Das estórias de sereno (ou sobre ser mastigado)

Photo by Dang Cuong on Unsplash

Pegar sereno, não sei bem onde surgiu essa expressão, mas eu a ouvi a primeira vez naquele samba em que Rosalina é maneira, mas só quer viver na zoeira, só quer viver no sereno. De todas as coisas que se faz na vida, pegar sereno é a que mais testa nossa condição sanitária. Menos pelas doenças venéreas, mais pelas emocionais. Fique uns anos no sereno e terá sido suficiente para ter sido mastigado, fibras musculares do coração desfeitas pelas unhas e os dentes alheios (em referência à — minha modesta opinião — genial lauracronismo), e cuspido do avesso por quem não te quer mais mastigar, umas tantas vezes.

Das tantas, lembro-me em especial de algumas.

Nunca me esquecerei da primeira vez que isso me aconteceu em uma festa. Na verdade, nada aconteceu, e isso foi mastigada que baste. Era uma boate — nome que ainda se dava na época, depois mudou –, achei surpreendente que meninos dançavam! Evidentemente eu era um jovem adolescente tanso demais para sair no sereno. Eles dançavam coreografados, junto com as meninas, e alguns até melhor, todos virados para o mesmo lado da pista, passinhos no ritmo do sertanejo. Era ridículo, mas achei muito legal! Compenetrados, como se estivessem fazendo algo sério demais para sorrir. Não há nada sério demais do que não se possa rir. Tinha também meninos que dançavam músicas lentas, pegando na cintura das meninas, e elas até fechavam os olhos e pareciam que suspiravam. Usavam topetes engraçados. Naquela vez eu fiquei apaixonado por uma garota, não me lembro se foi minha primeira paixão, acho que não. Nem tive coragem de chamar para dançar — mesmo que eu soubesse. Escrevi um bilhete para ela, que ela me respondeu. Foi um momento de pura euforia, de entrega verdadeira da minha alma ao amor, de deleite e inimaginável regozijo, peito aberto, coração na mão, e quando eu abri o bilhete dela: eu havia errado a ortografia, ela me corrigira.

A mastigada atômica. Tempos depois, eu fui em uma festa de amigos de colegas do colégio, organizada em um casarão abandonado, com vãos escuros, espaços escondidos, e corredores entre cômodos abarrotados de gente. Chão sujo, uns pisos eram de concreto, outros de terra, paredes eram tijolos à vista, algumas com grafites. Tinha um jardim, que era só mato, garotos e garotas de dreadlocks, uma banda de maracatu — paranauê, aueá, auê –, muita fumaça, bebida destilada sem marca, quente, misturada com refrigerante de marca, também quente. Mais um tanto perdido da minha doce condição sanitária: os dreads fumavam o mato dançando maracatu. Meninas e meninas e meninos e meninos andavam abraçados e se esgueiravam para os vãos escuros. Não sabia o que iam fazer lá. Tudo era atômico naquela festa, o maracatu, a bebida, os dreads, e eu usava gola polo e gel.

Uma outra vez, era uma balada eletrônica na Augusta. Eu era jovem demais para o sereno da Augusta, acho. Não tinha barba, nem carteira de motorista, mas achava que sabia beber. Já chamavam de balada o que antes eram as boates. Não sei como chamam hoje, mas eu ainda uso balada. Pode ser que eu esteja velho. Na época, quando dois se beijavam, dizíamos que eles ficaram: o Pedro ficou com a Dani — expressão sempre pronunciada em tom de fofoca com climão de novela. Hoje é crush, ou match, ou sei lá o que que se usa — e nunca são pronunciados em voz alta, ao invés disso, posta-se uma foto nas redes sociais com um gif animado, e amigxs sacanxs comentam: “assumiu pro Brasil” … Enfim… Naquela balada, lembro-me só dos flashes. Não que eu estivesse bêbado, era a iluminação do lugar, canhões de luz bombavam flashes pela pista ao som do techno — what is love tuntsss tuntsss tuntss. Víamos os movimentos em quadros: cara, flash, sorriso, flash, cabelos, flash, braços para cima, flash, cabelos de novo, flash, braços para baixo, flash, mais cabelos, flash, sorriso, flash, olhou de lado, flash, olhou de outro, flash, boca, flash, outra boca, flash, abraços, flash, mãos, flash, na bunda, flash, o Pedro, flash, ficou, flash, com a Dani, flash. Eu era apaixonado pela Dani. Eu usava dreads, o Pedro, polo e gel. Mastigada. Flash.

