Como entender que “a beleza salvará o mundo"?

Vinicius Antunes
Nov 1 · 5 min read

Fiódor Dostoiévski (1821–1881), célebre romancista russo, autor da frase que é motivo desse artigo. Encontra-se ela em sua obra “O idiota” (1869), parte III, capítulo V.


Imaginemos que um desses homens, descrente das grandes verdades e religiosamente fiel de si mesmo vai à França para assistir o velório de seu irmão. Chegando lá pela manhã, tem um tempo livre até a hora da visita para despedir-se do defunto, pois a cerimônia está marcada somente para as 19h.

Então ele passeia pelas ruas centenárias, contempla a paisagem, toma um café em algum desses comuns cafés franceses (que tem a estima quase que real dos estrangeiros) e vai visitar alguns museus.

Nesse meio tempo, algo de diferente já aconteceu com esse nosso pitoresco personagem: sente-se mais leve, e até mais feliz; tudo enche-lhe os olhos.

Nos museus ele vê grandes obras: as milenares esculturas gregas, alguns ídolos neolíticos, umas poucas máscaras ritualísticas de algumas tribos longínquas, os quadros de Ingres, Matisse e Rembrandt, solenemente confinados em salões monumentais, alguns destes em estilo Rococó, outros em Neoclássico, outros em Moderno e assim por diante.

Ele olha uma obra e reflete: algo lhe incita. Ao contemplar aquela simples e sincera melancolia no olhar de um dos famosos autorretratos de Rembrandt, pensa consigo, mesmo que inconscientemente: “queria eu ter esse olhar ante a vida, que é simples, mas profundo e verdadeiro...”; anda mais um pouco e se depara com uma escultura de Hércules e pensa consigo mais uma vez: “quisera eu ter essa altivez e forças, essa coragem para enfrentar um leão…”.

Sai do museu pois está quase na hora de ir conversar com seu querido defunto. Vai apressado, mas com aquele sentimento leitoso e pacífico que todos nós sentimos ao viajar a um local que facilmente nos faz pensar que poderíamos chamar de “lar”; chega na capela e o padre está rezando o Ofício do Defuntos. Terminada a hora canônica, dois monges o ajudam para a Missa, vão a sacristia paramentar-se. Nosso personagem senta-se bem a frente, e em silêncio fica a admirar a construção, suas colunas, suas paredes, vitrais, afrescos, a pequena orquestra a se preparar, afinar pela última vez o violino e aquecer a voz. O caixão está logo a frente. Soa o sino, o padre sai da sacristia em procissão, vai ao altar e inicia as “Orações ao Pé do Altar”. Cada momento e etapa é acompanhado pela orquestra, que humilde e singela, torna ainda mais majestoso aquilo, como se trouxesse vida à morte.

Tocado por todos esses elementos, esse homem vai aos poucos tornando-se mais sensível e vendo melhor a realidade das coisas: seu irmão está morto, assim como logo ele estará; e algo foi sendo somado a si em cada momento daquele dia, algo que o fez descobrir coisas que se devem buscar e ser, e naquela ocasião de cerimônias mortuárias, aquele homem começou a viver.

E é assim que a beleza salva o mundo, pois salva o homem antes de tudo. Mas permita-me o leitor, agora explicar melhor tudo isso, pois creio que ainda não esteja muito claro o “como a beleza salvará o mundo?”.

Quando consideramos essa frase, a tomamos como verdadeira, ela e suas implicações; e se dizemos que “a beleza salvará o mundo” também dizemos que esse mesmo mundo padece um estado de perdição, caso contrário, não haveria necessidade de um salvador.

Um salvador é tal por precisamente ser o contrário daquilo que aprisiona e oprime; tem um valor contrário, ou é um valor contrário. Por isso, para que a beleza salve, é necessário um estado de “feiura” ou de “horrendo”. Mas como algo que aparentemente é só uma característica estética pode salvar um ser humano integral? E mais ainda, como acreditar que o estado de feiura pode levar a se perder alguém?

É simples, basta que ouçamos o bom e velho Platão. Sua tão famosa “Teoria do Belo" (Estética) nos diz que o “Belo é o rosto do Bem e do Verdadeiro”, ou seja, que esses três são um só, e que o Belo é a face deles, ou seja, o manifestar, o meio de encontrá-los. E a inversa é verdadeira: assim como o belo, o feio, seu inverso, também é rosto de algo: do mal e do falso (tenhamos em mente essa distinção: existe o belo enquanto valor, que estuda a Estética, e o Belo como Ideal (em suma, como atributo de Deus), do qual o belo como valor deriva. (Um valor é uma qualidade que adiciona um bem ao ser que o “porta” e que tem sempre seu contra-conceito polar, ou seja, para o “belo” há o “feio”).

A beleza é o belo manifestado nas coisas, o belo enquanto valor. Então quando algo é belo, quando algo tem beleza, nós o damos valor, se torna valioso, se torna um bem, mas mais que isso: mesmo que não percebamos, se torna um bem por ser verdadeiro.

Pois a beleza de ser um ser humano, consiste em ser plenamente um ser humano, plenamente ser aquilo que se deve ser: por isso, nada há mais belo que um homem virtuoso, ou uma mulher virtuosa: pois tomou e fez efetiva a verdade íntima de seu ser, e como consequência, adquiriu valor e beleza.

Uma obra de Arte é dita autêntica quando é bela, quando tem beleza, portanto: pois ela parte da representação da natureza, e a reordena, recoloca, a altera segundo seu objetivo, mas o faz com beleza se preserva a verdade de cada um dos elementos representados: os quadros de Millet, por exemplo, por objetivos que sejam em seus fins, são belos por conservarem a verdade dos seus representados e por os colocar em um âmbito muito mais amplo e significativo; o mesmo se pode dizer dos quadros Aivazovskii: por ter-se mantido fiel à realidade dos mares, ondas e tormentas que representava, e nessa realidade concreta deles, os ter posto em um âmbito mais significativo e simbólico, tornam-se belos, pois tendo a verdade, transformam-se em bem de alto valor.

Tudo isso podemos condensar na frase: “O belo é esplendor da verdade”. E é pelo belo manifestado na beleza, que chegamos ao Belo: mas chegar ao belo, é também chegar ao bem e ao verdadeiro, e é a Verdade que salva os homens. A beleza nos mostra, através de homens e obras, o quê devemos e podemos ser; e a partir desta intuição, dessa consciência que nos dá a beleza que trilhamos o longo caminho do perfazer-se na verdade, que é o termo da vida e aquilo que chamamos “salvação”.

Portanto, a “beleza salvará o mundo!”

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