Espelho (cruel) da sociedade

Espelho, espelho meu, diga se há sociedade mais bela que a do século 21. Sim, há! E os podres dos nossos tempos estão todos expostos na série Black Mirror, que já tem 13 episódios distribuídos em três temporadas na Netflix.

A relação entre mídia e tecnologia dá o tom desse seriado, que ainda toca em feridas como a importância dada à fama a qualquer custo, ética, moral, invasão de privacidade pelo celular, clonagem em benefício próprio e tantas outras. Sempre de uma maneira ácida — muitas vezes bem-humorada — e contundente.


Logo no episódio de estreia da primeira temporada, Hino Nacional, Black Mirror mostra ao que veio. Ali, o primeiro-ministro britânico é colocado numa sinuca de bico. A princesa Susanah, membro mais querido da Família Real, é sequestrada. E vem aí o primeiro sinal de que os tempos são outros: o pedido de resgate é feito via YouTube. Afinal, que usa telefone para fazer ligações hoje em dia, não é mesmo?

E nada de dinheiro: em tempos modernos, humilhação vale mais do que qualquer quantia. Para que a menina seja liberada, o político precisa fazer sexo como uma porca numa transmissão televisiva ao vivo para todo o país.

Tentar enganar os bandidos é uma saída procurada pelo primeiro-ministro, mas a maior burrada é achar que pode enganar a internet, o olho que tudo vê. O político faz de tudo para que a notícia não se espalhe, tenta tirar o vídeo da rede (tarde demais, meu caro!) e impedir que ele se torne um viral. Mesmo? Em 2016? Não, né!


A notícia se espalha e agora a crítica se volta para nós, a mídia. O que fazer quando um vídeo como esse chega à redação de um jornal ou programa de tevê? Tentar checar a veracidade? Mas dá tempo antes de a concorrência dar a notícia? Preservar a intimidade do primeiro-ministro, que pediu aos principais meios de comunicação para que a exigência dos sequestradores não viesse a público? São vários os jornalistas que fazem jus à fama que a mídia inglesa tem de sensacionalista. Black Mirror deita e rola e critica sem dó a espetacularização da notícia que vemos hoje em dia em todo o mundo.


Não é só para a mídia que a metralhadora de Hino Nacional está apontada. O público não escapa. Quando a notícia de que o primeiro-ministro se renderá à exigência do sequestrador é divulgada, a opinião pública até se divide: uns apoiam que ele deve fazer tudo para salvar a princesa, outros consideram que a Polícia é que deve cuidar do caso. A única dúvida que não fica é: sim, queremos ver a cena!

Ninguém quer perder o grotesco de quer um homem poderoso fazendo sexo com uma porca em rede nacional.

A enfermeira diz que vai assistir com um as mãos sobre os olhos. É como fazemos com os reality shows da família BBB: ninguém admite, mas todo mundo dá pelo menos uma espiadinha.

Um olho está aberto, o outro fechado, numa cegueira conveniente. Não para Black Mirror. Aqui, está tudo escancarado!

Veja Black Mirror porque:

  • Não tem cara de novela. Os episódios são independentes entre si.
  • O clima de tensão acompanha todo o seriado.

Não assista a Black Mirror se você:

  • Não gosta de episódios longos em seriados. Aqui, eles têm média de uma hora. Alguns chegam a uma hora e meia. É quase um longa-metragem.
  • Tem medo de se olhar no espelho. Uma das críticas (muitas, acredite!) vai te pegar de jeito.