Raspei a cabeça, foi o melhor que eu fiz, além de que já era tempo de faculdade, e os veteranos não deixavam os bichos usarem cabelo para além da primeira semana de aula — a juba é ornamento do alfa, diziam. Eu fui careca o resto da vida. As festas da faculdade eram nos gramados do campus, não tinha teto, e no inverno o sereno gelava os ombros tal que, dizia uma lenda, só o beijo de uma garota podia esquentar. Eu aprendera a escrever, conhecia o maracatu, o eletrônico, o rock, e eu não seria mais o estranho da festa, meu destino era fazer cumprir a lenda do beijo. Meu destino se acabou no chamego de um xote, que eu não sabia dançar. A caloura, linda, de calça jeans e blusinha, ficou com um carinha de bermuda suja e moletom com capuz, que sabia forró. Eles até tinham tirado os casacos, de tanto calor. Poucas coisas podem nos ensinar tamanha humildade quanto pegar um sereno. Mastigada lendária.

Depois a gente, na zoeira, no sereno, feito Rosalina, vai aprendendo como se faz. Ganha umas, perde outras, é mastigado e mastiga. Aí você se desapega das garotas mais disputadas, e justamente nesse desapego, me parece, elas se apaixonam, baita ironia, ou baita sina de chiclete, cuja existência só é completa quando é mascado e cuspido. Deus não joga dados, jogador somos nós, Ele joga é ironia na nossa cara, e se diverte. Talvez assim é que surjam os loucos, perderam suas condições sanitárias de tanto sereno. Baita ironia: você quer conhecer uma pessoa legal, mas aí ela não aparece, no lugar vêm o povo já mastigado demais.

Uma dessas me topou no hall do prédio, sorriu: está uma noite linda para tomar um vinho, ela disse. Eu tinha um compromisso. Naquela mesma noite ela acordou o prédio todo aos gritos, jogava da varanda do sexto andar, roupas, latas e pacotes com comidas diversas, leite condensado, ervilha, bolacha, sapatos e uma televisão. A polícia entrou no prédio naquele dia, ninguém dormiu. O que aconteceu? Me pergunto ainda hoje. Não sei se ela estava com alguém, ou se foi loucura dessas de verdade, coisa séria demais para se sorrir. Duas semanas depois ainda tinha ervilha no jardim do térreo.

Teve outra, numa festa da república. Costumávamos nos reunir depois do jantar servido no restaurante universitário, bebíamos e jogávamos truco. Naquela noite, o cardápio tinha sido frango com creme de milho, e macarrão. Estávamos no grupo dos amigos, mais a namorada do Videira — frequentemente apelidávamos pelo nome das cidades natais: Videira, Petrolina, Macaé, Xaxim… O casal, eles tinham terminado, ou não, nem podíamos dizer direito, sequer tinham começado, acho… Era desses relacionamentos que, para não se definir cedo demais, não se definia nunca. Ela bebeu mais do que podia, dançou em cima da mesa e vomitou na gaveta da cômoda da sala. Na gaveta tinha só coisas velhas, uns papéis que ninguém sabia de quem, umas contas e cupons fiscais, tudo muito amarelo desbotado, e depois, por cima, teve também macarrão e milho. Frango não teve. Ninguém soube explicar o porquê de algumas coisas às vezes voltarem e outras só irem.

Uns são cuspidos — melhor do que gorfados, diga-se — outros acabam que ficam para sempre. Curioso é que me parece ser justamente ao cumprir essa sina de ser mastigado e cuspido, de pegar sereno, de levar ironia na cara, de rir com Deus do que ele faz com a gente, é que a gente acaba se higienizando. Recuperamos a sanidade meio que sem querer, e aí o desejo de encontrar alguém legal se realiza. Todo mundo precisa pegar sereno, acho. É bom para humildade, é bom para a sanidade, ajuda a criar aquela casca que te faz grudar que nem velcro (ou que nem chiclete — ironia!) no que tem que ficar. E é bom para ir aprendendo, que depois vem a família e os filhos, aí é que vais saber de verdade o que é ser mastigado.


Em tempo, um aviso. Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas e fatos reais é mera coincidência. Imagens meramente ilustrativas.