá e colocou no futebol.

AGOSTO

- Não tá se sentindo bem? 
- Não tô com fome, mãe. 
- Mas você tá sentindo alguma dor no estômago? Não é normal você não estar com fome no almoço, ainda mais quando tem macarronada.
- Oras, se você consegue evitar macarronada, eu consigo também.
- Moleque, você tá fazendo isso só pra me provocar? Pois que passe fome, então!
- Então tudo bem. 
Dez minutos se passaram, em silêncio, ele no quarto e ela na mesa, almoçando.
- Não vai mesmo comer? Eu vou jogar fora o que sobrou! Depois vai passar fome.
- Depois eu faço um sanduíche!
- Você é um ingrato, sabia? — Ela reclamou alto, com a voz estridente. — Tá vendo o que a gente botou no mundo? — Perguntou a mãe pra o marido. — Anos abrindo mão das coisas pra depois ele negar até a comida… É assim que filhos são, mesmo, depois que aprendem a se virar um pouquinho sozinhos, acham que mandam no mundo.
- Se ficou tão irritada, simples: cancela a promessa, mãe. Para de fazer essas besteiras por minha causa. 
- Para de me dizer o que fazer, ô, menino! Quando você lavar a própria roupa, a gente conversa de igual pra igual. Até lá, me deixa fazer o que quiser! — Ela saiu carregando a louça do almoço para a pia. — Eu avisei, hein! Vai tudo fora! — Jogou o resto da macarronada da tigela na lixeira. O marido coçou a cabeça.
- Poxa, eu queria esquentar ela de noite, meu amor…
- Cala a boca!

SETEMBRO

- A gente precisa conversar, filho. Senta aí.
- O que foi?
- Essa implicância que você e sua mãe têm um com o outro precisa parar, pelo bem desta casa. Não dá pra fazer um esforço pra evitar, não?
- Por que você não diz isso pra ela? Quem começou com esse negócio de promessa…
- Eu falei com ela, dei um sermão. — Mentiu o pai, que não se atreveria a dar um sermão na esposa sem perder uma parte do corpo. — Ela disse que concorda em maneirar um pouco, mas não vai dar pra trás na promessa porque é orgulhosa demais.
- E bota orgulhosa nisso.
- Vamos lá, garoto, ela é sua mãe, só faz isso pelo seu bem. Ela mesma reconheceu que estava exagerando depois que eu dei uma bronca nela. — Se vangloriou, descaradamente. — E então, o que me diz?
- Pode ser… Se depender de mim, não vou implicar mais, mas ela precisa pegar leve também, chega daquele papinho de “eu te criei” e etecetera.

- Querida, vamos conversar, senta aí. 
- O que se passa? É coisa séria?
- Falei com o nosso filho e dei um sermão nele. Uma baita bronca. Disse pra ele que você é mãe dele e só quer fazer o bem. — Mentiu o marido para a segunda no dia. 
- E o que ele disse?
- Ele entendeu tudo, até ficou emocionado. Ele disse que vai pegar leve, mas espera que você não implique mais tanto com ele com essa situação de “eu te criei” e tudo mais… Ele se sente uma criança quando você diz isso.
- Mas ele ainda é uma criança.
- Só que ele não se sente mais assim… Olha, ele concordou que estava pegando pesado e me prometeu que as coisas vão se acalmar agora, mas pra garantir a trégua entre vocês é melhor parar de dizer isso pra ele. O que me diz?
- Você tem razão, meu amor… Fico tão feliz que você lidou com isso assim, tão inteligente!

Naquela noite o marido dormiu em paz consigo mesmo, sabendo que mentiu, só um pouquinho, para costurar a bandeira de paz que flamulava naquela casa.

OUTUBRO

- Já voltou, que rápido…
- Meu filho, o médico sequer teve tempo de te examinar.
- Foi rapidinho, mesmo.
- Ele só marcou a data da cirurgia? Nem pra examinar de novo?
- Ele não marcou a cirurgia. 
- Ué, não entendi. — Questionou a mãe.
- Hoje a consulta não era pra marcar a cirurgia, filho? Se explica direito. 
- Era pra marcar a cirurgia, mas não vai precisar. Ele examinou rapidinho e não encontrou mais nada.
- Você quer dizer que sumiu?
- Sumiu. Não encontraram nadinha. — O filho esboçou um sorriso, aliviado. — Ele disse que isso acontece às vezes, para quem dá sorte. — Ele acompanhou os pais para dentro do carro, todos com a inesperada tranquilidade estampada no rosto.
Durante o trajeto, todos perceberam que a mãe estava estranhamente quieta, como que saboreando o momento. Ninguém perguntou o que se passava, mas ela deixou tudo bem claro assim que entraram em casa.
- EU AVISEI! — Ela disse, batendo palmas. — EU AVISEI, cambada! Falei pra vocês dois me deixarem fazer minha promessa que ia dar tudo certo!
- Mãe, o médico falou que isso acontece em alguns casos, basta ter sorte.
- Ah, é? Basta ter sorte, meu filho? E essa sorte pra você, assim, vem do nada?
- É lógico, né.
- VEIO DA MACARRONADA QUE EU NÃO COMI, seu cabeção! Eu avisei vocês…
- Mãe, vamos fazer um trato. Eu não digo que você está errada… Desta vez… E você não faz mais promessa nenhuma. Combinado?
- Vamos fazer outro trato, menino: você reconhece que a mamãe aqui pode tudo nas promessas e não se mete mais no que eu decido fazer. Temos um trato?
- Ei, vocês dois! — Falou o pai. — Vocês tinham combinado não pegar pesado, então não peguem pesado.
- Pesado é a força da minha promessa, meu amor! — Ela abraçou-o e deu-lhe um beijo no rosto. Ele corou gostosamente num sorriso debochado. — Mandei muito bem, vocês aceitem ou não!
O filho entrou no quarto, sem esbarrar a porta. Os pais ouviram o clique da porta sendo trancada, mas não viram o menino deitar na cama, estirar os braços e sorrir, escondido.

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