Quatro lições que aprendi na marra sobre a arte de escrever

Sabe aquele erro que deixa você corado de vergonha, com vontade de sumir, mas que traz lições valiosas no longo prazo? Pois é, compartilho aqui algumas coisas que aprendi na faculdade sobre a arte de escrever.

- Alô?
- Pode falar agora, Vi?
- Oi! Tô dando aula… É urgente?
- Os professores do Departamento estão discutindo seu texto.
- Ahn? Que texto?!
- Me liga quando der… a coisa é séria…

Estávamos em 2010, fim da Graduação em Letras, o curso que intensificou minha paixão por escrever.

Em meio à correria do dia a dia, eu sempre arranjava um tempo para publicar em meu blog.

Foi um dos períodos mais produtivos nesse sentido.

Eu estava tão envolvido naquele ambiente acadêmico que tive a ideia de criar uma “paródia” dos nomes das disciplinas, escolhendo títulos que fossem mais condizentes com a realidade, à la Slogans Sinceros.

Seria um sucesso!

Publiquei o texto nas redes sociais e ele logo se espalhou em nosso círculo acadêmico, puxando a fila de comentários de pessoas que eu mal conhecia. Muitos achavam graça e se identificavam.

- Cara, que história é essa?
- Então… estavam discutindo aquela sua lista de nomes das disciplinas na reunião. A professora Fulana está triste, o professor Sicrano está bravo, o Beltrano propôs rever o currículo…
- Como assim? Era só uma brincadeirinha… eu adoro as aulas da Fulana!
- Ela está arrasada… seu texto causou.

Eu gostava muito das aulas da faculdade, especialmente desses professores que meu amigo citou na ligação. No entanto, por melhores que fossem minhas intenções, a verdade é que aquela publicação tinha machucado pessoas queridas e admiradas, simplesmente porque eu não tinha considerado que:

1) O público-leitor é sempre maior do que imaginamos

Ao mesmo tempo que é importante ter um leitor-concreto em mente quando escrevemos, também é importante pensar nos impactos que o texto pode causar se for lido por outras pessoas que estão fora do alvo principal. Não tinha relido o texto do ponto de vista de qualquer professor envolvido e me dei mal. Por isso, sabe aquela sua mensagem instantânea ou aquele seu e-mail corporativo? Lembre-se: eles simplesmente podem ser encaminhados para outras pessoas.

2) De boa intenção o inferno está cheio

Não tive a intenção de machucar os professores. Qualquer pessoa que me conhecesse leria o texto a partir dessa premissa. No entanto, como apenas nós mesmos temos acesso às nossas intenções (e olhe lá!), não podemos nos amarrar a elas para justificar qualquer ato que possa machucar ou prejudicar outra pessoa. Neste caso, por exemplo, eu sei que poderia ter sido mais criterioso em minhas ações. Assim como você pode ponderar antes de escrever algo que, sem querer querendo, possa ser mal interpretado. Na dúvida, melhor não escrever.

3) Se algo faz rir, também pode fazer chorar

O humor é um ótimo caminho para o “sucesso” nas interações sociais, mas ele traz consigo uma responsabilidade imensa. O que é uma simples piada para você pode ser uma ofensa gravíssima para outra pessoa. Sobretudo por escrito, quando é mais difícil captar o tom de voz e o estado de espírito dos interlocutores. Há quem ponha a culpa em quem interpreta, mas eu tenho preferido assumir a responsabilidade sobre aquilo que eu escrevo, procurando continuamente prever as mais inusitadas situações de risco. A criatividade de quem escreve também é necessária nesse tipo de projeção. Nunca terei total controle sobre as reações alheias e a emoção desse risco é um dos aspectos mais divertidos da arte de escrever.

4) Senso de propósito é fundamental

Afinal, por que eu publiquei aquele texto? Apenas para divertir alguns amigos de faculdade? Depois do ocorrido, quando analisei friamente as motivações daquela publicação, descobri que minha vontade de “viralizar” falou mais alto, fazendo eu me precipitar em vários aspectos. Não que viralizar seja ruim em si (a publicidade que o diga!), mas eu tenho buscado compartilhar coisas mais construtivas em meu dia a dia. Quantas vezes pessoas queridas me perguntavam “mas para que você vai publicar isso?” e eu, no fundo, não sabia responder. Se alguém lhe perguntar, você sabe?


Enfim, espero que essa lembrança um tanto constrangedora possa lhe ajudar a identificar pontos de melhoria, assim como ocorreu comigo. Afinal, saber escrever envolve não apenas conhecimento de regras e técnicas, mas principalmente sensibilidade e empatia.

Aproveito para agradecer à Juliana Vanin da Noz Pesquisa e Inteligência pelo gentil convite e pela ótima iniciativa de compartilhar relatos construtivos e com propósito. Os erros realmente são fundamentais para nosso aprendizado contínuo.


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